Como era a vida doméstica do imigrante recem chegado
N.R. esse post é fruto de pesquisas, mas também com uma forte influencia pessoal, pois sou neto de imigrantes, e que também trabalhei com colonos, tendo visitado muitas casas deles na década de 70. Meu pai conservou muitos hábitos dos tempos de colônia dele.
A casa do colono
Os imigrantes japoneses, ao
chegarem nas fazendas, eram levados ao novo lar, a casa de colono de fazenda. Eram feitas no estilo pau-a-pique (ou “casa de taipa”). As
paredes consistiam em uma armação entrelaçada de varas (em geral, de bambu), e
essa armação sustentava uma mistura de barro com capim seco (adobe).
Algumas casas eram feitas de troncos de arvores, mais comumente de coqueiros (meus avós paternos moraram em casa deste tipo).
O telhado
era de capim sapé ou folhas de coqueiro. Não havia divisão interna na casa, as
vezes cortinas de pano faziam a divisão da casa.
O chão era de terra batida e o
fogão a lenha, feito de tijolos, ou improvisado no chão mesmo. Os bancos
consistiam em pedaços de troncos de árvores ou de caixotes de madeiras, refugados pelos comerciantes da cidade. Os armários e prateleiras eram
feitas também de caixas de madeira, empilhadas.
Sobre o fogão, havia sempre uma vara de bambú suspensa por arame ou barbante. Nela se penduravam linguiças e pedaços de toicinhos, ficavam ali para a cura e defumação com o calor e a fumaça do fogão. O bambu suspenso servia também para proteger o alimento contra os ataques dos ratos.
Os colchões eram na verdade sacos enormes, preenchidos com capim seco ou palha de milho. Tinham uma abertura, permitindo assim a troca do preenchimento. Os travesseiros eram do mesmo material ou de camomila.
As casas tinham pilão, para socar café, descascar arroz ou fazer mochi.
A iluminação noturna era de lamparinas de
querosene feitas por calheiros. Para economizar querosene, algumas casas
ficavam em semiescuridão à noite.
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| Lamparina de querosene |
Tomava-se água e café em canecos feitos de latas de conserva, e comia-se em pratos de metal esmaltado ou louça. O pão era feito em casa, com fermento biológico e em fornos feitos de barro.
O banho e o banheiro - a casinha
As necessidades eram feitas em uma casinha longe da casa, evitando assim a proximidade do mal cheiro. Esse é um detalha marcante, o famigerado “bendjo”, “casinha” ou “patente”, que nenhum imigrante tem saudade.
Por ser a “casinha” separada da casa, era muito desconfortável sair de casa a noite (especialmente nas noites chuvosas ou frias), por isso o uso do penico era comum. Nas noites chuvosas, visitar a “casinha” significa ter que sujar o pé de lama, e aí para retornar à cama era necessário lavar os pés.
O banho em geral também era fora
da casa, em chuveiro estilo Tiradentes (consistia em um balde suspenso por roldana,
com um chuveirinho acoplado). Nos dias quentes, quem morava perto de um rio, tomava banho no rio.
Algumas casas tinham ofurô feito de tambor, um verdadeiro luxo, com a água aquecida a lenha. Era obrigatório lavar e enxugar-se antes de entrar no ofurô (ainda é...). Nos dias de muito frio, alguns faziam isso apressadamente, os mais porquinhos nem isso faziam...
O jirau
As louças eram lavadas fora de
casa em estruturas rústicas chamadas de jirau. Esse jirau poderia ser ao lado
de uma janela, e assim era possível lavar a louça dentro de casa nos dias de
chuva.
Não existia água encanada e as louças eram lavadas em duas grandes bacias
de alumínio, que faziam o papel de pias. Uma bacia para lavar e outra para
enxaguar as louças. Estas eram deixadas
escorrendo e secando ao sol. Havia a preocupação de que algum passarinho
sentasse nas louças e defecasse.
O jirau era fora de casa, pois a casa já era apertada, pequena; e também para evitar “molhaceira” dentro de casa, pois o chão era de barro.
O esgoto, quando existia (em
geral, a água do banho e da lavagem das louças vertiam no solo mesmo) era um
buraco ao céu aberto, e a água era levada a esse buraco por pequenas valetas.
O sabão era feito em casa, com soda, gordura animal, abacate, soja, ou qualquer outro material oleaginoso. Era usado, alem de lavar louças e roupas, também para banho, como sabonete.
Muitos imigrantes japoneses ocuparam casas de outros colonos que abandonaram a fazenda. Alguns contam que encontraram a casa suja e em completa desordem.
As casas melhores
O fogão era a lenha, feito de alvenaria e com chapa de ferro, com duas bocas - um verdadeiro
sonho de consumo das mulheres de colonos pobres da época (e dos chacreiros ricos de hoje...).
Os colonos (na época, chamados pejorativamente de “caipiras”) praticavam a produção de subsistência.
Criavam galinhas e porcos para consumo próprio. A criação de porcos provocavam proliferação de moscas, que infestavam as casas.
Os imigrantes europeus (italianos
e alemães) gostavam de ter vacas para produção de leite, queijo e manteiga.
Os frangos, criados em galinheiros ou soltos no quintal, eram abatidos no dia de serem consumidos. Eram os famosos "frangos caipiras".
As galinhas eram poupadas, até certo ponto, para produção de ovos e pintinhos.
O imigrante japonês era famoso
pelo consumo de verduras e legumes. Foram eles que introduziram no Brasil o
cabochá (kabocha), o pepino japonês e o nabo japonês (daikon) Popularizaram no Brasil o
consumo de vários alimentos, entre eles a beringela, a acelga e o caqui. Os imigrantes tinham então horta no quintal da casa, cercada para proteger dos ataques de animais e galinhas.
Os colonos cultivavam assim, para subsistência, todo tipo de fruta, verdura, etc, mais comumente a batata doce, o milho e a mandioca. Era comum ter pés de frutas cítricas, abacate e manga no quintal.
O dia de matar porco
O dia de matar porco, sempre
domingo, era bem festivo para o colono.
Matava-se ali mesmo, no quintal da casa
(já presenciei várias vezes, mas não vou entrar em detalhes sobre essa parte).
O dia todo se passava com as tarefas de carnear o porco, de fritar a carne (que era conservada em latas) em um
grande tacho; de limpar as tripas; fazer linguiça usando as tripas limpas; de fazer
o toicinho, a banha, o bacon, etc.
O porco era despelado raspando-se o couro com uma faca bem afiada,
jogando-se água fervente na pele.
Muitas vezes, um vizinho (as
vezes nem era convidado) se oferecia para ajudar nos trabalhos da matança do porco,
e como agradecimento, levava para casa um pedaço do porco.
Alguns “especialistas” faziam algo diferente com o porco: chouriço de sangue, codiguim, einsbein, dobradinha, linguiça Blumenau, salame etc.








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