terça-feira, 18 de agosto de 2026

O incidente no Buenos Aires Maru

 

O incidente no navio Buenos Aires Maru

Uma pequena curiosidade na história da imigração japonesa ao Brasil.

Em dezembro de 1929 o navio Buenos Aires Maru, que estava levando emigrantes para o Brasil, aportou na Cidade do Cabo, como era de praxe. Era a parada obrigatória para abastecimento de combustível, comida, água, etc.

No mesmo dia, o navio Manila Maru, vindo do Brasil, onde deixara emigrantes, atracou também em Cidade do Cabo.

Alguns imigrantes que estavam no Manila Maru, voltando para o Japão, resolveram visitar os conterrâneos no Buenos Aires. Perguntados, explicaram então os motivos deles estarem voltando ao Japão: o trabalho nas fazendas do Brasil era árduo, os ganhos eram poucos, os imigrantes ficavam endividados, a possibilidade de enriquecer era nula. Os repatriados pintaram o Brasil como o inferno na Terra.

Esse quadro nada animador rapidamente se espalhou no Buenos Aires. Em questão de horas, o navio inteiro já estava a par das informações. As esperanças e os sonhos dos emigrantes viraram pó. A noite a bordo foi de insônia, desespero, discussões e caos.

Na manhã seguinte, quando o Buenos Aires se preparava para zarpar, aconteceu uma grande aglomeração no convéns do navio. Por unanimidade, os emigrantes a bordo exigiram que o Buenos Aires fizesse meia volta e retornasse ao Japão. Alegaram que foram enganados pela propaganda das companhias de emigração.

Os agentes de emigração passaram a convencer todos que, apesar das enormes dificuldades a enfrentar no Brasil, era um lugar, para eles, ainda melhor que o Japão. Explicou a eles as possibilidades a longo prazo, a enormidade territorial do Brasil, com terras baratas para todos, etc.

Apesar da propaganda enganosa no Japão, os agentes de emigração não estavam errados. A prova é que os imigrantes em sua maioria tiveram uma vida bem melhor no Brasil do que teriam no Japão.

Convencidos os imigrantes a continuar, o navio prosseguiu então sua viagem ao Brasil, chegando em Santos em 29/12/1929.

Há uma nota no jornal Folha da Manhã anunciando a chegada do navio no Rio de Janeiro, no dia 25/01/1930. Ele aportou em Buenos Aires (Argentina), e em seguida, Santos.

Folha da Manhã, 26/01/1930


Buenos Aires Maru

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Kobe Imigration Center

 Kobe Imigration Center - Kobe, Japão

O National Kobe Emigration Center foi estabelecido em 1928, para servir de suporte para os emigrantes que deixaram o Japão, principalmente aqueles que foram para a América do Sul. 

National Kobe Emigration Center

Antes da existência desse centro, os emigrantes  ficavam a espera de embarque em dezenas de pequenos hotéis, em condições precárias e a um custo muito alto para as companhias de emigração. 

No dia do embarque, era difícil reunir todos os viajantes, pois ficavam espalhados pelos hotéis cidade. Eram vários os casos em que o traslado chegava no hotel e não encontrava algum emigrante, que tinha dado uma saidinha.

Após a inauguração do Kobe Emigration Center, muitos hoteis encerraram as atividades, visto que o centro absolveu todos os clientes.

 

A hospedagem no Kobe Emigration Center era gratuita, e a estadia máxima era de 10 dias. Ali eram ministradas palestras e cursos sobre o novo país; e os emigrantes recebiam as devidas vacinas e tinham aulas do idioma do país a acolher eles.


Ali eram orientados também sobre quem pagaria as despesas do processo de imigração (taxas portuárias, alimentação, hospedagens, transportes até às fazendas, etc). Eram alertados para não serem cobrados indevidamente ao chegar no país escolhido.

