Omiai- o casamento arranjado entre os japoneses
As origens do casamento arranjado (“omiai”)
No Japão, até o final da Segunda Guerra Mundial, os casamentos por livre escolha do parceiro e por paixão mútua eram raros. Acreditava-se que o amor era dispensável para o casamento, e apaixonar-se era considerado uma manifestação de fraqueza mental e moral.
Essa prática de casamentos arranjados desapareceu no Japão no final da Guerra, embora ainda hoje ocorra, mas em grau bem raro.
Entretanto, os imigrantes japoneses que vieram ao
Brasil tiveram seus pais casados em sistema “omiai”, ou eles mesmo teriam se
casado nesse sistema. E deram continuidade desta prática aqui no Brasil, embora
no Japão já não era mais comum.
Como funcionava o omiai
Nos casamentos arranjados, a maioria dos casais se encontravam previamente em uma apresentação formal chamada omiai (lit. "olhar um para o outro"), embora alguns se encontrassem pela primeira vez no dia do casamento.
O primeiro encontro era promovido por um casamenteiro, chamado “nakodoo”, que agia por solicitação da moça ou rapaz solteiro, ou por solicitação dos pais destes. Ocorriam casos do rapaz se apaixonar por uma moça e pedir para o nakodoo fazer o papel de Cupido.
O primeiro encontro seria para o casal se conhecer, conversar
e até mesmo avaliar os méritos e virtudes um do outro. No entanto o julgamento de ambos e suas objeções e reprovações tinham pouco peso.
A recusa deveria ser mantida em discrição, comentá-la era considerado ato de grande gravidade e desrespeito.
O omiai, desnecessário dizer, era praticado somente entre a colônia
japonesa, ou seja, não era promovido o casamento inter-racial.
Supreendentemente, os casamentos por omiai tiveram baixíssimo índice
de separação.
Essa prática de casamento arranjado era comum também entre os imigrantes italianos.
O tipos de omiai
Existiam dois tipos de casamento arranjado: o promovido pelo nakodoo, e o casamento por promessa (acordo prévio). Neste, os pais de um menino combinavam casamento com os pais de uma menina. Muitas vezes, tanto o menino como a menina eram recém-nascidos. Ou seja, era um casamento “por reserva”.
Não
raramente, o rapaz, não gostando da moça prometida, e não podendo fugir do
compromisso assumido pelos pais, às vésperas do casamento fugia de casa. Em
alguns casos, fugia junto com alguma namorada brasileira.
As razões da prática do omiai
A principal razão da prática do omiai era evitar o casamento inter-racial.
Os imigrantes tinham o objetivo de voltar (ricos) para
o Japão, juntamente com toda a família. Se um imigrante ou filho dele se
casasse com uma brasileira, criaria fortes raízes com a família da
esposa/marido brasileiro. Por outro lado, o cônjuge brasileiro, em caso de retorno
ao Japão, seria separado da sua família. Portanto, o objetivo seria preservar o
núcleo familiar integralmente japonês, perfeitamente apto a voltar a viver no Japão.
Outra razão era a dificuldade de se iniciar um namoro, causado
pelo isolamento típico da época. Os solteiros da zona rural não tinham pontos
de encontros regulares (bares, igrejas, clubes, escolas, etc) onde poderiam
encontrar um parceiro e iniciar um romance. Não existia sequer o telefone.
O nakodoo
O casamenteiro (nakodoo) era um espécie de Tinder-man. Ele mantinha uma lista de solteiros, e muitos pais recorriam a ele, colocando o filho/a na lista. Era uma pessoa sempre discreta. Era sempre homem, e um dos mais velhos da colônia. As tratativas do primeiro encontro eram sempre com os pais dos pretendentes.
Casamentos inter-raciais
Os casamentos inter raciais, de rapaz de origem japonesa com moça brasileira (ou vice-versa) eram raríssimos entre os isseis (imigrantes) e também relativamente raro entre os nisseis.
Entre os nisseis, a pouca ocorrência de casamento inter-racial
se deve aos seguintes motivos:
a) a) Pressão
dos pais. Embora não fosse exigência obrigatória, os pais discretamente manifestavam
aos filhos sua preferência por genros/noras japonesas; tendo aí uma forte
pitada de preconceito contra os “gaijins”;
b) b) Identificação
étnica – por natureza, italianos tem mais interesses por italianas, alemãos por
alemãs, japoneses por japonesas, etc.
c) c) Meio
social – os japoneses entre eles, formavam grupos sociais, clubes, escolas de língua
japonesa, times de beisebol, etc e era então natural que os romances acontecessem
neste meio.
d) d) Para
se manter no meio étnico, familiar, social e culturalmente – para os fortemente
identificados como nipônicos, casar-se com uma brasileira significava abdicar parcialmente
dos valores típicos da etnia, e se afastar da colônia. Se um japonês se casasse com uma italiana, por
exemplo, de certa forma abriria a mão do sushi, do sashimi, do missô shiro e
passaria a comer pizza e pasta.
Os casamentos inter-raciais entre os isseis, curiosamente
eram todos de rapaz japonês com moça brasileira, dificilmente o oposto (moça
japonesa com rapaz brasileiro). Este perfil continuou entre os nisseis, porém
com algumas exceções.
A partir da geração sansei (que é a minha) os casamentos
inter-raciais começaram a acontecer e serem bem aceitos pela colonia. Já não existia a possibilidade e nem o desejo de retorno ao Japão.
Entre a geração seguinte, yonsei (quarta geação), o jogo
virou: é raro o casamento não inter-racial.
Os casados inter-raciais não sofreram nenhum tipo de discriminação
junto a colônia. Pelo contrário, eram admirados por terem a coragem de quebrar
um costume enraizado. E o cônjuge não japonês foi, e ainda é, sempre bem tratado e aceito
pela família e colônia.
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| Casamento inter racial - Curitiba |
O primeiro casamento inter-racial no Brasil envolvendo cônjuge japonês ocorreu em 1930 (foto), casaram-se Tetsunosuke Yamamoto e Maria da Luz Santos.
Experiência pessoal (do autor deste site)
Os meus pais, ambos nisseis, se casaram por omiai. Meus
avós paternos, imigrantes, também se casaram, no Brasil, por omiai. Todos
por intervenção de um nakodoo (casamenteiro).
Um dos meus tios se casou com uma italiana, nos anos 60, o
que era raro na época.
Eu me casei por “rennai” (casamento por amor e namoro). Os
pais da minha esposa se casaram também por rennai.
Meus filhos, yonseis, se casaram com descendentes de italianos.


















