quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Kasato Maru - o retorno ao Japão

 Kasato Maru - o retorno ao Japão

O navio partiu de Santos e fez uma parada no Rio de Janeiro, de onde zarpou para o porto de Yokohama em 03 de julho de 1908. Essa data foi noticiada no Jornal do Commercio de Sp, edição 04/07/1908.

Anúncio da partida do Kasato Maru, do Rio de Janeiro

Aproveitando a oportunidade, o Museu Commercial enviou para o Japão amostras de produtos brasileiros, na esperança de despertar algum interesse nos consumidores japoneses. A notícia é do jornal A Noticia (de Curitiba, Pr).

Jornal A Noticia (Pr) em edição de 06/08/1908

A notícia menciona um certo "Museu Commercial", provavelmente sediado em Santos. Não encontrei nenhuma referencia sobre esse museu. O jornal noticiou em 06 de agosto, com bastante atraso, o navio já havia zarpado em 03 de julho.

Curiosamente, foram enviados 12 amostras de paraty, certamente secos e salgados.

As barreiras fitossanitárias internacionais ainda não existiam, de forma que os produtos foram embarcados sem nenhum empecilho. 

Foi anunciado a intenção de enviar 1.000 sacas de café, entretanto somente 500 foram embarcadas, sendo 250 destinadas a Kobe e 250 a Yokohama, como foi noticiado na Tribuna de Santos :

Tribuna de Santos, 25 de junho de 1908


Registro do embarque de café - 500 sacas


A tentativa de viciar os japoneses com café não funcionou. 

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo e os elogios do Inspetor

 

Hospedaria dos Emigrantes de São Paulo – os elogios do Inspetor

O então Inspetor da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, J. Amandio Sobral, um mês após a chegada do Kasato Maru, em uma reportagem no Correio Paulistano, edição de 17/07/1908,  fez largos elogios à Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo.

Apesar de bastante tendencioso (já que a Hospedaria era vinculada à sua Secretaria), o depoimento nos dá certa ideia de como funcionava a Hospedaria.

Correio Paulistano, 17/07/1908 (01)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (02)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (03)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (04)

Correio Paulistano, 17/07/1908(05) 

Correio Paulistano, 17/07/1908 (06)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (07)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (08)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (09)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (10)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (11)

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domingo, 2 de agosto de 2026

Vida doméstica colono brasileiro nas fazendas

Como era a vida doméstica do imigrante recem chegado


N.R. esse post é fruto de pesquisas, mas também com uma forte influencia pessoal, pois sou neto de imigrantes, e que também trabalhei com colonos, tendo visitado muitas casas deles na década de 70. Meu pai conservou muitos hábitos dos tempos de colônia dele.

A casa do colono

Os imigrantes japoneses, ao chegarem nas fazendas, eram levados ao novo lar, a casa de colono de fazenda. Eram feitas no estilo pau-a-pique (ou “casa de taipa”). As paredes consistiam em uma armação entrelaçada de varas (em geral, de bambu), e essa armação sustentava uma mistura de barro com capim seco (adobe).
Algumas casas eram feitas de troncos de arvores, mais comumente de coqueiros (meus avós paternos moraram em casa deste tipo).

O telhado era de capim sapé ou folhas de coqueiro. Não havia divisão interna na casa, as vezes cortinas de pano faziam a divisão da casa.

Casa de sapê ou "casa de taipa"


Uma casa feita de troncos de coqueiros

O interior da casa do colono


O chão era de terra batida e o fogão a lenha, feito de tijolos, ou improvisado no chão mesmo. Os bancos consistiam em pedaços de troncos de árvores ou de caixotes de madeiras, refugados pelos comerciantes da cidade. Os armários e prateleiras eram feitas também de caixas de madeira, empilhadas.

Sobre o fogão, havia sempre uma vara de bambú suspensa por arame ou barbante. Nela se penduravam linguiças e pedaços de toicinhos, ficavam ali para a cura e defumação com o calor e a fumaça do fogão. O bambu suspenso servia também para proteger o alimento contra os ataques dos ratos.