 

Na periferia do centro funcionavam várias lojinhas que vendiam conveniências baratas: sabonetes, lenços, toalhas de banho, canecos, chinelos, chapeis, etc. 


Se estabeleceram também nos arredores alfaiates que confeccionavam roupas ocidentais. Os imigrantes encomendavam “roupa de trabalho”, que eram roupas simples feitas de tecidos rústicos. As mulheres encomendavam vestidos e os homens paletós. Os alfaiates se apressavam, tinham prazo curto, pois muitas encomendas chegavam de última hora e a partida do navio era as vezes eminente.


 

O estado de ansiedade no centro


No local, reinava a ansiedade, o medo, a  dúvida e ao mesmo tempo a esperança. Como é o Brasil ? Como são as fazendas ? Seriam bem tratados ? Ganhariam dinheiro?

Muitos ficavam em estado de dúvida, a beira da desistência, mas não tinham dinheiro para retornar para casa. Outros não podiam desistir, pois tinham que acompanhar familiares.

 

Ocorriam muitas manifestações de paixões, de amor. Moças e rapazes recebiam cartas com pedidos de casamento de ultima hora: “desista de ir ao Brasil, não me abandone e se case comigo”. Paixões secretas eram reveladas : “não quero que vá embora sem voce saber que te amo…”, promessas de fidelidade aconteciam: “esperarei a sua volta…”. Essas manifestações de amor geravam dúvidas, angústias, choros e até desistências.

 

Moças que eram obrigadas a se casar em esquema de casamento simulado para formar família de imigrante montada ficavam em dúvida. O casamento fajuto seria anulado mais tarde? Os agentes da companhias de emigração garantiam que sim, que o casamento forjado era apenas uma formalidade.


Emigrantes em frente ao Kobe Emigration Center

A rotina do dia a dia no Kobe Emigration Center

 

Muitos rapazes recorriam ao centro, na esperança de serem adotados, e assim poderem se esconder no Brasil, fugindo da convocação militar e consequente envio à ocupação da Coreia ou Manchuria.

 

Os emigrantes faziam e refaziam cálculos, de quanto iam ganhar em um ano (o contrato de trabalho firmado por eles com as fazendas de café era de um ano). Era crucial esse primeiro ano: se não desse certo a vida no Brasil, precisavam de ganhar, no primeiro ano, o suficiente para pelo menos pagar a passagem de volta ao Japão.

 

Alguns funcionários da emigração faziam inspeções nas bagagens. Procuravam por produtos que poderiam ser barrados no Brasil, ou serem sujeitos a tributação fiscal.  As bagagens eram guardadas em depósitos, ficando o emigrante somente com uma bolsa com algumas mudas de roupas e uma nècessaire com objetos de uso pessoal.

 

Os médicos e enfermeiras trabalhavam em ritmo forte, nenhum emigrante poderia embarcar doente. Haviam casos de subnutrição entre as crianças. E algumas épocas, o tracoma era epidêmico no Japão. Havia o trabalho incessante de vacinações.

 

Por vezes, aparecia um padre católico no Kobe Imigration Center, para pregar o Cristianismo. Explicava que o Brasil era um país de católicos e tentava, sem sucesso, incutir nos japoneses xintoístas e budistas os dogmas da Igreja Católica.

 

Na última noite na hospedagem, às vésperas do embarque, os homens promoviam “festa de despedida do Japão”. Bebia-se então muito saquê e se embebedavam e promoviam cantorias.


Embarque em Kobe, c. 1908



 Histórico do Kobe Emigration Center


Em 1932 o local foi rebatizado para “Kobe Emigrant Education Center".  

Durante a Segunda Guerra, foi fechado e transformado em um centro de treinamento dos civis que eram enviados em territórios militarmente ocupados pelo Japão, recebendo então o nome de "Greater East Asia Personnel Training Center".

Terminada a Segunda Guerra, foi reaberto em 1952, rebatizado novamente, como "Kobe Emigration Mediation Center".

