segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O contrato de Mizuno com o governo do Estado de S. Paulo

 
O contrato de Mizuno com o Governo do Estado de São Paulo para divulgação do café no Japão

Em 27 de junho de 1908, Mizuno, assessorado pelo seu funcionário Raphael Monteiro e provavelmente apoiado pela influente Sociedade Brasileira da Agricultura (SBA), firmaram contrato de três anos com o governo do Estado de São Paulo.

As condições principais do contrato eram essas: o estado forneceria à empresa de Mizuno no Japão 1.500 sacas de 60 kg. de café no primeiro ano; 2.250 sacas no segundo ano e 3.375 no terceiro ano.  O estado cederia a Mizuno um subsídio para abertura das cafeterias no valor de 60 contos de réis (60:000$000). Propuseram a abertura de 15 cafeterias no Japão.

O depósito de caução do contrato

O governo do estado exigiu que Mizuno depositasse no Tesouro Nacional o valor de 30 contos, como garantia do cumprimento das propostas do contrato, quantia essa deveria ser devolvida ao final do contrato. Mizuno concordou com essa condição, porem não tinha esse dinheiro. 

Quase um ano depois, em 05/1908 Mizuno ainda não tinha feito o depósito, e solicitou prazo até 30/04/1909 para o cumprimento da cláusula. 

Nota do Correio Paulista, 09/05/1908

Mizuno e Raphael Monteiro com dificuldades no Japão

O Correio Paulistano, em edição de 15/07/1909 noticia que a dupla Mizuno-Monteiro, um ano depois de firmado o contrato, enfrentavam dificuldades burocráticas no Japão, e por isso ainda não tinham conseguido abrir sequer uma cafeteria no Japão, e pediram prorrogação de prazos para cumprimento da obrigação.

Correio Paulistano, 15/07/1909

Correio Paulistano, 15/07/1909


Café Paulista Goshikaisha

Para dar inicio aos trabalhos, Mizuno fundou no Japão a empresa "Café Paulista Goshikaisha", a futura rede de cafeterias. 

Um panfleto da Café Paulista, rede de cafeterias de Ryo Mizuno

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Fontes : jornais Diario de Santos, 28/06/1908 e Correio da Manhã, 27/06/1908.

Diario de Santos, 28/06/1908

Correio da Manhã, 27/06/1908.




Propaganda do café brasileiro do Japão - a proposta a S.B.A.

 O plano apresentado a Sociedade Paulista de Agricultura

Essa história começou em 10/09/1907, antes da chegada do Kasato Maru, quando  Mizuno e seu funcionário Raphael Monteiro se reuniram com a Sociedade Paulista de Agricultura (S.P.A.) para a eles proporem um programa de divulgação do café brasileiro no Japão, com duração de 3 anos, prorrogável por período subsequente. 

Mizuno estava no Brasil organizando a primeira leva de imigrantes, que viria s ocorrer no ano seguinte,  e aproveitou seu tempo livre para trabalhar nessa nova empreitada. 

A S.P.A. era uma entidade civil, formada pela elite da agricultura do estado de São Paulo, reunindo os grandes fazendeiros de café. A dupla Mizuno-Monteiro certamente tinha a intenção de ter a S.P.A. como aliada, como voz forte, para propor o plano junto ao governo do Estado de São Paulo.

O plano propunha a implantação de 17 cafeterias no Japão, sendo 10 em Tokyo, 2 em Yokohama, 2 em Osaka, 1 em Kyoto, Nagoya e Hiroshima. As despesas de implantação e locação dos imóveis das cafeterias seriam cobertas pelo governo do Estado de São Paulo. Orçaram o valor de 40:000$000 (quarenta contos de réis), quantia esta deveria ser fornecida à vista, para a implantação das cafeterias.

Solicitavam a S.P.A. o fornecimento gratuito de 1.500 sacas de 60 kg. de café no primeiro ano; 2.250 sacas no segundo ano e 3.375 no terceiro ano. Esse café seria usado no Japão da seguinte maneira: para uso das cafeterias, para venda no varejo (já torrado e moído) e para doação à feiras, restaurantes, hotéis, hospitais e outras entidades que poderiam divulgar a bebida.

