quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Os japoneses no bairro da Liberdade


Os japoneses começam a se aglomerar na Liberdade


Em 1932 eram cerca de 2 mil os japoneses em São Paulo, vindos do Japão ou de fazendas, de onde fugiram ou não renovaram contrato com os fazendeiros. Os semelhantes se atraem, e eles se estabeleceram na Liberdade, atraídos pela turma da Conde de Sarzedas.

Naquele ano, cerca de 600 japoneses moravam na rua Conde de Sarzedas. Outros se espalhavam nas ruas Irmã Simpliciana, Tabatinguera, Conde do Pinhal, Conselheiro Furtado, Tomás de Lima e Rua dos Estudantes.

Funcionava na região um microssistema econômico, com os estabelecimentos comerciais de propriedade de japoneses, que atendiam principalmente a “colônia” ali estabelecida.


Os hotéis para japoneses

Muitos japoneses vinham para a cidade de São Paulo para tratamento de saúde, para tratar de assuntos burocráticos, visitar familiares, procurar emprego, etc. Para atender esses viajantes, surgiram os hotéis na Liberdade, pois os visitantes desejavam ficar perto de restaurantes de comida japonesa e ficar perto dos conterrâneos, pois isso dava uma sensação de acolhimento e segurança. Podiam também fazer compras de produtos japoneses nas lojas da Conde de Sarzedas.
Em 1914 inaugurou-se o primeiro “hotel japonês”, a Pensão Ueji. Logo em seguida, os hotéis Hotel Ogawa Nomura e Hotel Tokiwa.

Os hospedes desses hotéis conheciam então o bairro, e muitos deles, ao se mudarem para São Paulo, procuravam a Liberdade.

A Pensão Ueji, estabelecida na Rua Dr. Tomás de Lima funcionava como uma pensão e ponto de acolhimento para os imigrantes que vinham do interior ou chegavam do Japão em busca de oportunidades.

As salas de cinema da Liberdade


Com o crescimento do bairro, inaugurou-se no bairro em1953 o Cine Niterói. "Nitto" quer dizer "japones", e Niteroi é a união de Nitto + heroi. Era um cine voltado para o cinema japonês, Um cinema deste gênero, étnico, demonstra a força da colônia japonesa na Liberdade. 

Logo em seguida, vieram outros cines na mesma linha, o Cine Tokyo (inaugurado em 1954), o Cine Nikkatsu (1962), o Cine Joia (1958) e o Cine Nippon (1959). 

Cine Niterói, sem data


 
Inauguração do Niterói, 1953

Capa programa inauguração Cine Nikkatsu



O preconceito contra os jovens solteiros

Quando um jovem imigrante japonês solteiro abandonava a colônia ou a fazenda de café (fugia), os que ficavam diziam : “esse virou vagabundo. Foi para São Paulo, pois não quer pegar na enxada. Não gosta de trabalhar”. Esses jovens acabavam sempre na Liberdade. Pela primeira vez na vida independentes, sem nunca terem morados em cidade grande, sem experiencia, muitos gastavam todas as economias em bares e outras diversões.

A Liberdade se estabelece como “colônia urbana” japonesa

A vida não era fácil para nenhum imigrante que viviam em São Paulo, mas havia trabalho, comida e moradia. Nos anos 20 e 30, eles já estavam integrados à vida da cidade, alguns trabalhando em bancos, em construção civil, etc.. Havia a turma que trabalhava nos escritórios das empresas de imigração, era a turma do "colarinho branco". 

Os que permaneciam nas colonias, trabalhando, diziam que "a turma da Liberdade é mole, não aguentou o trabalho da roça."

Havia treinos de beisebol nos fins de semana, as crianças podiam estudar em nihongakko. Podia-se saborear comida japonesa nos pequenos restaurantes da Liberdade, e ler publicações em japonês.

E assim aos poucos, foi a Liberdade tomada pelos japoneses. Hoje há quem diga que o bairro é mais chines e coreano que japonês. 