Em 1956, foi aberto um novo centro de apoio aos emigrantes em Yokohama ("Yokohama Emigration Mediation Center"), fato que diminuiu a importância do centro de Kobe.

Em 1964, foi novamente rebatizado, como “Kobe Emigration Center”. Em 1971, devido ao final das correntes migratórias, encerrou as atividades. Calcula-se que cerca de 250 mil emigrantes passaram por ele.


Kobe Emigration Center hoje 


O local foi reaberto em 2009, apos algumas reformas. Foi dividido em tres secções, como segue :


“Sailing for Hopes and Unknown Field”, um museu da emigração japonesa. Na sua entrada, em 1995 foi colocado um monumento em homenagem ao imigrante japones que emigrou para o Brasil.


“Field of Association with Multiple Cultures”, uma associação para dar suporte aos imigrantes locais.


“Creation Field of Art”, um centro cultural e escola de artes, multi étnico.

Memorial aos Emigrantes, Kobe, Japão

Grupo de emigrantes no Kobe Emigration Center


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O martírio de Shuhei Uetsuka em São Paulo

 

O martírio de Shuhei Uetsuka em São Paulo

Shuhei Uetsuka


Em 1909 Ryo Mizuno decidiu voltar ao Japão. A primeira leva de imigrantes, Kasato Maru, resultou em um fracasso redundante, com mais de 70% deles abandonando ou fugindo das fazendas. Ainda assim, Mizuno não desistiu e retornou  ao Japão a fim de recrutar uma nova leva. Afinal, bem ou mal, sabia já o caminho das pedras, tinha adquirido algum know-how.

Deixou aqui no Brasil Shuhei Uetsuka cuidando do escritório da sua empresa de emigração, a Cia. Imperial de Emigração, na cidade de São Paulo. O escritório tinha por objetivo prestar assistência aos primeiros imigrantes do Kasato. E também seria a base de apoio para a segunda leva, que Mizuno iria tentar organizar no Japão.

Mizuno, sem dinheiro (como de costume), ao chegar no Japão tentou junto ao governo e grandes empresas levantar fundos para a segunda leva, mas não logrou êxito. Tinha prometido enviar certa quantia a Uetsuka, a fim de manter as despesas do escritório e pagar o seu salário, mas não conseguiu esse dinheiro.

Como o dinheiro não chegou, Uetsuka foi despejado do escritório. Acontece que dormia ali, e ficou ao relento. Cinco outros imigrantes perdidos em São Paulo também dormiam espremidos no local, e da mesma forma ficaram na rua.

Os seis conseguiram então alugar um quartinho fétido, úmido e imundo. Para sobreviver, fabricavam brinquedos japoneses e vendiam na rua. A certa altura, sem dinheiro algum, passaram a se alimentar de bananas. Mesmo assim, não conseguiam o suficiente, e segundo Uetsuka, chegaram a passar de dois a três dias sem nada comer.

Mesmo na negra penúria, Uetsuka continuou fiel a Mizuno, atendendo a todos os imigrantes do Kasato que o procuravam. Fez o que pode.

Felizmente, Uetsuka e sua turma contou com a ajuda de Takeo Goto (das Casas Fujisaki) e de Nayoma Sumejima, um carpinteiro do Kasato que já tinha alguma clientela em São Paulo.

Após um ano nessa situação precária, foi socorrido pelo Ministro Plenipotenciario Sadatsuchi Uchida.

Finalmente, em 28 de junho de 1910 chegou a segunda leva de imigrantes, a bordo do Ryojun Maru . Esta leva foi organizada por Mizuno, contratado para realizar esse trabalho por uma companhia de imigração (colonizadora Takemura Shokumin Shokan). Mizuno telegrafou para Uetsuka avisando a chegada dos imigrantes, e solicitou a ele as providencias na recepção. 

