sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Carta de chamada da imigrante italiana Angela R Annunziata

 Carta de chamada da imigrante Angela Rosa Annunziata

Essa carta de chamada foi emitida no Consulado Italiano de Campinas, em 1912. Compareceu nesse consulado o sr. Francesco Cadini de Lucca e duas testemunhas, Paulino Caselli e Rocco Pauliello.

As testemunhas, legalmente necessárias, confirmaram que conhecem o declarante, Francesco; e também a imigrante a ser chamada, Angela Rosa Annunziata, sogra de Francesco. 

Carta de chamada

Tradução livre da primeira página (acima)

REGIO CONSULATO D´ITALIA IN CAMPINAS, BRASILE

Ato de chamamento numero 28.

Reinando sua Majestade Vittorio Emanuele III por graça de Deus e vontade da Nação Rei d´Itália.

No ano de mil novecentos e doze, aos 10 do mês de março, em Campinas e na Chancelaria Consular da Itália.

Avante a nós, Giovanni Moscardi, Regente e Vice Consul nomeado pela Majestade nesta residência.

Presentes os senhores Paulino Casselli, filho de Angelo, 72 anos, nascido em Lucca, província de Lucca, de profissão industrial, residente em Campinas; e Rocco Pauliello, filho de Antonio, 42 anos, nascido em Maschiogadena, província de Campobelli, profissão empregado, residente em Campinas, testemunhas identificadas, idôneas, e pessoas legalmente requisitadas para confirmar a identidade (richiesti fidefacenti dell´identitá) da pessoa diante de nós (comparente) descrita abaixo.

É pessoalmente constituído o senhor....


Texto do certificado de Angela Rosa Annunziata

Tradução livre da segunda página (acima)

Francesco Cadini di Lucca, 46 anos, nascido em Lucca, profissão industrial, residente em Campinas (Sp). O qual declarou que é sua intenção chamar para morar em sua casa no Brasil a seguinte pessoa:

Rosa Angela Annunziata, viúva de Graziano, sua sogra, de 60 anos; acrescentado que é capaz de prover sustento para ela; e que pagará as despesas da viagem de volta à Italia (spese di rimpatrio) em caso seja obrigada a retornar por motivo de saúde ou outros motivos. (*)

As testemunhas presentes declararam ter conhecimento que ela na Itália tem condição de se manter empregada (**).

E se faz a presente declaração de forma que a pessoa acima citada possa mais facilmente obter da RR. Autoridade competente o relativo passaporte regular para o Brasil.

Diante dos pedidos, havemos legalmente realizado (rogato) o presente ato que foi por mim lido diante de todos os abaixo assinados.

(N.R. a tradução é minha, entretanto o italiano dessa carta é arcaico, de 1912, e o estilo da escrita e os termos dela são de jargão jurídico da época; por esses motivos pode a tradução ter pequenas incorreções; entretanto em sua tradução o teor geral da carta está correta. )

(*) N.R. consta em várias cartas de chamada esta condição, de que haveria meios de repatriar a pessoa para tratamento médico no país de origem, isentando assim o Brasil das obrigações de assistência de saúde do imigrante, ou juridicamente, brindando o Brasil contra alguma omissão ou negligência no tratamento do imigrante.

(**) e, portanto, está apta a trabalhar no Brasil. Era uma informação salientando que ela poderia até mesmo se sustentar sozinha. 

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Carta de chamada do imigrante Gennari Onorato

 O certificado de Gennari Onorato

O certificado, na íntegra

Texto do certificado

Tradução livre :

CERTIFICA che Gennari Onorato filho dos falecidos  Federico e Messina Maria, nascido em Boffrigheli em 24 de março de 1842, titular do passaporte no. 14 emitido em 23 de fevereiro do ano corrente, emitido pela R. Prefettura de Adria, vai se juntar aos filhos em suas residências, os quais são capazes de prover a ele o sustento.

Pádua, 27 de fevereiro de 1913.

O Prefeito


Este é um documento, em forma de certificado, emitido pela prefeitura de Pádua. Este tipo de documento tinha fé pública, e era aceito pela Inspetoria de Imigração do porto de Santos. Tinha os mesmos efeitos da carta de chamada.