A vida dos imigrantes da Liberdade, apesar de simples e difícil, transcorria tranquila e estável.

domingo, 18 de outubro de 2026

O Bairro da Liberdade - indice

 


👉 01 - A Rua Conde de Sarzedas

👉 02 - Os japoneses invadem a Liberdade


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Bairro da Liberdade - Rua Conde de Sarzedas

 

Os porões da Rua Conde de Sarzedas

Impossível falar da história do bairro da Liberdade sem comentar sobre essa icônica rua.

Por volta de 1912 os imigrantes japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, em cuja parte baixa havia um riacho e uma área de mangue.

Quase todas as casas dessa rua tinham porão, e os aluguéis dos quartos nesses porões eram muito baratos. Evidente, não eram nada confortáveis, os porões eram mal iluminados e mal ventilados.

As janelinhas abaixo das janelas grandes são de porões (R. dos Estudantes)

Os porões na Rua Carolina Augusta

Apesar do preço módico, as famílias não tinham condições de pagar aluguel sozinhas, e por isso muitas delas se juntavam e compartilhavam um porão, ou até mesmo uma pequena casa. 

Havia muitas "repúblicas" de moças e rapazes solteiros.

Para aqueles imigrantes, aquele cantinho ignorado da cidade de São Paulo significava esperança por dias melhores. A rua foi escolhida não só pelo preço dos aluguéis, mas também devido à proximidade com a Praça da Sé, de onde partiam os bondes. Dali, podiam pegar o transporte coletivo para irem trabalhar.


Bairro Liberdade 

Os produtos japoneses na Conde de Sarzedas

Aos poucos começaram a surgir as atividades comerciais voltadas ao imigrante japonês: empório, uma casa que fabricava tofu, outra que fabricava manju, agencia de empregos, tornando a Conde de Sarzedas “a rua da japonesada”. Porém o grande atrativo da rua era um estabelecimento que vendia shoyu. Esse local atraia muitos imigrantes japoneses que vinham à São Paulo e voltavam ao interior carregados de shoyu. A introdução desse molho no Brasil melhorou muito os hábitos alimentares dos japoneses: passaram a apreciar, finalmente, o sukiyaki, o sashimi, o nishime, o daikon, etc.

A vida japonesa fervilhava na Conde de Sarzedas, de tal forma que se formavam pequenos grupos, associações recreativas, e até time de beisebol.

Por fazer esquina com a Conde de Sarzedas, a Rua Tomás de Lima também foi aos poucos tomada por imigrantes japoneses. 

A Conde de Sarzedas, retratada pelo artista Tomoo Handa

A vida difícil dos imigrantes da Conde de Sarzedas

Não foi nada fácil a vida dos primeiros imigrantes japoneses da Conde de Sarzedas. Como não falavam o português, era difícil arranjar um bom emprego. Entretanto, havia uma grande vantagem: os japoneses tinham, apesar de não falarem o português, fama de trabalhador dedicado, responsável e disciplinado. Por sua vez, o japonês, sendo analfabeto (no romaji, pois sabiam ler e escrever em japonês) e não falando português, procurava compensar essas deficiências trabalhando com muita dedicação.

Boa parte trabalhava como carpinteiro, pedreiro e motorista de caminhão. Alguns conseguiam o emprego de motorista particular ou empregado de família rica, um emprego muito desejado por todos.

Entretanto o emprego mais comum era de empregado doméstico, na época, chamado de “copeiro”, exercendo as funções de copa, serviços de faxina, auxiliar de cozinheiro, jardineiro e lavador de pratos.

O vicio pelo jogo do bicho

O jogo do bicho era uma das poucas diversões dos japoneses. Na falta de grandes emoções, de outros entretenimentos,  para dar um pouco de emoção ao dia, muitos se tornaram jogadores do bicho. Algumas famílias tiveram problemas com isso, pois perdiam dinheiro, que já era pouco.