Os contratantes teriam o direito de enviar ao Japão um inspetor, para auditar o cumprimento do contrato. O valor arrecadado pelas cafeterias seria revertido em marketing do produto. A contabilidade das vendas e despesas seriam fechadas em balanços trimestrais e enviadas ao governo,  para apreciação. 

Com certeza, Mizuno propôs também uma margem de lucro para ele, afinal era empresário e não trabalharia de graça. 

Fonte: jornal A Tribuna de Santos (Sp), edição de 12/09/1907 (fotos).

A Tribuna de Santos (Sp), edição de 12/09/1907





A Tribuna de Santos (Sp), edição de 12/09/1907

A Tribuna de Santos (Sp), edição de 12/09/1907

A Tribuna de Santos (Sp), edição de 12/09/1907


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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O Dojinkai e o Hospital Japones Santa Cruz

 

O Dojinkai e o Hospital Santa Cruz

 

Seria grande injustiça desse site não mencionar o Dojinkai e o Hospital Japonês Santa Cruz.

 

Nas primeiras décadas da emigração dos japoneses ao Brasil os imigrantes tinham grandes dificuldades com acesso a assistência médica, por vários motivos: financeiro, barreira linguística, distância dos pontos de assistência médica e meios de transporte. Não existiam estradas e nem ambulância. Um problema simples de saúde era motivo de grande transtorno.

 

A Sociedade Beneficente Dojinkai foi uma instituição beneficente, criada em 1924, com o intuito de prestar assistência médica aos imigrantes japoneses. O Dojinkai foi criado pelo Consulado Geral do Japão de São Paulo, com verba doada pelo governo japonês.


A criação do Dōjinkai movimentou as lideranças da comunidade japonesa da cidade de São Paulo, e os subsídios enviados pelo Japão despertou na comunidade japonesa a suspeita da possibilidade de um futuro hospital.


Muitos pioneiros região noroeste de São Paulo, entre eles Shūhei Uetsuka e Teijirō Suzuki pressionaram o Dojinkai, dando início a um movimento pela criação desse hospital na região noroeste do estado de São Paulo. Afinal era ali que se concentrava o maior número de imigrantes japoneses.


Entretanto, decidiu-se, enfim, construir o hospital na cidade de São Paulo.

 

Não foi inútil a pressão das lideranças do interior do estado, o Dojinkai abriu postos de saúde em Bauru e Lins no ano 1930; e em Santos e Presidente Prudente, em 1932.

 

Caravanas médicas do Dojinkai passaram a circular pelo estado, prestando assistência médica e promovendo palestras e cursos.

 

O Hospital Japonês Santa Cruz

 

Em 1934, compadecido com a situação dos imigrantes, o Imperador do Japão fez uma doação no valor de 50 mil ienes para a construção de um hospital para atender os imigrantes japoneses no Brasil.

A idéia do Imperador era dar o exemplo, e o primeiro passo.

 

Seguindo o desejo do Imperador, em 1935, foi criado no Japão o Comitê de Construção do Hospital Japonês de São Paulo. Calculou-se que os custos da construção desse hospital chegariam a 800 mil ienes.


Esse custo seria rateado da seguinte maneira:

 

- Doação do Imperador, 50 mil ienes

- Subsídio oferecido pelo governo japonês, 250 mil ienes;

-  Donativos arrecadados no Japão 400 mil ienes;

-  Donativos arrecadados entre os japoneses no Brasil, 100 mil ienes.

 

Eram tempos de pouca burocracia, de poucos empecilhos, e por isso o hospital foi inaugurado em 1939, apenas 4 anos depois da formação do Comitê de Construção e campanha de arrecadação.

 

Oficialmente, a instituição ostentava o nome “Sociedade Brasileira e Japonesa de Beneficência Santa Cruz”. O prédio ocupava uma área de 1.460 m2, com 5 andares e um subsolo, 76 apartamentos e 200 leitos, sendo o maior edifício da comunidade nipo-brasileira até então.


O Santa Cruz tornou-se um importante centro médico da cidade de São Paulo, atendendo não só imigrantes, mas a população em geral. Nele atuaram vários grandes nomes da Medicina paulista. 


Hospital Japones Santa Cruz, 1939


Sanatório São Francisco Xavier


Em 1936 o Dojinkai inaugurou o Sanatório São Francisco Xavier, em Campos de Jordão, para tratamento de pacientes com tuberculose. 
Com o advento de antibióticos, a tuberculose deixou de ser tratada com internamento. O sanatório hoje é um hotel fazenda. 