Os colchões eram na verdade sacos enormes, preenchidos com capim seco ou palha de milho. Tinham uma abertura, permitindo assim a troca do preenchimento. Os travesseiros eram do mesmo material ou de camomila.

As casas tinham pilão, para socar café, descascar arroz ou fazer mochi.

A iluminação noturna era de lamparinas de querosene feitas por calheiros. Para economizar querosene, algumas casas ficavam em semiescuridão à noite.  

Lamparina de querosene


Tomava-se água e café em canecos feitos de latas de conserva, e comia-se em pratos de metal esmaltado ou louça. O pão era feito em casa, com fermento biológico e em fornos feitos de barro.

Forno de barro

O banho e o banheiro - a casinha


As necessidades eram feitas em uma casinha longe da casa, evitando assim a proximidade do mal cheiro. Esse é um detalha marcante, o famigerado “bendjo”, “casinha” ou “patente”, que nenhum imigrante tem saudade.

Por ser a “casinha”  separada da casa, era muito desconfortável sair de casa a noite (especialmente nas noites chuvosas ou frias), por isso o uso do penico era comum. Nas noites chuvosas, visitar a “casinha” significa ter que sujar o pé de lama, e aí para retornar à cama era necessário lavar os pés.

Banheiro W.C. 

O banho do colono


O banho em geral também era fora da casa, em chuveiro estilo Tiradentes (consistia em um balde suspenso por roldana, com um chuveirinho acoplado). Nos dias quentes, quem morava perto de um rio, tomava banho no rio. 


Chuveiro "Tiradentes"

Algumas casas tinham ofurô feito de tambor, um verdadeiro luxo, com a água aquecida a lenha. Era obrigatório lavar e enxugar-se antes de entrar no ofurô (ainda é...). Nos dias de muito frio, alguns faziam isso apressadamente, os mais porquinhos nem isso faziam...

O jirau


As louças eram lavadas fora de casa em estruturas rústicas chamadas de jirau. Esse jirau poderia ser ao lado de uma janela, e assim era possível lavar a louça dentro de casa nos dias de chuva. 

Não existia água encanada e as louças eram lavadas em duas grandes bacias de alumínio, que faziam o papel de pias. Uma bacia para lavar e outra para enxaguar as louças. Estas  eram deixadas escorrendo e secando ao sol. Havia a preocupação de que algum passarinho sentasse nas louças e defecasse.

O jirau era fora de casa, pois a casa já era apertada, pequena; e também para evitar “molhaceira” dentro de casa, pois o chão era de barro.

Jirau rústico

O esgoto, quando existia (em geral, a água do banho e da lavagem das louças vertiam no solo mesmo) era um buraco ao céu aberto, e a água era levada a esse  buraco por pequenas valetas.

O sabão era feito em casa, com soda, gordura animal, abacate, soja, ou qualquer outro material oleaginoso. Era usado, alem de lavar louças e roupas, também para banho, como sabonete. 

Muitos imigrantes japoneses ocuparam casas de outros colonos que abandonaram a fazenda. Alguns contam que encontraram a casa suja e em completa desordem.
 

As casas melhores


Algumas casas de fazendas antigas eram melhores, feitas de tábuas ou alvenaria e cobertas de telhas arredondadas (segundo uma lenda urbana, feitas nas coxas). Podiam ter divisão interna, invariavelmente sala, cozinha e dois quartos. Entretanto,  os cômodos não tinham porta. 

O fogão era a lenha, feito de alvenaria e com chapa de ferro, com duas bocas - um verdadeiro sonho de consumo das mulheres de colonos pobres da época (e dos chacreiros ricos de hoje...). 

Fogão caboclo a lenha


A agricultura, horticultura e criação de subsistência


Os colonos (na época, chamados pejorativamente de “caipiras”) praticavam a produção de subsistência.