O beisebol e o tênis na Conde de Sarzedas

Em 1916 o imigrante Kenji Sassawara organizou um grupo de beisebolistas, que passaram a treinar num terreno baldio, na Rua Conde de Sarzedas, que o chamavam de “campo da Sudan”, pois esse terreno ficava ao lado de algumas instalações da Fábrica de Cigarros Sudan. Talvez seja esse o primeiro time de yakiyu da história do Brasil.

Em 1925 foi a vez do tênis de campo: os japoneses inauguraram uma quadra na Sarzedas.

Time de beisebol (Yakiyu) no "campo da Sudan"
Fonte "O imigrante japonês", Tomoo Handa

O nihongakko na Rua Conde de Sarzedas

Em 1914 o professor Shinzo Miyazaki passou a lecionar japonês em casa. No ano seguinte criou a Escola Primária Taisho. Mais tarde, em 1919, contratou uma professora, dona Antonia Santos, para lecionar o idioma Portugues. A escola chegou a ter 300 alunos. 

A rua Conde de Sarzedas começa a ter ares de bairro japonês, tendo inclusive um nihongakko.

 

Alunos da Escola Taisho - prof. Shinzo Miyazaki a direita
Fonte: "O Imigrante Japones", Tomoo Handa

Aos poucos, os japoneses começaram a chegar e morar nas proximidades da Conde de Sarzedas, onde a Liberdade, como bairro japonês, começou.

Com o passar do tempo e a melhoria da renda familiar, os japoneses abandonaram os porões e alugaram ou compraram moradias melhores.

R. Conde de Sarzedas, 1937

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Fontes: "O imigrante japonês", Tomoo Handa; "Recordações de um imigrante japonês no Brasil", Kazuo Yokomizo/Ana Paula Momose; e outras

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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O fim do projeto Koutakussei no Amazonas

 O fim do projeto Koutakussei

O projeto Koutakussei sofreu seu primeiro golpe em 1934, ainda nos primeiros anos de funcionamento, com a promulgação da Constituição Brasileira. Num ato de extrema idiotice, a Constituição em seu artigo 121 do parágrafo 6 decretou:

 "A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante, não podendo, porém, a corrente imigratória de cada país exceder, anualmente, o limite de 2% sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos 50 anos". 

Como o projeto Koutakussei previa a entrada de mais de 10 mil famílias, essa restrição praticamente reduziu as dimensões do projeto e espantou investidores. Esses 2% mal cobriam a demanda de imigrantes do estado de São Paulo. 

Para piorar, no artigo 130 dessa Constitição foi determinado que: "Nenhuma concessão de terras de superfície superior a dez mil hectares poderá ser feita sem que, para cada caso, preceda autorização do Senado Federal", pelo que surgiu, posteriormente a questão da ilegalidade da concessão de terras ao projeto Koutakussei feita pelo estado do Amazonas.

Em 24 de agosto de 1936, na então capital do Brasil, Rio de Janeiro, na sessão do Senado  foi deliberado, pela última vez, o assunto da concessão de terras ao projeto Koutakussei. Apesar dos esforços de Tsukasa Uetsuka, não foram aceitos os seus argumentos;  e por fim decretada a anulação da concessão feita pelo estado do Amazonas.

Uetsuka contou que poderia recorrer judicialmente, alegar a não retroatividade da lei e o principio do direito adquirido. Entretanto, não fez petição,  alegando que não era de bom senso azedar as relações entre os países, Brasil e Japão. 

Shin Sekai Asahi Shinbum, California, 17/06/1936


A Segunda Guerra Mundial - o golpe final

Com o inicio da Segunda Guerra Mundial, o projeto sofreu o golpe final  dado pelo governo federal.