Sanatorio São Francisco Xavier

Em 1945 o Hospital Japones Santa Cruz inaugurou um curso de enfermagem.


Enfermeiras do hospital, sem data

O confisco do Hospital Santa Cruz 


Com o advento da Segunda Guerra Mundial o Hospital Santa Cruz, na época controlado e explorado pela colônia japonêsa,  foi colocado sob controle do governo federal em 1942, apenas 3 anos após sua inauguração. 


Foi nomeado um interventor e essa situação perdurou até 1945, mas foi, depois de muito tempo, em 1989 que a comunidade nipo-brasileira reivindicou e reinstaurou a gestão pelos japoneses.

 

O Dr. Shizuo Hosoe

 

Shizuo Hosoe nasceu no dia 4 de julho de 1901, em Wasa, Gero-cho, no Japão e veio ao Brasil em 1930, como médico-bolsista enviado pelo Ministério de Relações Exteriores do Japão.

 

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Keio, formando-se em 1930. Recém-formado, aceitou o convite do governo japonês para trabalhar por três anos na região de Bastos, a fim de atender os imigrantes japoneses do local. Os três anos se transformaram em 45.

 

Em 1935 participou na formação  do Centro de Assistência Médica Dojinkai.

 

Entretanto, seu diploma não era válido no Brasil, por isso decidiu novamente estudar Medicina em faculdade brasileira. Passou no vestibular da Faculdade de Medicina da USP, onde se formou em 1940.

 

Conciliou os estudos com o trabalho na construção do Sanatório de Campos de Jordão (1937) e do Hospital Santa Cruz (1939).

 

Tendo adquirido a nacionalidade brasileira, em 1941 alistou-se e cumpriu o serviço militar obrigatório em 1942, aos 41 anos de idade.

 

Costumava ir ao Rio de Janeiro e acompanhava os imigrantes japoneses até o porto de Santos no navio. Durante a viagem, transmitia-lhes os cuidados a serem observados com respeito à saúde e higiene na colônia.

 

Publicou vários folhetos e manuais sobre puericultura, prevenção e tratamento de doenças e guia de medicamentos

 

Em 1951, o Dr. Shizuo Hosoe recebeu o japonês Mishiharu Mishima, que difundia o escotismo entre os japoneses no mundo, e com ele fundou um núcleo de escotismo em São Paulo. O Dr. Hosoe foi praticante fervoroso do escotismo.


Sr. Hosoe faleceu em 28 de agosto de 1975, 45 anos depois de desembarcar no Brasil. 



Alem de Shizuo Hosoe, os médicos Sentaro Takaoka e Yoshinobu Takeda, além de outros, foram importantes profissionais no atendimento aos emigrantes, nas décadas de 20 a 40.


Dr. Shizuo Hosoe


 

O Hospital Nipo-Brasileiro

 

Em 18 de junho de 1988, por ocasião do 80º. Aniversário da Imigração, foi inaugurado o Hospital Nipo-Brasileiro, com 30 leitos, sofrendo ampliações posteriores. Tal como o Santa Cruz, foi construído com verbas doadas pela comunidade japonesa no Brasil e do governo do Japão.

 

Hospital Nipo-Brasileiro, em São Paulo, Sp

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Os japoneses no bairro da Liberdade


Os japoneses começam a se aglomerar na Liberdade


Em 1932 eram cerca de 2 mil os japoneses em São Paulo, vindos do Japão ou de fazendas, de onde fugiram ou não renovaram contrato com os fazendeiros. Os semelhantes se atraem, e eles se estabeleceram na Liberdade, atraídos pela turma da Conde de Sarzedas.

Naquele ano, cerca de 600 japoneses moravam na rua Conde de Sarzedas. Outros se espalhavam nas ruas Irmã Simpliciana, Tabatinguera, Conde do Pinhal, Conselheiro Furtado, Tomás de Lima e Rua dos Estudantes.

Funcionava na região um microssistema econômico, com os estabelecimentos comerciais de propriedade de japoneses, que atendiam principalmente a “colônia” ali estabelecida.


