02 - Os japoneses invadem a Liberdade
~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site
Curiosidades da história da imigração japonêsa no Brasil.
02 - Os japoneses invadem a Liberdade
~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site
Impossível falar da história do
bairro da Liberdade sem comentar sobre essa icônica rua.
Por volta de 1912 os imigrantes
japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, em
cuja parte baixa havia um riacho e uma área de mangue.
Quase todas as casas dessa rua
tinham porão, e os aluguéis dos quartos nesses porões eram muito baratos.
Evidente, não eram nada confortáveis, os porões eram mal iluminados e mal
ventilados.
![]() |
| As janelinhas abaixo das janelas grandes são de porões (R. dos Estudantes) |
![]() |
| Os porões na Rua Carolina Augusta |
Apesar do preço módico, as
famílias não tinham condições de pagar aluguel sozinhas, e por isso muitas
delas se juntavam e compartilhavam um porão, ou até mesmo uma pequena casa.
Havia muitas
"repúblicas" de moças e rapazes solteiros.
Para aqueles imigrantes, aquele
cantinho ignorado da cidade de São Paulo significava esperança por dias
melhores. A rua foi escolhida não só pelo preço dos aluguéis, mas também devido
à proximidade com a Praça da Sé, de onde partiam os bondes. Dali, podiam pegar
o transporte coletivo para irem trabalhar.
![]() |
| Bairro Liberdade |
Aos poucos começaram a surgir as atividades comerciais voltadas ao imigrante japonês: empório, uma casa que fabricava tofu, outra que fabricava manju, agencia de empregos, tornando a Conde de Sarzedas “a rua da japonesada”. Porém o grande atrativo da rua era um estabelecimento que vendia shoyu. Esse local atraia muitos imigrantes japoneses que vinham à São Paulo e voltavam ao interior carregados de shoyu. A introdução desse molho no Brasil melhorou muito os hábitos alimentares dos japoneses: passaram a apreciar, finalmente, o sukiyaki, o sashimi, o nishime, o daikon, etc.
A vida japonesa fervilhava na
Conde de Sarzedas, de tal forma que se formavam pequenos grupos, associações
recreativas, e até time de beisebol.
Por fazer esquina com a Conde de
Sarzedas, a Rua Tomás de Lima também foi aos poucos tomada por imigrantes
japoneses.
![]() |
| A Conde de Sarzedas, retratada pelo artista Tomoo Handa |
Não foi nada fácil a vida dos
primeiros imigrantes japoneses da Conde de Sarzedas. Como não falavam o português,
era difícil arranjar um bom emprego. Entretanto, havia uma grande vantagem: os
japoneses tinham, apesar de não falarem o português, fama de trabalhador dedicado,
responsável e disciplinado. Por sua vez, o japonês, sendo analfabeto (no romaji,
pois sabiam ler e escrever em japonês) e não falando português, procurava compensar
essas deficiências trabalhando com muita dedicação.
Boa parte trabalhava como carpinteiro,
pedreiro e motorista de caminhão. Alguns conseguiam o emprego de motorista
particular ou empregado de família rica, um emprego muito desejado por todos.
Entretanto o emprego mais comum
era de empregado doméstico, na época, chamado de “copeiro”, exercendo as funções de copa, serviços de faxina, auxiliar de cozinheiro, jardineiro e lavador de pratos.
O jogo do bicho era uma das poucas
diversões dos japoneses. Na falta de grandes emoções, de outros
entretenimentos, para dar um pouco de
emoção ao dia, muitos se tornaram jogadores do bicho. Algumas famílias tiveram problemas
com isso, pois perdiam dinheiro, que já era pouco.
Em 1916 o imigrante Kenji
Sassawara organizou um grupo de beisebolistas, que passaram a treinar num
terreno baldio, na Rua Conde de Sarzedas, que o chamavam de “campo da Sudan”,
pois esse terreno ficava ao lado de algumas instalações da Fábrica de Cigarros Sudan. Talvez seja esse
o primeiro time de yakiyu da história do Brasil.
Em 1925 foi a vez do tênis de
campo: os japoneses inauguraram uma quadra na Sarzedas.
![]() |
| Time de beisebol (Yakiyu) no "campo da Sudan" Fonte "O imigrante japonês", Tomoo Handa |
Em 1914 o professor Shinzo Miyazaki passou a lecionar japonês em casa. No ano seguinte criou a Escola Primária Taisho. Mais tarde, em 1919, contratou uma professora, dona Antonia Santos, para lecionar o idioma Portugues. A escola chegou a ter 300 alunos.