Analisando o texto, Gennari, aos 71 anos,  tirou o passaporte dia 24/03/1913 e três dias depois foi à prefeitura solicitar este certificado, necessário para entrar no Brasil.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Carta de chamada de Maria Vidale

 

Carta de chamada da imigrante Maria Vittalle

Esse documento foi emitido pelo prefeito de Padova (Pádoa), Itália, em 05/02/1920. As declarações de autoridades estrangeiras (neste caso, o prefeito) tinham crédito na Inspetoria de Imigração do porto de Santos. 

Carta de chamada de Maria Vidale pag. 01
 
Carta de chamada de Maria Vidale 02

Consta que Idelmonte, Andrea e Umberto Brotto, residentes em São Paulo e visitando a Italia, no dia 05/02/1920 foram a Prefeitura de Padova e declaram ao prefeito que iriam cuidar da mãe Maria Vittalle  (“... tengono a próprio cari la madre Vidale Maria...”). É provável que foram à Italia com o intuito de buscara a mãe, na época com 64 anos de idade.

A carta descreve Maria:  filha de Setpano e viúva de Brotto, nascida em Vicenza em 08/08/1856, e que ela ia unir-se aos filhos tão logo se mude ao Brasil  (...que la stessa rimpatrió unitalmente ai figli in seguito alla mobilitazione.)

De posse deste documento, a imigrante desembarcaria no Brasil e o apresentaria ao serviço de imigração do porto.

Curiosamente, o documento tem duas páginas, sendo que na segunda declara nula as 7 primeiras linhas da primeira página.

Há declaração de que uma via ficava arquivada na prefeitura.

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Cartas de chamada de imigrantes

 As cartas de chamada de imigrantes

O que eram as  cartas de chamada


Eram apenas declarações escritas, chamando parentes (em geral pais, filhos e irmãos) para virem morar no Brasil. Servia como uma espécie de pedido de visto de entrada (VISA), e eram apresentados aos agentes de imigração na chegada ao Brasil. Lembrando que o visto de entrada não era emitido nos mesmos moldes de hoje. 

 

As cartas de chamada serviam como documento comprobatório de que o convidado seria acolhido no Brasil pela pessoa que chamou, que este providenciaria moradia e comida do recém-chegado.

A carta de chamada também era um sinal de que o recém-chegado não era um aventureiro qualquer, um fugitivo; ou um andarilho que, sem teto garantido no Brasil, que ia morar nas ruas. E o recém-chegado, através da carta tinha o aval, a recomendação da pessoa que o chamou. Para deixar a carta “mais forte”, era acrescentado a profissão do convidado.

A carta de chamada ainda é usada hoje, mas é conhecida como “carta convite”. Se você vai viajar para o exterior e vai ficar hospedado em casa de amigo ou parente, pode solicitar a ele que envie a você uma carta convite, pois você não vai reservar hotel de chegada, exigido pela imigração de quase todos os países.

Como funciona a carta de chamada

O anfitrião escreve a carta convidando o futuro imigrante e envia a ele (via correio). Ao chegar ao Brasil, o imigrante apresenta a carta aos órgãos de controle de imigração.
Entretanto, eram também aceitas cartas de chamadas feitas no país de origem, no estilo “estou sendo chamado no Brasil”. Eram declarações lavradas por entidades públicas dignas de fé (prefeituras, igrejas, delegacias, consulados, etc).

Carta de chamada de Marianna von Kolben, emitida por Pe. Estanislau Irzebiatanski

 

Carta de chamada de Marianna von Kalben


 Transcrição da carta :

"Numero 105 da lista de passageiros

Exmo sr. Ministro do Brasil
Ou ao substituto legal

Eu abaixo assinado, (ilegivel) dos Polacos desta Capital, vem declarar, que recebe toda a responsabilidade sobre a pessoa Marianna von Kalben, que contando com sesenta e oito annos, pretende vir para o Brasil e ficar na minha casa. Por isso peço favor dar sua licença ou Visto no passa-porte.
Com todo o respeito,

Pe. Estanislau Irzebiatanski
Curityba, 18 de novembro de 1824."