Criavam galinhas e porcos para consumo próprio.  A criação de porcos  provocavam proliferação de moscas, que infestavam as casas.  
Os imigrantes europeus (italianos e alemães) gostavam de ter vacas para produção de leite, queijo e manteiga. 

Os frangos, criados em galinheiros ou soltos no quintal,  eram abatidos no dia de serem consumidos. Eram os famosos "frangos caipiras". 

As galinhas eram poupadas, até certo ponto, para produção de ovos e pintinhos. 

O imigrante japonês era famoso pelo consumo de verduras e legumes. Foram eles que introduziram no Brasil o cabochá (kabocha), o pepino japonês e o nabo japonês (daikon) Popularizaram no Brasil o consumo de vários alimentos, entre eles a beringela, a acelga e o caqui. Os imigrantes tinham então horta no quintal da casa, cercada para proteger dos ataques de animais e galinhas.

Os colonos cultivavam assim, para subsistência, todo tipo de fruta, verdura, etc, mais comumente a batata doce, o milho e a mandioca. Era comum ter pés de frutas cítricas, abacate e manga no quintal. 

O dia de matar porco


O dia de matar porco, sempre domingo, era bem festivo para o colono.

Matava-se ali mesmo, no quintal da casa (já presenciei várias vezes, mas não vou entrar em detalhes sobre essa parte). 

O dia todo se passava com as tarefas de carnear o porco, de fritar a carne (que era conservada em latas) em um grande tacho; de limpar as tripas; fazer linguiça usando as tripas limpas; de fazer o toicinho, a banha, o bacon, etc.

O porco era despelado raspando-se o couro com uma faca bem afiada, jogando-se água fervente na pele.

Muitas vezes, um vizinho (as vezes nem era convidado) se oferecia para ajudar nos trabalhos da matança do porco, e como agradecimento, levava para casa um pedaço do porco.

Alguns “especialistas” faziam algo diferente com o porco: chouriço de sangue, codiguim, einsbein, dobradinha, linguiça Blumenau, salame etc.
 

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Kasato Maru - a chegada no Porto de Santos

Kasato Maru – a chegada ao porto de Santos

Antes da chegada - os noticiários

As saídas dos navios de imigrantes no Japão eram avisadas ao porto, às ferrovias, aos fazendeiros, à Hospedaria dos Imigrantes, etc com antecedência, para assim todos terem tempo suficiente para os preparativos para recebê-los. Os jornais da época acabavam também sendo informados.

O Jornal de Santos, em edição do dia 16/06/1908 noticiava a breve chegada do Kasato Maru: 

Jornal de Santos 16 de junho de 1908

A Tribuna de Santos, em edição de 01/05/1908, anunciava, mais de um mes antes, a chegada.

Tribuna de Santos 01/05/1908

O Jornal A Noticia (de Curitiba, Pr), anunciava com bastante antecedência (04/04/1908) a chegada do Kasato Maru e lamentava o fato, pois o país em geral era contra a imigração de orientais para o Brasil.


A Noticia, Pr, edição de 04/04/1908

A manifestação do governador Jorge Tibiriça

Em um depoimento ao jornal Correio Paulistano, edição 04/05/1908, o então governador do Estado de São Paulo Jorge Tibiriça anunciou que o primeiro navio de imigrantes estava prestes a chegar, graças ao apoio do governo dele. Salienta que o japonês foi escolhido, pois a Itália não permitia mais a emigração para o Brasil.
O depoimento do governador Jorge Tibiriça 01

O depoimento do govenador Jorge Tibiriça 02

O depoimento do governador Jorge Tibiriça 3


A chegada do Kasato Maru

O Kasato Maru nessa viagem foi capitaneado pelo ingles Alfred G. Stevens.

Partiu do porto de Kobe, em 28 de abril e chegou a Santos no dia 17 de junho de 1908. A travessia oceânica durou portanto 52 dias. 

