quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo - indice

 Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo 

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Ryu Mizuno e o Kasato Maru - indice

Ryu Mizuno e Kasato Maru - indice


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Primórdios da Historia da Imigração Japonesa no Brasil - Indice

 

Os primórdios da história da imigração japonesa

Fatos que marcaram a história da imigração japonesa, antes do Kasato Maru





    

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O incidente no Buenos Aires Maru

 

O incidente no navio Buenos Aires Maru

Uma pequena curiosidade na história da imigração japonesa ao Brasil.

Em dezembro de 1929 o navio Buenos Aires Maru, que estava levando emigrantes para o Brasil, aportou na Cidade do Cabo, como era de praxe. Era a parada obrigatória para abastecimento de combustível, comida, água, etc.

No mesmo dia, o navio Manila Maru, vindo do Brasil, onde deixara emigrantes, atracou também em Cidade do Cabo.

Alguns imigrantes que estavam no Manila Maru, voltando para o Japão, resolveram visitar os conterrâneos no Buenos Aires. Perguntados, explicaram então os motivos deles estarem voltando ao Japão: o trabalho nas fazendas do Brasil era árduo, os ganhos eram poucos, os imigrantes ficavam endividados, a possibilidade de enriquecer era nula. Os repatriados pintaram o Brasil como o inferno na Terra.

Esse quadro nada animador rapidamente se espalhou no Buenos Aires. Em questão de horas, o navio inteiro já estava a par das informações. As esperanças e os sonhos dos emigrantes viraram pó. A noite a bordo foi de insônia, desespero, discussões e caos.

Na manhã seguinte, quando o Buenos Aires se preparava para zarpar, aconteceu uma grande aglomeração no convéns do navio. Por unanimidade, os emigrantes a bordo exigiram que o Buenos Aires fizesse meia volta e retornasse ao Japão. Alegaram que foram enganados pela propaganda das companhias de emigração.

Os agentes de emigração passaram a convencer todos que, apesar das enormes dificuldades a enfrentar no Brasil, era um lugar, para eles, ainda melhor que o Japão. Explicou a eles as possibilidades a longo prazo, a enormidade territorial do Brasil, com terras baratas para todos, etc.

Apesar da propaganda enganosa no Japão, os agentes de emigração não estavam errados. A prova é que os imigrantes em sua maioria tiveram uma vida bem melhor no Brasil do que teriam no Japão.

Convencidos os imigrantes a continuar, o navio prosseguiu então sua viagem ao Brasil, chegando em Santos em 29/12/1929.

Há uma nota no jornal Folha da Manhã anunciando a chegada do navio no Rio de Janeiro, no dia 25/01/1930. Ele aportou em Buenos Aires (Argentina), e em seguida, Santos.

Folha da Manhã, 26/01/1930


Buenos Aires Maru

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Kobe Imigration Center

 Kobe Imigration Center - Kobe, Japão

O National Kobe Emigration Center foi estabelecido em 1928, para servir de suporte para os emigrantes que deixaram o Japão, principalmente aqueles que foram para a América do Sul. 

National Kobe Emigration Center

Antes da existência desse centro, os emigrantes  ficavam a espera de embarque em dezenas de pequenos hotéis, em condições precárias e a um custo muito alto para as companhias de emigração. 

No dia do embarque, era difícil reunir todos os viajantes, pois ficavam espalhados pelos hotéis cidade. Eram vários os casos em que o traslado chegava no hotel e não encontrava algum emigrante, que tinha dado uma saidinha.

Após a inauguração do Kobe Emigration Center, muitos hoteis encerraram as atividades, visto que o centro absolveu todos os clientes.

 

A hospedagem no Kobe Emigration Center era gratuita, e a estadia máxima era de 10 dias. Ali eram ministradas palestras e cursos sobre o novo país; e os emigrantes recebiam as devidas vacinas e tinham aulas do idioma do país a acolher eles.


Ali eram orientados também sobre quem pagaria as despesas do processo de imigração (taxas portuárias, alimentação, hospedagens, transportes até às fazendas, etc). Eram alertados para não serem cobrados indevidamente ao chegar no país escolhido.

 

Na periferia do centro funcionavam várias lojinhas que vendiam conveniências baratas: sabonetes, lenços, toalhas de banho, canecos, chinelos, chapeis, etc. 