A rua Conde de Sarzedas começa a ter ares de
bairro japonês, tendo inclusive um nihongakko.
![]() |
| Alunos da Escola Taisho - prof. Shinzo Miyazaki a direita Fonte: "O Imigrante Japones", Tomoo Handa |
Aos poucos, os japoneses
começaram a chegar e morar nas proximidades da Conde de Sarzedas, onde a
Liberdade, como bairro japonês, começou.
Com o passar do tempo e a melhoria da renda familiar, os japoneses abandonaram os porões e alugaram ou compraram moradias melhores.
![]() |
| R. Conde de Sarzedas, 1937 |
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Fontes: "O imigrante japonês", Tomoo Handa; "Recordações de um imigrante japonês no Brasil", Kazuo Yokomizo/Ana Paula Momose; e outras
O projeto Koutakussei sofreu seu primeiro golpe em 1934, ainda nos primeiros anos de funcionamento, com a promulgação da Constituição Brasileira. Num ato de extrema idiotice, a Constituição em seu artigo 121 do parágrafo 6 decretou:
"A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante, não podendo, porém, a corrente imigratória de cada país exceder, anualmente, o limite de 2% sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos 50 anos".
Como o projeto
Koutakussei previa a entrada de mais de 10 mil famílias, essa restrição
praticamente reduziu as dimensões do projeto e espantou investidores. Esses 2% mal cobriam a demanda de imigrantes do estado de São Paulo.
Para
piorar, no artigo 130 dessa Constitição foi determinado que: "Nenhuma concessão de terras de
superfície superior a dez mil hectares poderá ser feita sem que, para cada
caso, preceda autorização do Senado Federal", pelo que surgiu,
posteriormente a questão da ilegalidade da concessão de terras ao projeto
Koutakussei feita pelo estado do Amazonas.
Em 24 de
agosto de 1936, na então capital do Brasil, Rio de Janeiro, na sessão do
Senado foi deliberado, pela última vez,
o assunto da concessão de terras ao projeto Koutakussei. Apesar dos esforços de
Tsukasa Uetsuka, não foram aceitos os seus argumentos; e por fim decretada a anulação da concessão
feita pelo estado do Amazonas.
Uetsuka contou que poderia recorrer judicialmente, alegar a não retroatividade da lei e o principio do direito adquirido. Entretanto, não fez petição, alegando que não era de bom senso azedar as relações entre os países, Brasil e Japão.
![]() |
| Shin Sekai Asahi Shinbum, California, 17/06/1936 |
A Segunda Guerra Mundial - o golpe final
Com o
inicio da Segunda Guerra Mundial, o projeto sofreu o golpe final dado pelo governo federal.
Getulio Vargas decretou confisco dos bens dos japoneses. Com isso, foi declarada nula a doação das terras do projeto e confiscado o complexo Centro de Pesquisa Industrial da Amazônia. O complexo foi vendido para um milionário português radicado no Brasil, Joaquim Gonçalves de Araújo, por um valor irrisório. Ele construiu uma mansão no local, hoje aberto a visitação turística.
As terras já em poder dos
colonos na Andirá foram desapropriadas.

Casarão de Joaquim G. Araújo, em Vila Amazônia
Como
em outras partes do Brasil, os imigrantes japoneses foram proibidos de fazer
reuniões públicas e de falar seu idioma, uma proibição impossível de ser
cumprida naquele núcleo colonial.
Muitos
foram feitos prisioneiros de guerra e levados para Tomé-Açu, no Pará. Outros se
esconderam na mata, e muitos deles foram secretamente acolhidos por nativos que
se simpatizavam com os japoneses.
Alguns retornaram à Colônia Andirá, onde clandestinamente permaneceram, com discrição.
O
kaikan da Vila Amazônia foi transformado em escola brasileira, Escola de Santa Maria
de Vila Amazonia e mais tarde, infelizmente, demolido.
No
início da década de 50, já encerrado o conflito, Uetsuka tornou a procurar
Getúlio Vargas para propor a criação de uma tecelagem, a Tecejuta, e com isso
recomeçar a produção da juta. Segundo um relatório que deixou escrito, o
projeto teve o apoio do presidente. Porém Getúlio faleceu em 1954, dando fim ao
plano de continuidade do projeto.