Na hora da chegada era noite, o porto estava fechado e por isso o navio ficou parado a certa distância, esperando o raiar do dia. A noite deste dia, observando as luzes da cidade de Santos ao longe, foi um misto de grande júbilo pelo final da penosa viagem e muita ansiedade. Muitos choraram de saudades da pátria e dos parentes e amigos que ficaram para trás. .

No dia seguinte, 18 de junho de 1908 (data oficial do inicio da imigração japonesa ao Brasil) aconteceu a atracação, porém os imigrantes permaneceram ainda a bordo. Funcionários da saúde pública paulista subiram a bordo e deram uma rápida inspeção nos imigrantes.

Uma pequena comitiva, vinda de São Paulo, subiu a bordo para recepcionar os imigrantes: Arajiro Miura, Ministro Plenipotenciário Japonês, que veio de Petrópolis (Rj); Rafael Monteiro, representante da companhia de imigração; Teijiro Suzuki, secretário a Hospedaria dos Imigrantes; e Takeo Goto, comerciário, funcionário das Casas Fujisaki, de São Paulo.

Era véspera do Dia de São João e na noite de 18 de junho, ainda a bordo, ouviam-se rojões e alguns balões cortavam o céu. Comovidos, os japoneses pensaram que eram rojões de boas-vindas.

Na manhã do dia seguinte, 19 de junho os imigrantes foram acordados as 3:30. O café foi servido as 5:00, ainda a bordo. As 07:00 iniciou-se o desembarque e o embarque em trem com destino a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

No dia 20 de junho, os imigrantes receberam na Hospedaria um visitante ilustre: o governador do Estado de Sp Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, recém empossado. 

Um inspetor da Secretaria da Agricultura, J. Amandio Sobral, foi a hospedaria e produziu um relatório, publicado no Jornal Paulistano foi,  dando as primeiríssimas informações sobre os recém-chegados (veja post desta reportagem neste site). Essa reportagem é histórica, muito conhecida por todos estudiosos de imigração.

Kasato Maru em Porto de Santos, 1908

Desembarque dos imigrantes do Kasato Maru

O serviço aduaneiro na Hospedaria dos Imigrantes

No dia 22 de junho, funcionários da aduana iniciaram a inspeção das bagagens, para verificar alguma possibilidade de contrabando, mas absolutamente nada encontraram que pudesse ser taxado. A inspeção durou longos 2 dias, mais de 1.100 malas foram verificadas. Os funcionários da aduana elogiaram a paciência, a ordem e a colaboração dos japoneses na inspeção.

Seis dias após a chegada, um grupo de imigrantes desejou sair da hospedaria para dar um rápido passeio. Na rua, acompanhados de um guia da hospedaria, os japoneses foram cercados por curiosos, que nunca tinham visto japonês na vida. As moças imigrantes foram alvos de especial atenção.

No dia 27 de junho, finalmente, os imigrantes começaram a ser enviados para as fazendas, quase todas no norte de São Paulo,  onde assinariam contrato de trabalho. Estas transferências se estenderam até o dia 06 de julho.

A ferrovia para as fazendas tinha uma pequena estação anexa à Hospedaria dos Imigrantes. 

Estação Ferroviária Hospedaria dos Imigrantes

O inspetor da Secretaria da Agricultura (em seu relatório publicado no jornal) relatou que os japoneses deixaram a Hospedaria dos Imigrantes em absoluta ordem e limpa. “Os dormitórios quase não precisam ser varridos, mal se encontrando de longe em longe um pedacinho de papel ou um fósforo queimado...”

A reportagem da Tribuna de Santos e o preconceito contra os japoneses

O jornal A Tribuna de Santos, edição de 18 de junho de 1908, noticiou a chegada, acrescentado uma nota de insatisfação com a presença dos japoneses.