Os dizeres “numero 105 da lista de passageiros” foi escrita por alguém da tripulação do navio (notem que a caligrafia é diferente), por ocasião do embarque da sra. Marianna.

A carta foi escrita em 18/11/1924, entretanto a imigrante Marianna chegou ao porto de Santos em 10/09/1925, quase um ano depois, como pode ser visto no carimbo da Inspetoria da Imigração de Santos, no alto da carta, a esquerda. 

Em que situações as cartas de chamada eram usadas

As empresas de imigração exigiam que o imigrante viajasse em grupos familiares (de no mínimo três, pai, mãe e filho/a). O grupo familiar era garantia de estabilidade (de emprego) nas fazendas, pois dificultava as fugas (abandono de emprego).

 

Entretanto, algumas pessoas no Japão (ou outro país) desejavam imigrar ao Brasil sozinhos, para juntarem-se à um grupo familiar já instalado aqui no Brasil. Poderia ser, por exemplo, um filho que foi deixado sozinho no Japão;  ou pais que foram deixados para trás, se tornaram idosos e necessitavam de assistência do filho imigrante no Brasil. 


A carta de chamada garantiria que o imigrante se agregaria a uma família aqui no Brasil.

Os tipos de cartas de chamada

1) Cartas privadas, em geral escritas à mão pelo anfitrião, aqui no Brasil. Eram enviadas, por correio, ao convidado (a imigrar), e apresentadas às inspetorias de imigração por ocasião do desembarque. Era um documento aceito, mas na base da confiança da veridicidade dos termos da carta, não tinham a força dos outros tipos de cartas. É o caso da carta acima, chamando Marianna von Kolben. 

2) Declarações redigidas por qualquer autoridade de confiança (naquela época as pessoas eram mais confiáveis), como por exemplo o prefeito da cidade do imigrante chamado, o delegado de polícia (do Brasil ou do pais do chamado), os agentes consulares etc. Por serem formais e assinadas por testemunhas, eram aceitas pelos controles de imigração sem questionamentos.

3) Documento oficial, emitido pelo DEOPS, embaixadas ou por serviços públicos de imigração.

 

Todos esses documentos tinham caráter declaratório, e de requerimento, não de autorização (visto de entrada no Brasil), pois os emitentes e declarantes não tinham essa prerrogativa.

 

O acervo do Museu da Imigração do Estado de São Paulo guarda 30 mil cartas de chamadas.


Veja neste site, exemplos de cartas de chamada.


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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Kasato Maru - o retorno ao Japão

 Kasato Maru - o retorno ao Japão

O navio partiu de Santos e fez uma parada no Rio de Janeiro, de onde zarpou para o porto de Yokohama em 03 de julho de 1908. Essa data foi noticiada no Jornal do Commercio de Sp, edição 04/07/1908.

Anúncio da partida do Kasato Maru, do Rio de Janeiro

Aproveitando a oportunidade, o Museu Commercial enviou para o Japão amostras de produtos brasileiros, na esperança de despertar algum interesse nos consumidores japoneses. A notícia é do jornal A Noticia (de Curitiba, Pr).

Jornal A Noticia (Pr) em edição de 06/08/1908

A notícia menciona um certo "Museu Commercial", provavelmente sediado em Santos. Não encontrei nenhuma referencia sobre esse museu. O jornal noticiou em 06 de agosto, com bastante atraso, o navio já havia zarpado em 03 de julho.

Curiosamente, foram enviados 12 amostras de paraty, certamente secos e salgados.

As barreiras fitossanitárias internacionais ainda não existiam, de forma que os produtos foram embarcados sem nenhum empecilho. 

Foi anunciado a intenção de enviar 1.000 sacas de café, entretanto somente 500 foram embarcadas, sendo 250 destinadas a Kobe e 250 a Yokohama, como foi noticiado na Tribuna de Santos :

Tribuna de Santos, 25 de junho de 1908


Registro do embarque de café - 500 sacas


A tentativa de viciar os japoneses com café não funcionou. 