E
assim, extinguiu-se o projeto Koutakussei. A Colonia Andirá, após o ciclo da juta, foi abandonada, e
as árvores voltaram a crescer. Hoje ela está novamente coberta por floresta.

Colonia Andirá, 2025 - hoje coberta de mata 
Praia fluvial de Itaracuera, Rio Uaicurapá, onde antes era Colônia Andirá, 2025
Infelizmente,
o governo federal brasileiro cometeu um erro gravíssimo, e sem motivo para tal.
Se o projeto Koutakussei fosse adiante, e tivesse apoio (em vez de repúdia) do
governo, poderia constituir numa grande corrente migratória, provocando um
grandioso desenvolvimento econômico no Amazonas, tal como ocorreu no estado de
São Paulo, com os imigrantes japoneses, italianos e outros.
O
projeto Koutakusssei foi muito bem elaborado, com um altíssimo grau de
profissionalismo. Escolas, treinamentos, pesquisas, agrimensura, adesão
voluntária, apoio do governo do estado do Amazonas, etc. tinha tudo para dar
certo, mas o governo federal, inflamado por um sentimento de nacionalismo
equivocado, praticamente decretou a morte do projeto.
![]() |
| Casarão de J.G. Araújo em Vila Amazônia, 2025 |
![]() |
| Vila Amazônia, 2025 |
![]() |
| Vila Amazônia, 2025 |
👉 Clique aqui para saber mais sobre o projeto koutakussei
A juta é uma planta, de cujo
caule se extrai uma fibra, muito resistente. Ela era usada para fabricação de
fios para fabricação de sacos para cereais (“sacaria”).
![]() |
| Plantação de juta |
Na época dos koutakussei, toda
as sacarias vinham da India, grande produtora de juta. Existia no Brasil uma
demanda gigantesca de sacarias, para ensacamento de café, e mais tarde também
para soja.
![]() |
| Café em sacaria de juta |
![]() |
| Sacas de café ensacadas com sacaria de juta |
A produção da juta pelos
kouakussei foi o maior sucesso do projeto.
Kotaru Tsuji sugere Uetsuka a
levar a juta a Amazônia
Kotaru Tsuji, formado em 1927
na Escola Superior do Comercio de Kobe, partiu para o Brasil em viagem de
pesquisa científica promovida pelo Ministério da Cultura do Japão.
Na Amazônia, na área de
Igarapé Açu (PA), notou que a malva, um planta muito parecida com a juta, crescia
com abundância. A malva produz a fibra usada para fabricação do linho Tsuji,
supôs então que a juta poderia também, tal como a malva, se adaptar bem a
região.
De volta ao Japão, Tsuji foi convidado por Uetsuka para lecionar na recém-inaugurada escola Superior de Colonização Kokushikan, onde viriam a ser formados os kotakuseis enviados à Amazônia. Tsuji passou a Uetsuka a sugestão de produzir a juta na Amazônia.
Convencido por Tsuji, em 1933
Uetsuka enviou a Índia um especialista em agricultura, Isaku Kino, professor da
Kokushikan, para estudar tudo o que fosse necessário sobre o cultivo e
industrialização da juta. Em agosto desse mesmo ano, segundo o relato de
Uetsuka, Kino retornou ao Japão e foi enviado imediatamente ao Amazonas com
sementes adquiridas em Calcutá, as quais foram plantadas em terras da Colônia
Modelo do Andirá.
Mas deu tudo errado. A juta
não se desenvolvia como o esperado e não atingia a altura ideal para
viabilidade de exploração econômica (cerca de 4 metros).
Os espécimes de juta trazidos,
deveriam ser plantados em locais alagados, e muitas vezes a colheita era feita
em época de cheias, obrigando os koutakussei colherem os ramos com meio corpo submerso.
Ryota Oyama descobre dois
espécimes viáveis
Os estudos da planta se
estenderam por dois anos, quando então o koutakussei Ryota Oyama (1882-1972) observou
que duas mudas haviam crescido à altura desejada. Ele teve a ideai de
transplantar essas mudas para um local mais alto, livre de enchentes. Por um
golpe da má sorte, acabou quebrando uma das mudas no caminho. Restava, então,
um único espécime que poderia gerar hastes longas. Essa haste se desenvolveu
bem e gerou sementes, que Oyama colheu.
Oyama dividiu as sementes com
outro koutakussei, Yoshimasa. Em 1937, Ryota Oyama colheu seis toneladas de
juta e Yoshimasa, quatro toneladas, gerando também sementes do novo espécime, dando
início ao clico econômico da juta.