A Tribuna de Santos, 18 de junho de 1908.
(transcrição)

As 9:30 da manhã de ontem, entrou em nosso porto o vapor japonês Kasato Maru, consignado á casa Wilson Sons & Cia., desta praça. E' esta a primeira viagem que esse vapor faz para portos do Brasil, tendo levado 51 dias de Kobe a este porto, tocando em Singapura e Capetown.
O Kasato Maru, que tem 3.823 toneladas de registro e 01 homens (sic) de tripulação, e é comando pelo capitão A. O. Stevens, trouxe 781 imigrantes japoneses para nosso Estado, que hoje devem seguir para a capital em trem especial, que partirá às 9 horas da manhã.
O Kasato Maru tambem traz a seu bordo vinte e poucos passageiros de classe, em viagem de recreio.
As 5 horas da tarde o Kasato Maru atracou no cais das Docas, em frente ao armazém no. 14.
Durante a viagem desse vapor, e já em águas brasileiras, deu-se no dia 15 do corrente, as 11 horas da noite, um lamentável facto, que vai noticiado noutra parte desta folha.

    (N.R. Infelizmente, não consegui encontrar a “noutra parte desta folha”)

O nosso solo é tão vasto e está na maior parte desabitado, que de qualquer modo precisa povoamento.
A nossa lavoura, grita-se por toda a parte, está sem braços !
Pois bem. Aí vão braços novos, de uma potencia formidável.
Parabéns à lavoura paulista, apesar de que, a nosso ver, não é caso para isso.
A experiência tem demonstrado que essa colonização asiática tem dado mau resultado em toda a parte. Os japoneses não se adaptam aos países em que vivem, são refratários aos usos e costumes alheios, constituem, fora da pátria, uma sociedade sua própria, como acontece na América do Norte.
Antes o perigo germânico e o ítalo, que nos parecem imaginários. 

👉 Clique aqui para ler a reportagem do inspetor J. Amandio Sobral

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domingo, 26 de julho de 2026

Shindo Renmei - atentados terroristas-junho sangrento

 Shindo Renmei - os atentados terroristas 

A Folha da Manhã, em sua edição de 26 de julho de 1946 publicou uma reportagem a respeito dos atentados. O mes de julho de 1946 foi especialmente violento na colônia japonesa. A reportagem faz um levantamento de diversos atos ocorridos no mes de abril e junho de 1946, em várias cidades do estado de Sp.

Manchete da edição


Considerando que a legibilidade está ruim, fiz a transcrição.

Texto 01 da reportagem

"Continua em crescendo impressionante (sic) a série de atentados terroristas japoneses praticados no interior do Estado, principalmente na zona noroeste. Metodicamente em proporção de um por dia os atentados estão deixando toda a colônia em estado de permanente terror, sem que, para contornar a situação, bastem as providencias cada vez mais enérgicas das autoridades competentes. Ao que se sabe, bem poucos criminosos caíram, até agora, nas mãos da Polícia. A maioria que está detida constitui-se de simples suspeitos. Basta dizer que o japonês que é tido como chefe visível do chamado “Pelotão Suicida”, já identificado como sendo Sunao Shi??hiki e que tem participado pessoalmente de todos os atentados ainda não foi preso, sendo totalmente desconhecido o seu paradeiro. 

Texto da reportagem (2)

Por outro lado, sabe-se que os principais e mais dispostos elementos encarregados das execuções vivem internados no mato, sem nunca aparecer nas cidades ou centros populares, a não ser com o fim único de levar a efeito o atentado.

ADMITE-SE O RECRUDESCIMENTO INTENSIVO DOS ATENTADOS

Pelos dados que podemos colher no Serviço Secreto da Ordem Pública e Social, confrontada com ...

Texto da reportagem (3)


... a opinião unânime de numerosos japoneses que prestam sua colaboração decidida às autoridades, admite-se o recrudescimento intensivo dos atentados. Podemos adiantar que muitos japoneses, já tendo iniciado uma ação defensiva, estudam a possibilidade de instituir, também, um regime de verdadeiro contra-terror, escalando grupos de patrícios decididos para dar caça aos criminosos, embrenhando-se igualmente na mata, a fim de apresenta-los à Justiça.