Getulio Vargas decretou confisco dos bens dos japoneses. Com isso, foi declarada nula a doação das terras do projeto e confiscado o complexo Centro de Pesquisa Industrial da Amazônia. O complexo foi vendido para um milionário português radicado no Brasil, Joaquim Gonçalves de Araújo, por um valor irrisório. Ele construiu uma mansão no local, hoje aberto a visitação turística. 

As terras já em poder dos colonos na Andirá foram desapropriadas.

Casarão de Joaquim G. Araújo, em Vila Amazônia

Como em outras partes do Brasil, os imigrantes japoneses foram proibidos de fazer reuniões públicas e de falar seu idioma, uma proibição impossível de ser cumprida naquele núcleo colonial.

Muitos foram feitos prisioneiros de guerra e levados para Tomé-Açu, no Pará. Outros se esconderam na mata, e muitos deles foram secretamente acolhidos por nativos que se simpatizavam com os japoneses.

Alguns retornaram à Colônia Andirá, onde clandestinamente permaneceram, com discrição. 

O kaikan da Vila Amazônia foi transformado em escola brasileira, Escola de Santa Maria de Vila Amazonia e mais tarde, infelizmente, demolido.

No início da década de 50, já encerrado o conflito, Uetsuka tornou a procurar Getúlio Vargas para propor a criação de uma tecelagem, a Tecejuta, e com isso recomeçar a produção da juta. Segundo um relatório que deixou escrito, o projeto teve o apoio do presidente. Porém Getúlio faleceu em 1954, dando fim ao plano de  continuidade do projeto.

E assim, extinguiu-se o projeto Koutakussei. A Colonia Andirá, após o ciclo da juta, foi abandonada, e as árvores voltaram a crescer. Hoje ela está novamente coberta por floresta.

Colonia Andirá, 2025 - hoje coberta de mata

Praia fluvial de Itaracuera, Rio Uaicurapá, onde antes era Colônia Andirá, 2025

Conclusão final

Infelizmente, o governo federal brasileiro cometeu um erro gravíssimo, e sem motivo para tal. Se o projeto Koutakussei fosse adiante, e tivesse apoio (em vez de repúdia) do governo, poderia constituir numa grande corrente migratória, provocando um grandioso desenvolvimento econômico no Amazonas, tal como ocorreu no estado de São Paulo, com os imigrantes japoneses, italianos e outros.

O projeto Koutakusssei foi muito bem elaborado, com um altíssimo grau de profissionalismo. Escolas, treinamentos, pesquisas, agrimensura, adesão voluntária, apoio do governo do estado do Amazonas, etc. tinha tudo para dar certo, mas o governo federal, inflamado por um sentimento de nacionalismo equivocado, praticamente decretou a morte do projeto.

Casarão de J.G. Araújo em Vila Amazônia, 2025

Vila Amazônia, 2025

Vila Amazônia, 2025


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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os koutakussei e a produção de juta na Amazônia


A introdução da juta no Brasil

A juta é uma planta, de cujo caule se extrai uma fibra, muito resistente. Ela era usada para fabricação de fios para fabricação de sacos para cereais (“sacaria”).

Plantação de juta

Na época dos koutakussei, toda as sacarias vinham da India, grande produtora de juta. Existia no Brasil uma demanda gigantesca de sacarias, para ensacamento de café, e mais tarde também para soja.

Café em sacaria de juta

Sacas de café ensacadas com sacaria de juta

A produção da juta pelos kouakussei foi o maior sucesso do projeto.

Kotaru Tsuji sugere Uetsuka a levar a juta a Amazônia

Kotaru Tsuji, formado em 1927 na Escola Superior do Comercio de Kobe, partiu para o Brasil em viagem de pesquisa científica promovida pelo Ministério da Cultura do Japão.

Na Amazônia, na área de Igarapé Açu (PA), notou que a malva, um planta muito parecida com a juta, crescia com abundância. A malva produz a fibra usada para fabricação do linho Tsuji, supôs então que a juta poderia também, tal como a malva, se adaptar bem a região.