![]() |
| Casa de koutakussei produtor de juta (no varal, secando) |
Em Manaus, duas tecelagens
foram instaladas, a Brasiljuta e a Fitejuta.
Em 1937, o Brasil comprou 37,
5 toneladas de juta indiana. Dez anos depois, as sementes de Oyama já haviam
tornado o Brasil autossuficiente na produção dessa fibra. Entre 1937 até 1942 o
Brasil produziu 5.000 toneladas de juta.
Ryota Oyama ficou conhecido
como “o pai da juta brasileira”.
![]() |
| Ryota Oyama |
![]() |
| Tsukaza Uetsuka e fibras de juta |
A partir dos anos 70 a sacaria
de fibra de juta passou a ser substituída por um saco feito de um tecido
(rafia) de fios sintéticos
(polipropileno PP). Essa nova saca era mais resistente e mais barata que a de
juta. Aliado a isso, o processo logístico da soja começou a ser realizado por containers, não mais por sacaria.
![]() |
| Saco de rafia |
Hoje a fibra de juta é usada
em baixíssima escala, na fabricação de saquinhos decorativos e embalagem de presentes.
![]() |
| Saquinho de fibra de juta |
~~~~~~~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para saber mais sobre o projeto koutakussei
Em 1933, Kotaro Tuji e Sakae Ochi foram os encarregados a organizar a Colônia Modelo de Andirá na área da concessão, situada entre os rios Uaicurapá e Andirá para onde eram encaminhados os colonos e koutakusseis para levar avante a colonização agrícola. A Colônia Andirá ficava a mais ou menos 30 km da Vila Amazônia, por via fluvial.
![]() |
| A Colônia Andirá |
O encaminhamento para a colônia
era feito após longo treinamento na Vila Amazônia, no Centro de Pesquisas
Industriais da Vila Amazonas, conhecido por Instituto Amazonas.
A ida da Colônia Andirá até Vila Amazônia
era em direção à jusante (foz) do rio Mamuru e em seguida pelo Rio Paraná do
Ramos, também em direção a jusante. Portanto a ida era toda a favor da
corrente.
A colônia foi elaborada em 5 grandes glebas (mapa), cada uma recebendo turmas diferentes de koutakussei.
![]() |
| As cinco glebas da Colônia Andirá |
Apesar da concessão ser de 1
milhão de hectares, a Colônia Andirá não representava mais que 5% desse milhão.
A destinação das terras
A vida difícil nas colônias
Como era de imaginar, a vida no
interior da mata Amazônicas nos anos 30 era duríssima. A Colônia Andirá era
isolada, não existiam estradas. O único meio de transporte era fluvial, feita
por barcos, e a única estrutura de apoio era na Vila Amazônia, a aproximadamente
30 km por via fluvial.
Os japoneses subestimaram a
floresta. Por isso muitos koutakusei faleceram precocemente, antes dos 40 anos,
de malária, febre amarela ou outras infecções desconhecidas. Aconteceram muitos
suicídios. Enfrentaram o problema dos insetos (pernilongos, formigas, borrachudos
e mosquitos pólvora), o perigo dos animais selvagens (cobras e aranhas), e a
falta de assistência médica. Não havia água encanada, telefone, eletricidade,
farmácia, posto de emergência médica, mercados, etc.
“Passamos a viver como povos
primitivos, sem eletricidade, à luz de lamparinas, cortando lenha para cozinhar
e se aquecer. Cozinhar era perigoso, pois havia o perigo de se queimar...”,
escreveu o koutakusei Ochi Sakae.
Muitos kutakusei, diante das
condições precárias, abandonaram o projeto e se migraram para cidades.
Para piorar, foram os imigrantes
que mais sofreram perseguições durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo
inclusive o seu grande centro de apoio, a Vila Amazônia, confiscada pelo
governo e fechada.
A situação melhorou para alguns
quando obtiveram sucesso com o plantio da juta.
![]() |
| Colônia Andirá - Google Maps |
![]() |
| Colônia Andirá no Brasil |
~~~~~~~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para saber mais sobre o projeto koutakussei
👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site
Vida do koutakussei no Instituto de Pesquisa Industrial
A maior fonte deste post foram as
memórias do diretor do Instituto, Sakae Ochi. Foram publicadas no site
da NDL (National Diet Library), entre 1984 e 1985.