Se estabeleceram também nos arredores alfaiates que confeccionavam roupas ocidentais. Os imigrantes encomendavam “roupa de trabalho”, que eram roupas simples feitas de tecidos rústicos. As mulheres encomendavam vestidos e os homens paletós. Os alfaiates se apressavam, tinham prazo curto, pois muitas encomendas chegavam de última hora e a partida do navio era as vezes eminente.


 

O estado de ansiedade no centro


No local, reinava a ansiedade, o medo, a  dúvida e ao mesmo tempo a esperança. Como é o Brasil ? Como são as fazendas ? Seriam bem tratados ? Ganhariam dinheiro?

Muitos ficavam em estado de dúvida, a beira da desistência, mas não tinham dinheiro para retornar para casa. Outros não podiam desistir, pois tinham que acompanhar familiares.

 

Ocorriam muitas manifestações de paixões, de amor. Moças e rapazes recebiam cartas com pedidos de casamento de ultima hora: “desista de ir ao Brasil, não me abandone e se case comigo”. Paixões secretas eram reveladas : “não quero que vá embora sem voce saber que te amo…”, promessas de fidelidade aconteciam: “esperarei a sua volta…”. Essas manifestações de amor geravam dúvidas, angústias, choros e até desistências.

 

Moças que eram obrigadas a se casar em esquema de casamento simulado para formar família de imigrante montada ficavam em dúvida. O casamento fajuto seria anulado mais tarde? Os agentes da companhias de emigração garantiam que sim, que o casamento forjado era apenas uma formalidade.


Emigrantes em frente ao Kobe Emigration Center

A rotina do dia a dia no Kobe Emigration Center

 

Muitos rapazes recorriam ao centro, na esperança de serem adotados, e assim poderem se esconder no Brasil, fugindo da convocação militar e consequente envio à ocupação da Coreia ou Manchuria.

 

Os emigrantes faziam e refaziam cálculos, de quanto iam ganhar em um ano (o contrato de trabalho firmado por eles com as fazendas de café era de um ano). Era crucial esse primeiro ano: se não desse certo a vida no Brasil, precisavam de ganhar, no primeiro ano, o suficiente para pelo menos pagar a passagem de volta ao Japão.

 

Alguns funcionários da emigração faziam inspeções nas bagagens. Procuravam por produtos que poderiam ser barrados no Brasil, ou serem sujeitos a tributação fiscal.  As bagagens eram guardadas em depósitos, ficando o emigrante somente com uma bolsa com algumas mudas de roupas e uma nècessaire com objetos de uso pessoal.

 

Os médicos e enfermeiras trabalhavam em ritmo forte, nenhum emigrante poderia embarcar doente. Haviam casos de subnutrição entre as crianças. E algumas épocas, o tracoma era epidêmico no Japão. Havia o trabalho incessante de vacinações.

 

Por vezes, aparecia um padre católico no Kobe Imigration Center, para pregar o Cristianismo. Explicava que o Brasil era um país de católicos e tentava, sem sucesso, incutir nos japoneses xintoístas e budistas os dogmas da Igreja Católica.

 

Na última noite na hospedagem, às vésperas do embarque, os homens promoviam “festa de despedida do Japão”. Bebia-se então muito saquê e se embebedavam e promoviam cantorias.


Embarque em Kobe, c. 1908



 Histórico do Kobe Emigration Center


Em 1932 o local foi rebatizado para “Kobe Emigrant Education Center".  

Durante a Segunda Guerra, foi fechado e transformado em um centro de treinamento dos civis que eram enviados em territórios militarmente ocupados pelo Japão, recebendo então o nome de "Greater East Asia Personnel Training Center".

Terminada a Segunda Guerra, foi reaberto em 1952, rebatizado novamente, como "Kobe Emigration Mediation Center".

Em 1956, foi aberto um novo centro de apoio aos emigrantes em Yokohama ("Yokohama Emigration Mediation Center"), fato que diminuiu a importância do centro de Kobe.

Em 1964, foi novamente rebatizado, como “Kobe Emigration Center”. Em 1971, devido ao final das correntes migratórias, encerrou as atividades. Calcula-se que cerca de 250 mil emigrantes passaram por ele.


Kobe Emigration Center hoje 


O local foi reaberto em 2009, apos algumas reformas. Foi dividido em tres secções, como segue :


“Sailing for Hopes and Unknown Field”, um museu da emigração japonesa. Na sua entrada, em 1995 foi colocado um monumento em homenagem ao imigrante japones que emigrou para o Brasil.