De volta ao Japão, Tsuji foi convidado por Uetsuka para lecionar na recém-inaugurada escola Superior de Colonização Kokushikan, onde viriam a ser formados os kotakuseis enviados à Amazônia. Tsuji passou a Uetsuka a sugestão de produzir a juta na Amazônia.

Convencido por Tsuji, em 1933 Uetsuka enviou a Índia um especialista em agricultura, Isaku Kino, professor da Kokushikan, para estudar tudo o que fosse necessário sobre o cultivo e industrialização da juta. Em agosto desse mesmo ano, segundo o relato de Uetsuka, Kino retornou ao Japão e foi enviado imediatamente ao Amazonas com sementes adquiridas em Calcutá, as quais foram plantadas em terras da Colônia Modelo do Andirá.

Mas deu tudo errado. A juta não se desenvolvia como o esperado e não atingia a altura ideal para viabilidade de exploração econômica (cerca de 4 metros).

Os espécimes de juta trazidos, deveriam ser plantados em locais alagados, e muitas vezes a colheita era feita em época de cheias, obrigando os koutakussei colherem  os ramos com meio corpo submerso.

Ryota Oyama descobre dois espécimes viáveis

Os estudos da planta se estenderam por dois anos, quando então o koutakussei Ryota Oyama (1882-1972) observou que duas mudas haviam crescido à altura desejada. Ele teve a ideai de transplantar essas mudas para um local mais alto, livre de enchentes. Por um golpe da má sorte, acabou quebrando uma das mudas no caminho. Restava, então, um único espécime que poderia gerar hastes longas. Essa haste se desenvolveu bem e gerou sementes, que Oyama colheu.

Oyama dividiu as sementes com outro koutakussei, Yoshimasa. Em 1937, Ryota Oyama colheu seis toneladas de juta e Yoshimasa, quatro toneladas, gerando também sementes do novo espécime, dando início ao clico econômico da juta.

Casa de koutakussei produtor de juta (no varal, secando)

Em Manaus, duas tecelagens foram instaladas, a Brasiljuta e a Fitejuta.

Em 1937, o Brasil comprou 37, 5 toneladas de juta indiana. Dez anos depois, as sementes de Oyama já haviam tornado o Brasil autossuficiente na produção dessa fibra. Entre 1937 até 1942 o Brasil produziu 5.000 toneladas de juta.

Ryota Oyama ficou conhecido como “o pai da juta brasileira”.

Ryota Oyama

Tsukaza Uetsuka e fibras de juta


O fim do ciclo da juta na Amazônia

A partir dos anos 70 a sacaria de fibra de juta passou a ser substituída por um saco feito de um tecido (rafia) de  fios sintéticos (polipropileno PP). Essa nova saca era mais resistente e mais barata que a de juta. Aliado a isso, o processo logístico da soja começou a ser realizado por containers, não mais por sacaria. 

Saco de rafia

Hoje a fibra de juta é usada em baixíssima escala, na fabricação de saquinhos decorativos e embalagem de presentes.

 

Saquinho de fibra de juta

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domingo, 11 de outubro de 2026

A Colonia Koutakussei Andirá no Amazonas

 

A Colônia Andirá dos koutakussei na Amazônia

Em 1933, Kotaro Tuji e Sakae Ochi foram os encarregados a organizar a Colônia Modelo de Andirá na área da concessão, situada entre os rios Uaicurapá e Andirá para onde eram encaminhados os colonos e koutakusseis para levar avante a colonização agrícola. A Colônia Andirá ficava a mais ou menos 30 km da Vila Amazônia, por via fluvial.

A Colônia Andirá

O encaminhamento para a colônia era feito após longo treinamento na Vila Amazônia, no Centro de Pesquisas Industriais da Vila Amazonas, conhecido por Instituto Amazonas.

A ida da Colônia Andirá até Vila Amazônia era em direção à jusante (foz) do rio Mamuru e em seguida pelo Rio Paraná do Ramos, também em direção a jusante. Portanto a ida era toda a favor da corrente.