Mas, as aventuras de Shuhei Uetsuka não terminaram aqui. Ele mais tarde conseguiu financiamento para fundar uma colônia.

Uetsuka foi um grande herói da Historia da Imigração Japonesa no Brasil. 

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Imigração japonesa-desbravamento da colonia


Imigração - O desmatamento da mata virgem

Implantada a colônia, feito o trabalho de delimitações pelos agrimensores, estabelecida as vias de acesso, etc o empreendedor colocava então os lotes de terra ("sítios") a venda. Algumas colônias, planejadas, já tinham alguns compradores, esperando a implantação, o chamado.

Comprado o lote, o imigrante iniciava o trabalho de estabelecimento definitivo no local, de mudança. A primeira tarefa era o de desmatamento do seu pedaço. A compra do lote era um ato de enraizamento no Brasil, o sonho de voltar ao Japão já não existia mais. 

O imigrante se sentia no céu: finalmente um pedaço de terra seu, a sua independência ! A sua aquisição representava uma vitória, após anos de luta e sofrimento nas fazendas de café. Era motivo de júbilo e muito orgulho, eram extensões de terra que ele jamais iria possuir no Japão.

O trabalho de desmatamento

A maioria das terras eram florestas, mata virgem, que eram derrubadas a foice,  machado e trançador. Ainda não existiam as motosserras. 

Havia o perigo de ataques de catetos (espécie de porto do mato), de picada de cobras, aranhas e outros insetos. Também havia o perigo de ser atingido por um tronco, na caída. Alem disso, a malária era sempre uma ameaça perigosa. 

Outra grande preocupação era com a agua potável. O trabalho exigia que se bebesse muita água. Se existisse uma mina de água por perto, o problema estava resolvido. Era possível beber água de algum rio nas proximidades, mas sob o risco de contrair diarréia.

O desmatamento era sempre feito nas estações secas, pois era praticamente impossível trabalhar debaixo de chuva. Algumas colônias tinham mata composta de pequenas árvores, o que facilitava muito o trabalho.

O trabalho era duríssimo e perigoso, feito somente por homens e quase sempre em regime de mutirão. Uma cabana improvisada, rústica, era erguida no meio da mata, para servir de acampamento.

As etapas do desmatamento

O desmatamento consistia em 4 etapas:

1- Roçada;
2- Derrubada das árvores;
3- Queimada;
4- Destocamento.

(1) A roçada (limpeza)

Antes de adentrar no mato, era preciso roçar a mata rasteira, cortar os cipós, e derrubar os arbustos e árvores menores. Esse trabalho era feito a foice e era necessário para facilitar a derrubada das árvores maiores.
Os cipós deviam ser cortados, pois havia o perigo deles alterarem a trajetória da caída da árvore.

(2) A derrubada das árvores


A derrubada era feita com machado ou um serrote grande usada por dois homens, chamado de trança ou trançador.

Trançador


Japoneses derrubando arvores, sem data - fonte "O imigrante japones" - Tomoo Handa


Japoneses desmatando e sua cabana de apoio

(3) As queimadas

Após o desmatamento, esperava-se um tempo para as folhas e galhos secarem. Era então feita a queimada, que deixava só os troncos maiores, chamuscados. A queimada dizimava a fauna, e junto com ela as cobras e insetos venenosos, que morriam ou fugiam.

Da mesma forma, a flora era dizimada com o fogo. Havia um lado benéfico: a terra ficava estéril, pois as ervas daninhas e suas raízes e sementes eram queimadas. A imagem era de devastação, mas na época não se falava em preservação ambiental.

Terminada a queimada, restavam somente as toras (troncos principais da árvore). Elas constituíam um estorvo, atrapalhava o trabalho agrícola. Com sorte, o colono poderia encontrar alguma madeireira (serraria) que levava as toras, sem nada cobrar (!).