“Field of Association with Multiple Cultures”, uma associação para dar suporte aos imigrantes locais.


“Creation Field of Art”, um centro cultural e escola de artes, multi étnico.

Memorial aos Emigrantes, Kobe, Japão

Grupo de emigrantes no Kobe Emigration Center


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O martírio de Shuhei Uetsuka em São Paulo

 

O martírio de Shuhei Uetsuka em São Paulo

Shuhei Uetsuka


Em 1909 Ryo Mizuno decidiu voltar ao Japão. A primeira leva de imigrantes, Kasato Maru, resultou em um fracasso redundante, com mais de 70% deles abandonando ou fugindo das fazendas. Ainda assim, Mizuno não desistiu e retornou  ao Japão a fim de recrutar uma nova leva. Afinal, bem ou mal, sabia já o caminho das pedras, tinha adquirido algum know-how.

Deixou aqui no Brasil Shuhei Uetsuka cuidando do escritório da sua empresa de emigração, a Cia. Imperial de Emigração, na cidade de São Paulo. O escritório tinha por objetivo prestar assistência aos primeiros imigrantes do Kasato. E também seria a base de apoio para a segunda leva, que Mizuno iria tentar organizar no Japão.

Mizuno, sem dinheiro (como de costume), ao chegar no Japão tentou junto ao governo e grandes empresas levantar fundos para a segunda leva, mas não logrou êxito. Tinha prometido enviar certa quantia a Uetsuka, a fim de manter as despesas do escritório e pagar o seu salário, mas não conseguiu esse dinheiro.

Como o dinheiro não chegou, Uetsuka foi despejado do escritório. Acontece que dormia ali, e ficou ao relento. Cinco outros imigrantes perdidos em São Paulo também dormiam espremidos no local, e da mesma forma ficaram na rua.

Os seis conseguiram então alugar um quartinho fétido, úmido e imundo. Para sobreviver, fabricavam brinquedos japoneses e vendiam na rua. A certa altura, sem dinheiro algum, passaram a se alimentar de bananas. Mesmo assim, não conseguiam o suficiente, e segundo Uetsuka, chegaram a passar de dois a três dias sem nada comer.

Mesmo na negra penúria, Uetsuka continuou fiel a Mizuno, atendendo a todos os imigrantes do Kasato que o procuravam. Fez o que pode.

Felizmente, Uetsuka e sua turma contou com a ajuda de Takeo Goto (das Casas Fujisaki) e de Nayoma Sumejima, um carpinteiro do Kasato que já tinha alguma clientela em São Paulo.

Após um ano nessa situação precária, foi socorrido pelo Ministro Plenipotenciario Sadatsuchi Uchida.

Finalmente, em 28 de junho de 1910 chegou a segunda leva de imigrantes, a bordo do Ryojun Maru . Esta leva foi organizada por Mizuno, contratado para realizar esse trabalho por uma companhia de imigração (colonizadora Takemura Shokumin Shokan). Mizuno telegrafou para Uetsuka avisando a chegada dos imigrantes, e solicitou a ele as providencias na recepção. 

Mas, as aventuras de Shuhei Uetsuka não terminaram aqui. Ele mais tarde conseguiu financiamento para fundar uma colônia.

Uetsuka foi um grande herói da Historia da Imigração Japonesa no Brasil. 

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Imigração japonesa-desbravamento da colonia


Imigração - O desmatamento da mata virgem

Implantada a colônia, feito o trabalho de delimitações pelos agrimensores, estabelecida as vias de acesso, etc o empreendedor colocava então os lotes de terra ("sítios") a venda. Algumas colônias, planejadas, já tinham alguns compradores, esperando a implantação, o chamado.

Comprado o lote, o imigrante iniciava o trabalho de estabelecimento definitivo no local, de mudança. A primeira tarefa era o de desmatamento do seu pedaço. A compra do lote era um ato de enraizamento no Brasil, o sonho de voltar ao Japão já não existia mais. 

O imigrante se sentia no céu: finalmente um pedaço de terra seu, a sua independência ! A sua aquisição representava uma vitória, após anos de luta e sofrimento nas fazendas de café. Era motivo de júbilo e muito orgulho, eram extensões de terra que ele jamais iria possuir no Japão.