As memórias foram escritas em
japonês e por isso tive que usar o tradutor nativo do Edge. Entretanto esse tradutor não conseguiu fazer a tradução para o português com exatidão, por isso resultou em um texto muito incompreensível.
Lembrando que o presente post é
de tradução livre, de redação minha, não literal.
(Vila Amazonia, 1932)
A Vila Amazonia tinha um centro de treinamento e Pesquisas, denominado "Instituto de Pesquisa Industrial da Amazonia", onde os koutakussei estudavam e treinavam por um período de um ano antes de serem enviados para as colonias.
A rotina diária
O local e o funcionamento era de certa forma
parecido com um acampamento militar.
A rotina diária era sob disciplina estabelecida, com horários de início, descansos para lanche e almoço e final de expediente. O toque de alvorada era as
5:00, e o dia começava com atividades esportivas e ginástica. As 7:00 era
servido o café. As 8:00 começavam as aulas teóricas, em sala.
Após um almoço e intervalo, começavam as aulas em campo, os treinamentos práticos, construção de casas, de caminhos, derrubada da floresta da Vila Amazonia, etc
Havia treinamentos de capinagem, de montagem e manutenção de equipamentos (enxadas, rastelos, forcas, etc), de arar a terra e de derrubada de árvores.
![]() |
| Treinamento de capinagem na Vila Amazonas |
O “expediente” terminava as 18:00, ao som de um tiro de espingarda, quando
então tomavam banho em rio e iam jantar.
Após o jantar costumavam se
reunir para conversar banalidades, e comentar fatos sobre o trabalho do dia.
Aproveitavam o restante livre da
noite para estudar. O toque de recolher era 21:00 quando então as lamparinas
deveriam ser apagadas.
Havia vigilância noturna, feita
por revezamento.
Não havia férias, apenas um recesso de 15 dias no fim do ano. Para prática esportiva havia um pavilhão onde se treinava kendô, judô e sumô.
![]() |
| Pavilhão da Vila Amazonas - acervo de Camilo Ramos |
A cozinha e a comida
O refeitório e a cozinha eram
coletivos. Era um trabalho perigoso, pois envolvia manipulação de grandes panelas. Ochi Sakae conta que um cozinheiro se queimou com agua quente e o caso foi bastante complicado, sendo o queimado enviado para o Japão para tratamento.
Havia um pasto e um pequeno
rebanho de 40 vacas leiteiras, para produção de leite e derivados, que também
servia de aprendizado sobre pecuária. Além de hortaliças e frutas, comia-se
muito pirarucu (é um peixe que se faz bacalhau) e provavelmente mandioca e
carne de caça.
A atividade de grande importância era a
do cultivo experimental de culturas como soja, algodão, arroz, amendoim,
banana, milho, gergelim, sorgo, tabaco e algodão, e de algumas árvores como seringueira,
cacau e castanha.
Praticavam a prototipagem
agrícola. Consistia em fazer a seleção
de sementes geneticamente melhores. Faziam estudos de adensamento (quantas mudas
por metro quadrado), de irrigação específica para cada planta, do seu tempo de
desenvolvimento (estudo do tipo: quantos dias leva tal variedade de laranja para frutificar?), controle de
pragas, etc. A prototipagem do arroz era considerada a mais importante.
Existia um jardim botânico para observação das espécies, e uma horta onde se plantava cenoura, daikon, rabanete, etc
As derrubadas e queimadas
O trabalho mais árduo e importante de todos eram as das derrubadas. Colonizar é derrubar mata virgem.
Consistia em duas etapas, a primeira era de limpar a
floresta, cortando os arbustos, as árvores menores e cipós. Em seguida vinha o
corte das arvores maiores. Era um trabalho perigoso e o grande problema era o
ataque de cobras, carrapatos, mosquitos e
formigas.
Após derrubada, algumas árvores
eram desgalhadas, pois atrapalhavam a circulação. Havia uma época apropriada
para a derrubada, que antecedia a época seca. Após dois meses secando, as
arvores, já no solo, eram queimadas.
A falta da companhia feminina
A maioria dos koutakussei vieram
solteiros e o diretor do Instituto repetidamente alertava para não se envolver
com as mulheres nativas, as amazonenses. Ele espalhava uma informação falsa,
dizendo que se os pais da moça descobrissem eram obrigados a casar na
delegacia, sob ameaça de armas.
A prática do homossexualismo era
punida com severidade.
Alguns vieram já casados, e tiveram filhos na Vila.