Queimada - gravura de Percy Lau

A terra, depois da queimada

Depois da queimada

(4) O “destocamento” - retirada dos tocos

Depois de desmatado e queimado, era feita ao longo dos anos a limpeza do terreno, com a retirada dos troncos maiores e o trabalho mais difícil de todos: a retirada dos tocos e raízes. Consistia em arrancar os tocos das arvores, enraizadas. Para isso era preciso da força dos cavalos, bois ou humanos, ou a utilização de alavancas. 

Os tocos e raizes eram empecilhos, pois não permitiam, a agricultura mecanizada, e dificultava o uso de arado com tração animal. 

O trabalho de destocamento era feito sempre depois de se colher alguma safra, e depois de uma chuva, pois o solo molhado ficava mais fofo.

Como era feito o trabalho de destocamento

Um método era cavar em volta do tronco, expor as raízes. Era então cortada as raizes e extraído o tronco. As raízes poderiam então ser mais facilmente retiradas, uma a uma. 

Expostas as raízes, eram recortadas

Outra maneira, usada em arvores menores,  era simplesmente arrancar o toco com o uso da força, utilizando-se bois e cavalos.

Existia também um equipamento especial, que na verdade era um suporte para alavanca. Nunca vi esse equipamento, nem ouvi falar dele. 



Havia também o recurso de queimar lentamente a base do toco, desprendendo-o das raízes. As raízes, soltas do toco, eram mais fáceis de serem arrancadas.

Depois das queimadas, mesmo antes da destocagem, entre os tocos, troncos e galhos, já era possível praticar a agricultura: plantava-se feijão, milho, hortelã pimenta, etc.

Galeria de fotos de desmatamento

 

Colono russo em sitio em desmatamento

Após a queimada, Paraguaçu Paulista, 1923

Desmatamento - gravura de Percy Lau


Imigrantes em desmatamento, c. 1909, São Paulo


Japoneses e figueira gigante, sem data


Japoneses fazendo queimada

Desmatamento - Jean Moritz Rugendas

Queimada - gravura de Percy Lau

Desmatamento - Santa Catarina - alemães - sem data





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Se voce gostou dessa leitura, veja também:

👉 Imigração Japonesa ao Brasil: Vida doméstica colono brasileiro nas fazendas

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Imigraçao japonesa - primeiros nucleos coloniais

 
Os primeiros núcleos coloniais

As primeiras colônias, de imigrantes independentes, surgiram a partir de 1914. As grandes colônias localizavam-se  em locais remotos, como se fossem um mundo à parte. Os vizinhos mais próximos ficaram a quilômetros de distância. Os colonos não tinham acesso à informação, na zona rural não chegavam jornais ou revistas, e não existia a Tv. As correspondências (correio) não chegavam na zona rural.

Para evitar o isolamento total, as famílias costumavam construir casas próximas, e assim cada uma poderia socorrer outra em caso de necessidade.

O índice de mortalidade era grande. Morria se principalmente de malária, além de picadas de cobras e ferimentos não tratados adequadamente. Doenças infecciosas como gripe, varíola, sarampo etc. não eram comuns devido ao isolamento. Pegava-se essas doenças somente quando iam a cidade.

Uma estrada rústica que ligava a colônia à cidade servia para escoar a produção. Isso era feito a cavalo, em carroças de madeira. Nas temporadas de chuva a estrada poderia ficar lamacenta, dificultando ou impossibilitando o deslocamento. As chuvas mais fortes provocavam erosão na estradinha, que ficava cheia de valas.

A implantação de uma colônia

As colônias surgiam da iniciativa de um empreendedor, que poderia ser uma pessoa ou uma empresa de colonização. Sempre envolvia o estado (Sp, Pr, Es, Ms, Am) ou o município, que davam apoio, fazendo estradas de acesso à nova colônia, cedendo grandes extensões de terras ao empreendedor ou colonizadora.