Os hotéis para japoneses

Muitos japoneses vinham para a cidade de São Paulo para tratamento de saúde, para tratar de assuntos burocráticos, visitar familiares, procurar emprego, etc. Para atender esses viajantes, surgiram os hotéis na Liberdade, pois os visitantes desejavam ficar perto de restaurantes de comida japonesa e ficar perto dos conterrâneos, pois isso dava uma sensação de acolhimento e segurança. Podiam também fazer compras de produtos japoneses nas lojas da Conde de Sarzedas.
Em 1914 inaugurou-se o primeiro “hotel japonês”, a Pensão Ueji. Logo em seguida, os hotéis Hotel Ogawa Nomura e Hotel Tokiwa.

Os hospedes desses hotéis conheciam então o bairro, e muitos deles, ao se mudarem para São Paulo, procuravam a Liberdade.

A Pensão Ueji, estabelecida na Rua Dr. Tomás de Lima funcionava como uma pensão e ponto de acolhimento para os imigrantes que vinham do interior ou chegavam do Japão em busca de oportunidades.

As salas de cinema da Liberdade


Com o crescimento do bairro, inaugurou-se no bairro em1953 o Cine Niterói. "Nitto" quer dizer "japones", e Niteroi é a união de Nitto + heroi. Era um cine voltado para o cinema japonês, Um cinema deste gênero, étnico, demonstra a força da colônia japonesa na Liberdade. 

Logo em seguida, vieram outros cines na mesma linha, o Cine Tokyo (inaugurado em 1954), o Cine Nikkatsu (1962), o Cine Joia (1958) e o Cine Nippon (1959). 

Cine Niterói, sem data


 
Inauguração do Niterói, 1953

Capa programa inauguração Cine Nikkatsu



O preconceito contra os jovens solteiros

Quando um jovem imigrante japonês solteiro abandonava a colônia ou a fazenda de café (fugia), os que ficavam diziam : “esse virou vagabundo. Foi para São Paulo, pois não quer pegar na enxada. Não gosta de trabalhar”. Esses jovens acabavam sempre na Liberdade. Pela primeira vez na vida independentes, sem nunca terem morados em cidade grande, sem experiencia, muitos gastavam todas as economias em bares e outras diversões.

A Liberdade se estabelece como “colônia urbana” japonesa

A vida não era fácil para nenhum imigrante que viviam em São Paulo, mas havia trabalho, comida e moradia. Nos anos 20 e 30, eles já estavam integrados à vida da cidade, alguns trabalhando em bancos, em construção civil, etc.. Havia a turma que trabalhava nos escritórios das empresas de imigração, era a turma do "colarinho branco". 

Os que permaneciam nas colonias, trabalhando, diziam que "a turma da Liberdade é mole, não aguentou o trabalho da roça."

Havia treinos de beisebol nos fins de semana, as crianças podiam estudar em nihongakko. Podia-se saborear comida japonesa nos pequenos restaurantes da Liberdade, e ler publicações em japonês.

E assim aos poucos, foi a Liberdade tomada pelos japoneses. Hoje há quem diga que o bairro é mais chines e coreano que japonês. 

A vida dos imigrantes da Liberdade, apesar de simples e difícil, transcorria tranquila e estável.

domingo, 18 de outubro de 2026

O Bairro da Liberdade - indice

 


👉 01 - A Rua Conde de Sarzedas

👉 02 - Os japoneses invadem a Liberdade


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Bairro da Liberdade - Rua Conde de Sarzedas

 

Os porões da Rua Conde de Sarzedas

Impossível falar da história do bairro da Liberdade sem comentar sobre essa icônica rua.

Por volta de 1912 os imigrantes japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, em cuja parte baixa havia um riacho e uma área de mangue.

Quase todas as casas dessa rua tinham porão, e os aluguéis dos quartos nesses porões eram muito baratos. Evidente, não eram nada confortáveis, os porões eram mal iluminados e mal ventilados.

As janelinhas abaixo das janelas grandes são de porões (R. dos Estudantes)

Os porões na Rua Carolina Augusta

Apesar do preço módico, as famílias não tinham condições de pagar aluguel sozinhas, e por isso muitas delas se juntavam e compartilhavam um porão, ou até mesmo uma pequena casa. 

Havia muitas "repúblicas" de moças e rapazes solteiros.