23 ATENTADOS ATÉ O DIA 23

Texto da reportagem (4)

Há dias, a “Folha da Noite” publicou o total do balanço trágico, anotando 22 atentados com 34 vítima. Hoje graças à gentileza do delegado Geraldo Cardoso de Melo, que chefia o Serviço Secreto do Departamento de Ordem Pública, podemos resumir cada um desses atentados, cujo total foi acrescido de mais um. Ei-los:
 
A SERIE DE CRIMES

Em 7 de março do corrente ano, na cidade de Bastos, foi assassinado a tiros por japoneses desconhecidos, o gerente da Cooperativa Agrícola da localidade, Ikuta Mizobe. Em 1º. de abril, pelas 5 horas da madrugada, foi assaltada a ...

Texto (5)

... residência do ex-diplomata nipônico, sr. Shiguetsuna Furuya. A (endereço, ilegível), nesta Capital. Ao que ficou apurado, os assaltantes pertenciam ao 1.o grupo do “Pelotão Suicida”, que, pelas janelas e portas do edifício, fizeram numerosos disparos, tentando assassinar o patrício, o qual, porém, não foi atingido. Quando tentaram...

Texto 6

... tentaram fugir, foram presos por guardas-noturnos os assaltantes Tatsuo Watan(ilegível), chefe do bando, e Mitsuro Ikeda.

No mesmo dia, uma hora depois, isto é, as 6 horas, o jornalista e industrial japonês Tsuzaburo Nomura, foi assassinado em sua residência, à rua Zacarias Klein, 15, nesta Capital. A esposa da vítima, que presenciou a cena, foi também agredida e subjugada pelos criminosos. Em 17 do mesmo mês, as 9 horas, em (ilegível) foram vitimas de um atentado os nipônicos Kanezo Shibuia, Hisamitsu Hayashi e Issamu Miura. Os autores do delito Tadashi Fukuma e Shugui (Shogi?) Nakamura foram presos em flagante depois de uma espetacular tentativa de fuga.

No dia 30, em Presidente Prudente, quando passava pelo quilometro 10, da estrada de (ilegível), o japonês Eikiti Tsuzuki foi alvejado a tiros por nipônicos desconhecidos, escapando, porem, ileso. 

Texto 7


EM BASTOS

A partir do mesmo dia e hora os terroristas tentaram passarem a agir de preferencia na cidade de Bastos. Ali o japonês Massao Ikeda foi vítima de um atentado, tendo sofrido ferimentos leves, pela explosão de uma bomba de mostarda, que se achava escondida em numa caixinha. Um menor foi quem entregou a caixinha, declarando que a  mesma lhe fora entregue por um japonês de identidade iganorada.

Em 1º. de abril, ainda na cidade de Bastos, os nipônicos Massao Honda e Yoshimatsu Kussahara também foram vítimas de uma bomba de mostarda remetida por indivíduos desconhecidos. As vítimas sofreram ferimentos de natureza leve. No mesmo dia e na mesma cidade João Hayashi, Hitiro Oba e Gonkiti Yamanaka residentes nos bairros de Monteiro, Esperança e Cascata, respectivamente também receberam caixinhas idênticas, contendo bombas de mostarda...

Texto 8

Todos sofreram ferimentos leves não tendo sido identificado os remetentes. No dia seguinte Bastos foi teatro de outro atentado, na pessoa de Hatiro Abe, que recebeu a mesma caixinha, sofrendo ferimentos leves em virtude da explosão da tal bomba de mostarda. Como em outros casos, foi portador da caixinha uma criança que não soube identificar a pessoa que lhe mandara entregar a mortífera encomenda. 