Essas terras eram então divididas em lotes e vendidas a prestações anuais e em longo prazo. Naqueles tempos, a maioria das terras pertenciam ao governo.

Em geral os empreendedores davam preferência às terras próximas a uma estação ferroviária.

Quem eram os empreendedores

Haviam três tipos de empreendedores.

O tipo de empreendedor mais bem estruturado eram as companhias de imigração subsidiadas pelo governo brasileiro, tais como a Kaigai Kyokai (Associação Ultramarina de Emigração), a Takushoku Kumiai (Cooperativa de Colonização), que providenciavam infra estrutura e suporte econômico.

O segundo tipo era um líder que reunia em torno de si um grupo de imigrantes independentes (que já cumpriram o contrato com as fazendas de café). Esse líder estruturava a colônia juntamente com o governo ou prefeitura. Eram colônias alavancadas por ideais, ambições pessoais. Envolvia coragem, riscos e sofrimentos. Não tinham muito apoio. Os exemplos desse tipo de empreendedor líder são Saburo Kumabe, Unpei Hirano, Shuhei Uetsuka, Ryu Mizuno e Yassutaro Matsubara.

O terceiro tipo de empreendedor era um latifundiário, que loteava suas terras com intuito de vender os lotes aos imigrantes. Esse modelo foi o mais popular de todos. Um exemplo desse tipo de loteamento é a colônia de Antonio Prado, em Ribeirão Preto.

Topografico do Nucleo Colonial Antonio Prado

Como era o começo

O empreendedor em parceria com a prefeitura, com recursos próprios ou advindos de financiamento de instituição bancária fazia a agrimensura, delimitando os lotes de terras. Eram então feitas instalações provisórias para receber o colono. Essas instalações constituíam de um barracão com uma cozinha e algumas camas, um depósito de ferramentas agrícolas, mantimentos, etc  Ali o recém-chegado se instalava e ficava até construir uma casa própria em seu lote.

O empreendedor convidava imigrantes para se instalar na colônia. Em geral vinham em grupos, em várias famílias. Era comum os adultos homens irem primeiro, para construírem a casa, cavar o poço, construir uma horta, etc e após isso vinham as mulheres e crianças.

Os grandes projetos das companhias de imigração tinham melhores estruturas para receber os colonos.

O topógrafo e a agrimensura da colônia

O serviço de agrimensura (levantamento topográfico), feito por topógrafos era o primeiro passo da implantação da colônia. O topógrafo determinava os limites da área e as linhas de delimitação dos lotes a serem vendidos aos imigrantes. Muitas vezes recebia informações vagas a respeito da área, do tipo “esta linha de delimitação começa na beira do Rio Baiano, ali onde os meninos tomam banho e segue em linha reta até um cedro gigante, e chegando nesse cedro a linha quebra levemente a esquerda e segue em linha reta até a uma casinha, onde mora o seu Sebastião. Chegando a essa casinha, pergunte ao Sebastião e ele vai te levar até a um palanque de cimento fincado  no meio do mato, que é a continuação da linha...”

O agrimensor chefiava uma equipe, que montava um acampamento no meio da mata. Esse acampamento era o quartel general, e para montá-lo era preciso levar tudo em lombo de mulas: equipamentos, comida, cobertores, lonas para montar barraca, cordas, etc  Era indispensável no acampamento uma fogueira, que ardia a noite inteira. Ela servia para aquecer o trabalhador, para assar carne (as vezes de alguma caça), cozinhar, espantar os mosquitos e as onças, iluminar, etc

Frequentemente era conveniente transferir o acampamento para outro local.

 Havia casos em que, seguindo as instruções do proprietário, o agrimensor acabava invadindo terras do vizinho, gerando conflitos.

As medições e estabelecimento das linhas eram feitas na base da foice e facão, entrando mata adentro. Era um trabalho dificílimo, e feito nas estações secas.