A colônia foi elaborada em 5 grandes glebas (mapa), cada uma recebendo turmas diferentes de koutakussei.

As cinco glebas da Colônia Andirá

Apesar da concessão ser de 1 milhão de hectares, a Colônia Andirá não representava mais que 5% desse milhão.

A destinação das terras

Boa Esperança - 1a. turma de koutakussei
Boa Fonte - 2a. e 3a. turmas de koutakussei
Santa Luzia - 4a. turma 
Doce - 5a. e 6a. turmas
Taubaquera - 7a. turma

A vida difícil nas colônias

Como era de imaginar, a vida no interior da mata Amazônicas nos anos 30 era duríssima. A Colônia Andirá era isolada, não existiam estradas. O único meio de transporte era fluvial, feita por barcos, e a única estrutura de apoio era na Vila Amazônia, a aproximadamente 30 km por via fluvial.

Os japoneses subestimaram a floresta. Por isso muitos koutakusei faleceram precocemente, antes dos 40 anos, de malária, febre amarela ou outras infecções desconhecidas. Aconteceram muitos suicídios. Enfrentaram o problema dos insetos (pernilongos, formigas, borrachudos e mosquitos pólvora), o perigo dos animais selvagens (cobras e aranhas), e a falta de assistência médica. Não havia água encanada, telefone, eletricidade, farmácia, posto de emergência médica, mercados, etc.

“Passamos a viver como povos primitivos, sem eletricidade, à luz de lamparinas, cortando lenha para cozinhar e se aquecer. Cozinhar era perigoso, pois havia o perigo de se queimar...”, escreveu o koutakusei Ochi Sakae.

Muitos kutakusei, diante das condições precárias, abandonaram o projeto e se migraram para cidades.

Para piorar, foram os imigrantes que mais sofreram perseguições durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo inclusive o seu grande centro de apoio, a Vila Amazônia, confiscada pelo governo e fechada.

A situação melhorou para alguns quando obtiveram sucesso com o plantio da juta.

Colônia Andirá - Google Maps

Colônia Andirá no Brasil 

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Vida do koutakussei no Instituto de Pesquisa Industrial

Vida do koutakussei no Instituto de Pesquisa Industrial

A maior fonte deste post foram as memórias do diretor do Instituto, Sakae Ochi. Foram publicadas no site da NDL (National Diet Library), entre 1984 e 1985.

As memórias foram escritas em japonês e por isso tive que usar o tradutor nativo do Edge. Entretanto esse tradutor não conseguiu fazer a tradução para o português com exatidão, por isso resultou em um texto muito incompreensível.

Lembrando que o presente post é de tradução livre, de redação minha, não literal.

Memórias de Sakae Ochi, diretor do Instituto Amazonas

(Vila Amazonia, 1932)

A Vila Amazonia tinha um centro de treinamento e Pesquisas, denominado "Instituto de Pesquisa Industrial da Amazonia", onde os koutakussei estudavam e treinavam por um período de um ano antes de serem enviados para as colonias. 

A rotina diária

O local e o funcionamento era de certa forma parecido com um acampamento militar.

A rotina diária era sob disciplina estabelecida, com horários de início, descansos para lanche e almoço e final de expediente. O toque de alvorada era as 5:00, e o dia começava com atividades esportivas e ginástica. As 7:00 era servido o café. As 8:00 começavam as aulas teóricas, em sala.

Após um almoço e intervalo, começavam as aulas em campo, os treinamentos práticos, construção de casas, de caminhos, derrubada da floresta da Vila Amazonia, etc  

Havia treinamentos de capinagem, de montagem e manutenção de equipamentos (enxadas, rastelos, forcas, etc), de arar a terra e de derrubada de árvores.

Treinamento de capinagem na Vila Amazonas

O “expediente” terminava as 18:00, ao som de um tiro de espingarda, quando então tomavam banho em rio e iam jantar. 