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo e os elogios do Inspetor

 

Hospedaria dos Emigrantes de São Paulo – os elogios do Inspetor

O então Inspetor da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, J. Amandio Sobral, um mês após a chegada do Kasato Maru, em uma reportagem no Correio Paulistano, edição de 17/07/1908,  fez largos elogios à Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo.

Apesar de bastante tendencioso (já que a Hospedaria era vinculada à sua Secretaria), o depoimento nos dá certa ideia de como funcionava a Hospedaria.

Correio Paulistano, 17/07/1908 (01)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (02)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (03)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (04)

Correio Paulistano, 17/07/1908(05) 

Correio Paulistano, 17/07/1908 (06)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (07)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (08)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (09)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (10)

Correio Paulistano, 17/07/1908 (11)

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domingo, 2 de agosto de 2026

Vida doméstica colono brasileiro nas fazendas

Como era a vida doméstica do imigrante recem chegado


N.R. esse post é fruto de pesquisas, mas também com uma forte influencia pessoal, pois sou neto de imigrantes, e que também trabalhei com colonos, tendo visitado muitas casas deles na década de 70. Meu pai conservou muitos hábitos dos tempos de colônia dele.

A casa do colono

Os imigrantes japoneses, ao chegarem nas fazendas, eram levados ao novo lar, a casa de colono de fazenda. Eram feitas no estilo pau-a-pique (ou “casa de taipa”). As paredes consistiam em uma armação entrelaçada de varas (em geral, de bambu), e essa armação sustentava uma mistura de barro com capim seco (adobe).
Algumas casas eram feitas de troncos de arvores, mais comumente de coqueiros (meus avós paternos moraram em casa deste tipo).

O telhado era de capim sapé ou folhas de coqueiro. Não havia divisão interna na casa, as vezes cortinas de pano faziam a divisão da casa.

Casa de sapê ou "casa de taipa"


Uma casa feita de troncos de coqueiros

O interior da casa do colono


O chão era de terra batida e o fogão a lenha, feito de tijolos, ou improvisado no chão mesmo. Os bancos consistiam em pedaços de troncos de árvores ou de caixotes de madeiras, refugados pelos comerciantes da cidade. Os armários e prateleiras eram feitas também de caixas de madeira, empilhadas.

Sobre o fogão, havia sempre uma vara de bambú suspensa por arame ou barbante. Nela se penduravam linguiças e pedaços de toicinhos, ficavam ali para a cura e defumação com o calor e a fumaça do fogão. O bambu suspenso servia também para proteger o alimento contra os ataques dos ratos.

Os colchões eram na verdade sacos enormes, preenchidos com capim seco ou palha de milho. Tinham uma abertura, permitindo assim a troca do preenchimento. Os travesseiros eram do mesmo material ou de camomila.

As casas tinham pilão, para socar café, descascar arroz ou fazer mochi.

A iluminação noturna era de lamparinas de querosene feitas por calheiros. Para economizar querosene, algumas casas ficavam em semiescuridão à noite.  

Lamparina de querosene


Tomava-se água e café em canecos feitos de latas de conserva, e comia-se em pratos de metal esmaltado ou louça. O pão era feito em casa, com fermento biológico e em fornos feitos de barro.

Forno de barro

O banho e o banheiro - a casinha


As necessidades eram feitas em uma casinha longe da casa, evitando assim a proximidade do mal cheiro. Esse é um detalha marcante, o famigerado “bendjo”, “casinha” ou “patente”, que nenhum imigrante tem saudade.

Por ser a “casinha”  separada da casa, era muito desconfortável sair de casa a noite (especialmente nas noites chuvosas ou frias), por isso o uso do penico era comum. Nas noites chuvosas, visitar a “casinha” significa ter que sujar o pé de lama, e aí para retornar à cama era necessário lavar os pés.

Banheiro W.C. 

O banho do colono


O banho em geral também era fora da casa, em chuveiro estilo Tiradentes (consistia em um balde suspenso por roldana, com um chuveirinho acoplado). Nos dias quentes, quem morava perto de um rio, tomava banho no rio. 


Chuveiro "Tiradentes"

Algumas casas tinham ofurô feito de tambor, um verdadeiro luxo, com a água aquecida a lenha. Era obrigatório lavar e enxugar-se antes de entrar no ofurô (ainda é...). Nos dias de muito frio, alguns faziam isso apressadamente, os mais porquinhos nem isso faziam...