As visitas a Parintins
A maior diversão dos koutakussei
era visitar a cidade de Parintins, naquela época uma vila. Havia um barco a
motor que ia até a essa vila para fazer compras, pegar correspondências, etc. e
os rapazes pediam repetidamente ao diretor para ir a Parintins, para ajudar a
carregar o barco e “treinar o
portugues”. O diretor sempre consentia alguns a irem, porém com a exigência de
usarem sapato, paletó e gravata, além de chapéu social. O intuito era passar a
impressão de que o povo japonês era refinado e elegante, mesmo nos confins da
Amazônia. E tinham a ordem de retirar o
chapéu sempre que uma moça os saudasse. Esses rapazes viravam alvo de grande
curiosidade na vila.
Quando tinham algum dinheiro, a grande compra em Parintins era a cachaça, e voltavam a Vila Amazônia com garrafas de cachaça como se fossem tesouros.
~~~~~~~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para saber mais sobre o projeto koutakussei
👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site
Tsukaza Uetsuka publicou uma reportagem, em julho
de 1931, numa revista de grande circulação no Japão (King). Ela começa com essas manchetes :
Irmãos! Vá para o reino ideal da América do Sul
A nova colônia japonesa na Grande Amazônia
Uma vasta terra intocada que abrange o tamanho de Taiwan,
Kyushu e Shikoku aguarda seu desenvolvimento como uma nova colônia japonesa.
Líder da Equipe de Investigação da Amazonia, Ex-Membro do
Parlamento Tsukasa Uetsuka
Uetsuka na reportagem comemora efusivamente a doação, pelo governo do
Amazonas de quase 14 milhões de hectares
de terras. Descreve sua viagem ao Brasil e suas providencias para que a doação
acontecesse.
A reportagem foi publicada já com o projeto em andamento e
Uetsuka fala com entusiasmo e orgulho as etapas já vencidas, fala do projeto já
em andamento.
Descreve o tamanho da
Amazonia, “maior que a Europa inteira” e que tinha apenas 300 mil habitantes.
Por isso Uetsuka prometia ao interessado em investir em colonização no Brasil
“forneceremos quantas terras você quiser”.
Uma área absurdamente grande
Explica que o governo do Amazonas cedeu até 14 milhões de
hectares, em 14 lotes de 1 milhão, sendo que cada empresa de colonização tinha
direito a 1 lote. A empresa investidora teria no Brasil 10 anos de isenção de
impostos e o governo japonês iria providenciar escola e hospital no projeto. Um mapa demonstra as terras cedidas, uma area absurdamente grande.
![]() |
| Mapa publicado na Revista demarcando a area cedida |
![]() |
| A area projetada em um mapa do Maps |
Um centro de apoio e treinamento (Vila Amazonia) foi
construído e contava com 19 funcionários. Uetsuka revela que os grupos de
koutakusei deviam ter sempre um líder, para manter um espírito de equipe.
Cita com orgulho que organizou a escola de colonização Kokushikan Koto Takushoku Gakko com o
único intuito de atender ao projeto.
Demonstrou admiração pelos rios da Amazonia, da
grandiosidade dos rios.
Uetsuka garantiu que não faltaria comida, pois havia muitos
peixes de bom sabor, destacando o pirarucu, e que havia muitas frutas na
floresta. Comenta, com exagero, sobre a fertilidade da terra, afirmando que
“uma semente semeada hoje, brota amanhã”.
![]() |
| Koutakussei e pirarucus |
A reportagem segue descrevendo as atividades na Vila Amazonia.
![]() |
| Vila Amazonas |
Uetsuka, de forma preconceituosa explica por que os
brasileiros não aproveitam esse paraíso? Ele afirma que “pessoas brancas que
vivem em países tropicais não têm confiança nem força física para suportar o
trabalho” e que “se quiserem acessar as fontes de riqueza da Amazonia, eles
mesmos precisam trabalhar. Essa é uma situação muito dolorosa para eles”. E
acrescenta então, que diante da omissão do povo brasileiro, “repousa sobre nós,
japoneses, a missão de desbravar esse tesouro infinito”.
Tendo passado em Manaus e não tendo foto do Teatro Amazonas, Uetsuka publicou um desenho.
No final da reportagem, Uetsuka publica seu endereço em Toquio, convidando investidores a desbravar a Amazônia.
~~~~~~~~~~~~~~~~
👉 Clique aqui para saber mais sobre o projeto koutakussei
👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site