Após o jantar costumavam se reunir para conversar banalidades, e comentar fatos sobre o trabalho do dia.

Aproveitavam o restante livre da noite para estudar. O toque de recolher era 21:00 quando então as lamparinas deveriam ser apagadas.

Havia vigilância noturna, feita por revezamento.

Não havia férias, apenas um recesso de 15 dias no fim do ano. Para prática esportiva havia um pavilhão onde se treinava kendô, judô e sumô.

Pavilhão da Vila Amazonas - acervo de Camilo Ramos


A cozinha e a comida

O refeitório e a cozinha eram coletivos. Era um trabalho perigoso, pois envolvia manipulação de grandes panelas. Ochi Sakae conta que um cozinheiro se queimou com agua quente e o caso foi bastante complicado, sendo o queimado enviado para o Japão para tratamento. 

Havia um pasto e um pequeno rebanho de 40 vacas leiteiras, para produção de leite e derivados, que também servia de aprendizado sobre pecuária. Além de hortaliças e frutas, comia-se muito pirarucu (é um peixe que se faz bacalhau) e provavelmente mandioca e carne de caça.

Atividades agrícolas na Vila Amazonas – treinamento e pesquisas

A atividade de grande importância era a do cultivo experimental de culturas como soja, algodão, arroz, amendoim, banana, milho, gergelim, sorgo, tabaco e algodão, e de algumas árvores como seringueira, cacau e castanha.

Praticavam a prototipagem agrícola.  Consistia em fazer a seleção de sementes geneticamente melhores. Faziam estudos de adensamento (quantas mudas por metro quadrado), de irrigação específica para cada planta, do seu tempo de desenvolvimento (estudo do tipo: quantos dias leva tal variedade de  laranja para frutificar?), controle de pragas, etc. A prototipagem do arroz era considerada a mais importante.

Existia um jardim botânico para observação das espécies, e uma horta onde se plantava cenoura, daikon, rabanete, etc

As derrubadas e queimadas

O trabalho mais árduo e importante de todos eram as das derrubadas. Colonizar é derrubar mata virgem. 

Consistia em duas etapas, a primeira era de limpar a floresta, cortando os arbustos, as árvores menores e cipós. Em seguida vinha o corte das arvores maiores. Era um trabalho perigoso e o grande problema era o ataque de cobras,  carrapatos,  mosquitos e formigas.

Após derrubada, algumas árvores eram desgalhadas, pois atrapalhavam a circulação. Havia uma época apropriada para a derrubada, que antecedia a época seca. Após dois meses secando, as arvores, já no solo, eram queimadas.

A falta da companhia feminina

A maioria dos koutakussei vieram solteiros e o diretor do Instituto repetidamente alertava para não se envolver com as mulheres nativas, as amazonenses. Ele espalhava uma informação falsa, dizendo que se os pais da moça descobrissem eram obrigados a casar na delegacia, sob ameaça de armas.

A prática do homossexualismo era punida com severidade.

Alguns vieram já casados, e tiveram filhos na Vila. 

As visitas a Parintins

A maior diversão dos koutakussei era visitar a cidade de Parintins, naquela época uma vila. Havia um barco a motor que ia até a essa vila para fazer compras, pegar correspondências, etc. e os rapazes pediam repetidamente ao diretor para ir a Parintins, para ajudar a carregar o barco e  “treinar o portugues”. O diretor sempre consentia alguns a irem, porém com a exigência de usarem sapato, paletó e gravata, além de chapéu social. O intuito era passar a impressão de que o povo japonês era refinado e elegante, mesmo nos confins da Amazônia.  E tinham a ordem de retirar o chapéu sempre que uma moça os saudasse. Esses rapazes viravam alvo de grande curiosidade na vila.

Quando tinham algum dinheiro, a grande compra em Parintins era a cachaça, e voltavam a Vila Amazônia com garrafas de cachaça como se fossem tesouros.

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