Texto 9 

NESTA CAPITAL E EM DIVERSOS MUNICIPIOS

Deixando a cidade de Bastos em paz por algum tempo, os terroristas escolheram outras zonas para campo de ação. Em 2 de junho, foi morto a tiros a golpes de faca na sua residência, nesta Capital, (ilegível) Jinsaku Wakiyama. Os assaltantes invadira a casa da vitima e, depois de praticado o delito, procuraram a autoridade de plantão na Polícia Central. Verificou-se que os assassinos eram remanescentes dos bandos autores dos dois primeiros atentados registrados nesta Capital. As 16h30m do dia 10 de julho em Brauna, município de Glicério, Katsu Yaghi foi atacado por três japoneses, não sofrendo porem qualquer ferimento. A vítima reconheceu entre os assaltantes os patrícios (ilegível) Heba, ......

Texto 10

...Itchiro Negahiro. Duas horas depois desse atentado um outro era registrado na cidade de Bilac deixando vítimas Oishi Mori e Meichi Mori(*), ambos comerciantes assassinados por patrícios desconhecidos.

Em 12 do mesmo mês na localidade de Mil Alqueires, município de Coroados dois japoneses desconhecidos assaltaram uma residência familiar ferindo a faca e a tiros o dono da casa Kasuke Tominaga, sua esposa Kazuke Tominaga, Shutoshi Tominaga e mais duas pessoas, sendo uma delas Shigueo Tsuda que morreu dias depois, no (ilegível) . Outro japonês que foi assassinado pelas 10 horas do mesmo dia no bairro de (ilegível), antigo Bela Vista, município de Bilac, foi Issamu Sahanai. Em 16...

(*) N.R. os mortos em Bilac foram Milton Mori e Kazuhiro Mori, o repórter não citou corretamente os nomes.

Texto 11

....de abril, entrando novamente na cidade de Bastos, os terroristas, que usavam máscaras, feriram a tiros de revolver e pistola “Mauser” o ex-gerente do Banco da América, Hiroshi Yamanaka e sua esposa.

As 18h30 do dia imediato, em Cafelândia, foi assassinado o japonês Shohei Kusunoki e ferido gravemente o dentista Kiso Imai, ambos residentes na cidade. Os criminosos foram presos em flagrante. Nesse mesmo dia, registraram-se mais dois assaltos sendo um deles em Cafelândia. Cinco fanáticos assaltaram os japoneses Takeuchi e um outro de identidade ignorada, saindo ambos ilesos. O segundo assalto teve lugar em Getulina às 10 horas. Japoneses desconhecidos assassinaram Tosi Horiuchi, diretor da Cooperativa 2ª. Uetsuka.No dia seguinte, em Borborema, 

Texto 12

... o japonês Takuso Iwata foi assassinado. Às 21h20 do mesmo dia, no Patrimônio de Inúbia, em Lucélia, japoneses não identificados tentaram assassinar Toshimi Assano, que ficou gravemente ferido. Em 23 do mesmo mês às 2h45, em Osvaldo Cruz houve um atentado à residência de Izuro Suzuki. Os assaltantes atiraram uma bomba ou garrafa de querosene provocando incêndio na casa. Finalmente as 22h30 de 23 do corrente, no bairro de Cascata em Bastos verificou-se o último atentado. O japonês Kasuhara de tal saindo ao quintal de sua residência para verificar o motivo porque os cachorros latiam foi alvejado por disparo de revolver, não sendo, porem atingido.

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sábado, 25 de julho de 2026

A Colonia Gleba Rio Ferro - Dourados-Ms

A colônia Gleba Rio Ferro de Dourados Ms

Posteriormente à inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, de Bauru (Sp) a Porto Esperança (Ms), um ramal foi construído, ligando Campo Grande até Ponta Porã, ao sul do Ms, passando por Dourados. A estação ferroviária de Dourados (Estação Ministro Pestana) foi inaugurada em 1949.

Esse ramal permitiu a instalação da Gleba Rio Ferro, projeto de um grande empreendedor, Yasutaro Matsubara.