Para aqueles imigrantes, aquele cantinho ignorado da cidade de São Paulo significava esperança por dias melhores. A rua foi escolhida não só pelo preço dos aluguéis, mas também devido à proximidade com a Praça da Sé, de onde partiam os bondes. Dali, podiam pegar o transporte coletivo para irem trabalhar.


Bairro Liberdade 

Os produtos japoneses na Conde de Sarzedas

Aos poucos começaram a surgir as atividades comerciais voltadas ao imigrante japonês: empório, uma casa que fabricava tofu, outra que fabricava manju, agencia de empregos, tornando a Conde de Sarzedas “a rua da japonesada”. Porém o grande atrativo da rua era um estabelecimento que vendia shoyu. Esse local atraia muitos imigrantes japoneses que vinham à São Paulo e voltavam ao interior carregados de shoyu. A introdução desse molho no Brasil melhorou muito os hábitos alimentares dos japoneses: passaram a apreciar, finalmente, o sukiyaki, o sashimi, o nishime, o daikon, etc.

A vida japonesa fervilhava na Conde de Sarzedas, de tal forma que se formavam pequenos grupos, associações recreativas, e até time de beisebol.

Por fazer esquina com a Conde de Sarzedas, a Rua Tomás de Lima também foi aos poucos tomada por imigrantes japoneses. 

A Conde de Sarzedas, retratada pelo artista Tomoo Handa

A vida difícil dos imigrantes da Conde de Sarzedas

Não foi nada fácil a vida dos primeiros imigrantes japoneses da Conde de Sarzedas. Como não falavam o português, era difícil arranjar um bom emprego. Entretanto, havia uma grande vantagem: os japoneses tinham, apesar de não falarem o português, fama de trabalhador dedicado, responsável e disciplinado. Por sua vez, o japonês, sendo analfabeto (no romaji, pois sabiam ler e escrever em japonês) e não falando português, procurava compensar essas deficiências trabalhando com muita dedicação.

Boa parte trabalhava como carpinteiro, pedreiro e motorista de caminhão. Alguns conseguiam o emprego de motorista particular ou empregado de família rica, um emprego muito desejado por todos.

Entretanto o emprego mais comum era de empregado doméstico, na época, chamado de “copeiro”, exercendo as funções de copa, serviços de faxina, auxiliar de cozinheiro, jardineiro e lavador de pratos.

O vicio pelo jogo do bicho

O jogo do bicho era uma das poucas diversões dos japoneses. Na falta de grandes emoções, de outros entretenimentos,  para dar um pouco de emoção ao dia, muitos se tornaram jogadores do bicho. Algumas famílias tiveram problemas com isso, pois perdiam dinheiro, que já era pouco.

O beisebol e o tênis na Conde de Sarzedas

Em 1916 o imigrante Kenji Sassawara organizou um grupo de beisebolistas, que passaram a treinar num terreno baldio, na Rua Conde de Sarzedas, que o chamavam de “campo da Sudan”, pois esse terreno ficava ao lado de algumas instalações da Fábrica de Cigarros Sudan. Talvez seja esse o primeiro time de yakiyu da história do Brasil.

Em 1925 foi a vez do tênis de campo: os japoneses inauguraram uma quadra na Sarzedas.

Time de beisebol (Yakiyu) no "campo da Sudan"
Fonte "O imigrante japonês", Tomoo Handa

O nihongakko na Rua Conde de Sarzedas

Em 1914 o professor Shinzo Miyazaki passou a lecionar japonês em casa. No ano seguinte criou a Escola Primária Taisho. Mais tarde, em 1919, contratou uma professora, dona Antonia Santos, para lecionar o idioma Portugues. A escola chegou a ter 300 alunos. 

A rua Conde de Sarzedas começa a ter ares de bairro japonês, tendo inclusive um nihongakko.

 

Alunos da Escola Taisho - prof. Shinzo Miyazaki a direita
Fonte: "O Imigrante Japones", Tomoo Handa

Aos poucos, os japoneses começaram a chegar e morar nas proximidades da Conde de Sarzedas, onde a Liberdade, como bairro japonês, começou.

Com o passar do tempo e a melhoria da renda familiar, os japoneses abandonaram os porões e alugaram ou compraram moradias melhores.

R. Conde de Sarzedas, 1937

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Fontes: "O imigrante japonês", Tomoo Handa; "Recordações de um imigrante japonês no Brasil", Kazuo Yokomizo/Ana Paula Momose; e outras

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