O jirau


As louças eram lavadas fora de casa em estruturas rústicas chamadas de jirau. Esse jirau poderia ser ao lado de uma janela, e assim era possível lavar a louça dentro de casa nos dias de chuva. 

Não existia água encanada e as louças eram lavadas em duas grandes bacias de alumínio, que faziam o papel de pias. Uma bacia para lavar e outra para enxaguar as louças. Estas  eram deixadas escorrendo e secando ao sol. Havia a preocupação de que algum passarinho sentasse nas louças e defecasse.

O jirau era fora de casa, pois a casa já era apertada, pequena; e também para evitar “molhaceira” dentro de casa, pois o chão era de barro.

Jirau rústico

O esgoto, quando existia (em geral, a água do banho e da lavagem das louças vertiam no solo mesmo) era um buraco ao céu aberto, e a água era levada a esse  buraco por pequenas valetas.

O sabão era feito em casa, com soda, gordura animal, abacate, soja, ou qualquer outro material oleaginoso. Era usado, alem de lavar louças e roupas, também para banho, como sabonete. 

Muitos imigrantes japoneses ocuparam casas de outros colonos que abandonaram a fazenda. Alguns contam que encontraram a casa suja e em completa desordem.
 

As casas melhores


Algumas casas de fazendas antigas eram melhores, feitas de tábuas ou alvenaria e cobertas de telhas arredondadas (segundo uma lenda urbana, feitas nas coxas). Podiam ter divisão interna, invariavelmente sala, cozinha e dois quartos. Entretanto,  os cômodos não tinham porta. 

O fogão era a lenha, feito de alvenaria e com chapa de ferro, com duas bocas - um verdadeiro sonho de consumo das mulheres de colonos pobres da época (e dos chacreiros ricos de hoje...). 

Fogão caboclo a lenha


A agricultura, horticultura e criação de subsistência


Os colonos (na época, chamados pejorativamente de “caipiras”) praticavam a produção de subsistência.

Criavam galinhas e porcos para consumo próprio.  A criação de porcos  provocavam proliferação de moscas, que infestavam as casas.  
Os imigrantes europeus (italianos e alemães) gostavam de ter vacas para produção de leite, queijo e manteiga. 

Os frangos, criados em galinheiros ou soltos no quintal,  eram abatidos no dia de serem consumidos. Eram os famosos "frangos caipiras". 

As galinhas eram poupadas, até certo ponto, para produção de ovos e pintinhos. 

O imigrante japonês era famoso pelo consumo de verduras e legumes. Foram eles que introduziram no Brasil o cabochá (kabocha), o pepino japonês e o nabo japonês (daikon) Popularizaram no Brasil o consumo de vários alimentos, entre eles a beringela, a acelga e o caqui. Os imigrantes tinham então horta no quintal da casa, cercada para proteger dos ataques de animais e galinhas.

Os colonos cultivavam assim, para subsistência, todo tipo de fruta, verdura, etc, mais comumente a batata doce, o milho e a mandioca. Era comum ter pés de frutas cítricas, abacate e manga no quintal. 

O dia de matar porco


O dia de matar porco, sempre domingo, era bem festivo para o colono.

Matava-se ali mesmo, no quintal da casa (já presenciei várias vezes, mas não vou entrar em detalhes sobre essa parte). 

O dia todo se passava com as tarefas de carnear o porco, de fritar a carne (que era conservada em latas) em um grande tacho; de limpar as tripas; fazer linguiça usando as tripas limpas; de fazer o toicinho, a banha, o bacon, etc.

O porco era despelado raspando-se o couro com uma faca bem afiada, jogando-se água fervente na pele.

Muitas vezes, um vizinho (as vezes nem era convidado) se oferecia para ajudar nos trabalhos da matança do porco, e como agradecimento, levava para casa um pedaço do porco.

Alguns “especialistas” faziam algo diferente com o porco: chouriço de sangue, codiguim, einsbein, dobradinha, linguiça Blumenau, salame etc.
 

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