Estrada de Ferro Noroeste do Brasil

Yassutaro Matsubara e a Colonizadora Rio Ferro

(Fonte: Carlos Tomonaga, em Facebook; e outros)

No dia 01 julho 1952 Yassutaro Matsubara, residente em Marilia (SP), recebeu autorização do presidente da República Getúlio Vargas para introduzir 4 mil famílias japonesas numa nova colônia, em Dourados Ms.

Alem da autorização, recebeu um gigantesco lote de 300 mil hectares, batizada de Gleba Rio Ferro. Ele mesmo coordena a vinda, do Japão, das primeiras famílias para a gleba, que chegam no dia 07/07/1953.

Yassutaro Masubara fundou então uma empresa, a Colonizadora Rio Ferro para coordenar a colonização.

Os imigrantes trazidos por ele alcançaram a marca de 202 famílias (1.073 pessoas) e 158 imigrantes solteiros (totalizando 1.231 imigrantes), entre os anos de 1953 a 1961. Estes foram se estabeleceram na Gleba Rio Ferro, entretanto alguns deles foram para o noroeste do Paraná e oeste de São Paulo.

Observem que o perfil dessa leva de imigrantes foi bem diferente das primeiras. Os primeiros imigrantes foram trabalhar como empregados de fazendas, passando por grandes dificuldades. Os imigrantes de Yassutaro vieram com maior apoio, na qualidade de adquirentes de terras, com apoio e financiamento, etc. e com a proposta de se fixarem no Brasil definitivamente.

Com a morte de Getúlio Vargas (1954), a Colonizadora Rio Ferro perdeu seu maior apoiador. Por ser amigo intimo do falecido presidente e também por intrigas políticas, Yassutaro foi alvo de ataques da imprensa, que insinuava (de forma caluniosa) estar ele envolvido em um esquema que desviou recursos da campanha Vargas.

Ressentido, Yassutaro Matsubara transferiu a empresa para o filho e retornou ao Japão em 1955, onde permaneceu até morrer.

Yassutaro Matsubara e Getulio Vargas

Getúlio Vargas, como já sabemos, no período da Segunda Guerra Mundial era ferrenho anti nipônico. Entretanto, mantinha fortes laços com Matsubara, seu contribuinte e cabo eleitoral importante, tendo o apoiado mesmo durante a Segunda Guerra.

A Comissão Especial de Imigração e o governador de Mt

Interessado em promover a vinda de imigrantes ao Brasil, Getúlio Vargas (que na segunda guerra, para puxar saco dos americanos perseguiu imigrantes), formou a Comissão Especial de Imigração, para tratar do assunto.

Esta comissão procurou o governador do estado do Mato Grosso (naquela época, Mt e Ms eram um só estado), que a recebeu com muito entusiasmo. 

A reportagem da Folha da Manhã, de 12 de novembro de 1951

Através dessa reportagem, foi possível levantar os seguintes fatos: o governo Vargas formou a Comissão Especial de Imigração, que tinha a missão de procurar e determinar locais para formação de colônias agrícolas de imigrantes. 

Esta comissão, federal, procurou o governador do estado do Mato Grosso, Fernando Correia Costa. Esse se dispôs a doar uma gigantesca área 300.000 alqueires na região de Dourados, para projetos de colonização. Entusiasmado, prometeu ainda dar apoio aos futuros imigrantes. Nesta visita ao governador, estava junto com a comissão Yassutaro Matsubara.

Naquela época já existia uma colônia bem-sucedida em Dourados, a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, constituída em 1943..

Num rompante de entusiasmo, a Comissão Especial de Imigração anunciou um plano tão mirabolante quanto impossível:  trazer do Japão nada menos que 100 mil imigrantes, instalá-los nas terras cedidas pelo governador, isso em um prazo de apenas 6 meses. 

Folha da Manhã, 12 de setembro de 1951

Segue o texto da reportagem :













Yassutaro Matsubara

Matsubara Futebol Clube

Este time de futebol profissional, que esteve em atividade entre 1974 a 2011, com sede em Cambará, Pr, não tem relação com Yassutaro Matsubara e seus descendentes. Trata-se de outro ramo da família.