Os colonos imigrantes japoneses

Após cumprir o contrato empregatício com as fazendas, os imigrantes estavam livres para alguma iniciativa privada, para tornarem-se colonos.

Muitos, durante o transcorrer do contrato, praticaram atividades paralelas com fins lucrativos. Era comum o imigrante, com autorização do fazendeiro, plantar feijão entre as carreiras de café (essas carreiras eram pedaços improdutivos durante a entressafra), e ficar com parte da venda desse feijão.

Entre as fileiras de pés de café havia um corredor de terra improdutiva

Alguns imigrantes arrendavam terras, como meeiros. 

E assim juntaram dinheiro suficiente para, no fim do contrato, comprarem um lote de terras de algum projeto de colonização. Este foi o caso o meu avô paterno: ele arrendou terras e plantou arroz. Com o dinheiro do arroz, comprou terras no sul do estado de São Paulo.

Alguns projetos de colonização não prosperaram, principalmente por causa da malária, e outros não saíram do papel. Entretanto, a maioria das colonias prosperou. Algumas colônias promoveram progresso tal que a cidade vizinha cresceu em função dela. Nestas cidades, esses colonos são carinhosamente chamados de “pioneiros”.

Algumas colônias japonesas no Brasil

Núcleo Juqueri (atual Mairiporã, periferia de São Paulo) – implantada em 1913 e 1914

Nucleo Colonia Cotia (atual Cotia, periferia de São Paulo), surgiu com um grupo de jovens arrendando terras da Igreja.

Fazenda São Joaquim – colônia fundada próximo a Estação Tibiriçá, Bauru (Sp) por imigrantes que se retiraram da Fazenda Dumont.

Colonia Hirano – implantada em 1915, por iniciativa de Unpei Hirano, próximo à Estação Ferroviaria Presidente Pena (atual Cafelândia, Sp)

Nucleo Barbosa, próximo a Estação Ferroviária Albuquerque Lins (Lins, Sp)

Nucleo Itacolomi – implantada em 1918, por iniciativa de Shuhei Uetsuka com a colaboração de Teijiru Suzuki, atual Promissão (Sp).

Colonia Katsura -  Considerada a primeira colônia japonesa oficialmente organizada no país, localizada no Vale do Ribeira. Destacou-se inicialmente no cultivo de arroz e mais tarde, de banana e chá.

Tomé-Açu (PA): Fundada em 1929 na região amazônica, tornou-se famosa pela introdução e pelo sucesso no cultivo da pimenta-do-reino. Produz ainda cacau e juta.

Fazenda Bastos (SP): Fundada em 1928, destacou-se fortemente na avicultura (produção de ovos) e na sericicultura (criação do bicho da seda).

Colônia Aliança (SP): Localizada nos municípios de Promissão e Guaimbê, fundada na década de 1920 com foco na policultura e no cooperativismo.

Fazenda Tres Barras (Pr) – foi um empreendimento da BRATAC – Sociedade Colonizadora do Brasil Ltda, que em 1928 adquiriu 13.600 alqueires no município de São Jerônimo da Serra (Pr) com apoio da Administração Pública do Estado do Paraná e do capital de investidores japoneses. A Fazenda Tres Barras deu origem a cidade de Assaí.

Colonia Cacatu - Antonina (Pr) - fundada a partir de 1917, foi  a primeira colônia japonesa do Paraná.

Colonia de Registro (Sp) da Cia de Colonização KKKK


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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Carta de chamada da imigrante italiana Angela R Annunziata

 Carta de chamada da imigrante Angela Rosa Annunziata

Essa carta de chamada foi emitida no Consulado Italiano de Campinas, em 1912. Compareceu nesse consulado o sr. Francesco Cadini de Lucca e duas testemunhas, Paulino Caselli e Rocco Pauliello.

As testemunhas, legalmente necessárias, confirmaram que conhecem o declarante, Francesco; e também a imigrante a ser chamada, Angela Rosa Annunziata, sogra de Francesco. 

Carta de chamada

Tradução livre da primeira página (acima)

REGIO CONSULATO D´ITALIA IN CAMPINAS, BRASILE

Ato de chamamento numero 28.

Reinando sua Majestade Vittorio Emanuele III por graça de Deus e vontade da Nação Rei d´Itália.

No ano de mil novecentos e doze, aos 10 do mês de março, em Campinas e na Chancelaria Consular da Itália.

Avante a nós, Giovanni Moscardi, Regente e Vice Consul nomeado pela Majestade nesta residência.

Presentes os senhores Paulino Casselli, filho de Angelo, 72 anos, nascido em Lucca, província de Lucca, de profissão industrial, residente em Campinas; e Rocco Pauliello, filho de Antonio, 42 anos, nascido em Maschiogadena, província de Campobelli, profissão empregado, residente em Campinas, testemunhas identificadas, idôneas, e pessoas legalmente requisitadas para confirmar a identidade (richiesti fidefacenti dell´identitá) da pessoa diante de nós (comparente) descrita abaixo.

É pessoalmente constituído o senhor....


Texto do certificado de Angela Rosa Annunziata

Tradução livre da segunda página (acima)

Francesco Cadini di Lucca, 46 anos, nascido em Lucca, profissão industrial, residente em Campinas (Sp). O qual declarou que é sua intenção chamar para morar em sua casa no Brasil a seguinte pessoa:

Rosa Angela Annunziata, viúva de Graziano, sua sogra, de 60 anos; acrescentado que é capaz de prover sustento para ela; e que pagará as despesas da viagem de volta à Italia (spese di rimpatrio) em caso seja obrigada a retornar por motivo de saúde ou outros motivos. (*)

As testemunhas presentes declararam ter conhecimento que ela na Itália tem condição de se manter empregada (**).

E se faz a presente declaração de forma que a pessoa acima citada possa mais facilmente obter da RR. Autoridade competente o relativo passaporte regular para o Brasil.

Diante dos pedidos, havemos legalmente realizado (rogato) o presente ato que foi por mim lido diante de todos os abaixo assinados.

(N.R. a tradução é minha, entretanto o italiano dessa carta é arcaico, de 1912, e o estilo da escrita e os termos dela são de jargão jurídico da época; por esses motivos pode a tradução ter pequenas incorreções; entretanto em sua tradução o teor geral da carta está correta. )

(*) N.R. consta em várias cartas de chamada esta condição, de que haveria meios de repatriar a pessoa para tratamento médico no país de origem, isentando assim o Brasil das obrigações de assistência de saúde do imigrante, ou juridicamente, brindando o Brasil contra alguma omissão ou negligência no tratamento do imigrante.

(**) e, portanto, está apta a trabalhar no Brasil. Era uma informação salientando que ela poderia até mesmo se sustentar sozinha. 

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Carta de chamada do imigrante Gennari Onorato

 O certificado de Gennari Onorato

O certificado, na íntegra

Texto do certificado

Tradução livre :

CERTIFICA che Gennari Onorato filho dos falecidos  Federico e Messina Maria, nascido em Boffrigheli em 24 de março de 1842, titular do passaporte no. 14 emitido em 23 de fevereiro do ano corrente, emitido pela R. Prefettura de Adria, vai se juntar aos filhos em suas residências, os quais são capazes de prover a ele o sustento.

Pádua, 27 de fevereiro de 1913.

O Prefeito


Este é um documento, em forma de certificado, emitido pela prefeitura de Pádua. Este tipo de documento tinha fé pública, e era aceito pela Inspetoria de Imigração do porto de Santos. Tinha os mesmos efeitos da carta de chamada.

Analisando o texto, Gennari, aos 71 anos,  tirou o passaporte dia 24/03/1913 e três dias depois foi à prefeitura solicitar este certificado, necessário para entrar no Brasil.

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