O trabalho de desmatamento

A maioria das terras eram florestas, mata virgem, que eram derrubadas a foice,  machado e trançador. Ainda não existiam as motosserras. 

Havia o perigo de ataques de catetos (espécie de porto do mato), de picada de cobras, aranhas e outros insetos. Também havia o perigo de ser atingido por um tronco, na caída. Alem disso, a malária era sempre uma ameaça perigosa. 

Outra grande preocupação era com a agua potável. O trabalho exigia que se bebesse muita água. Se existisse uma mina de água por perto, o problema estava resolvido. Era possível beber água de algum rio nas proximidades, mas sob o risco de contrair diarréia.

O desmatamento era sempre feito nas estações secas, pois era praticamente impossível trabalhar debaixo de chuva. Algumas colônias tinham mata composta de pequenas árvores, o que facilitava muito o trabalho.

O trabalho era duríssimo e perigoso, feito somente por homens e quase sempre em regime de mutirão. Uma cabana improvisada, rústica, era erguida no meio da mata, para servir de acampamento.

As etapas do desmatamento

O desmatamento consistia em 4 etapas:

1- Roçada;
2- Derrubada das árvores;
3- Queimada;
4- Destocamento.

(1) A roçada (limpeza)

Antes de adentrar no mato, era preciso roçar a mata rasteira, cortar os cipós, e derrubar os arbustos e árvores menores. Esse trabalho era feito a foice e era necessário para facilitar a derrubada das árvores maiores.
Os cipós deviam ser cortados, pois havia o perigo deles alterarem a trajetória da caída da árvore.

(2) A derrubada das árvores


A derrubada era feita com machado ou um serrote grande usada por dois homens, chamado de trança ou trançador.

Trançador


Japoneses derrubando arvores, sem data - fonte "O imigrante japones" - Tomoo Handa


Japoneses desmatando e sua cabana de apoio

(3) As queimadas

Após o desmatamento, esperava-se um tempo para as folhas e galhos secarem. Era então feita a queimada, que deixava só os troncos maiores, chamuscados. A queimada dizimava a fauna, e junto com ela as cobras e insetos venenosos, que morriam ou fugiam.

Da mesma forma, a flora era dizimada com o fogo. Havia um lado benéfico: a terra ficava estéril, pois as ervas daninhas e suas raízes e sementes eram queimadas. A imagem era de devastação, mas na época não se falava em preservação ambiental.

Terminada a queimada, restavam somente as toras (troncos principais da árvore). Elas constituíam um estorvo, atrapalhava o trabalho agrícola. Com sorte, o colono poderia encontrar alguma madeireira (serraria) que levava as toras, sem nada cobrar (!).

Queimada - gravura de Percy Lau

A terra, depois da queimada

Depois da queimada

(4) O “destocamento” - retirada dos tocos

Depois de desmatado e queimado, era feita ao longo dos anos a limpeza do terreno, com a retirada dos troncos maiores e o trabalho mais difícil de todos: a retirada dos tocos e raízes. Consistia em arrancar os tocos das arvores, enraizadas. Para isso era preciso da força dos cavalos, bois ou humanos, ou a utilização de alavancas. 

Os tocos e raizes eram empecilhos, pois não permitiam, a agricultura mecanizada, e dificultava o uso de arado com tração animal. 

O trabalho de destocamento era feito sempre depois de se colher alguma safra, e depois de uma chuva, pois o solo molhado ficava mais fofo.

Como era feito o trabalho de destocamento

Um método era cavar em volta do tronco, expor as raízes. Era então cortada as raizes e extraído o tronco. As raízes poderiam então ser mais facilmente retiradas, uma a uma. 

Expostas as raízes, eram recortadas

Outra maneira, usada em arvores menores,  era simplesmente arrancar o toco com o uso da força, utilizando-se bois e cavalos.

Existia também um equipamento especial, que na verdade era um suporte para alavanca. Nunca vi esse equipamento, nem ouvi falar dele. 



Havia também o recurso de queimar lentamente a base do toco, desprendendo-o das raízes. As raízes, soltas do toco, eram mais fáceis de serem arrancadas.

Depois das queimadas, mesmo antes da destocagem, entre os tocos, troncos e galhos, já era possível praticar a agricultura: plantava-se feijão, milho, hortelã pimenta, etc.

Galeria de fotos de desmatamento

 

Colono russo em sitio em desmatamento

Após a queimada, Paraguaçu Paulista, 1923

Desmatamento - gravura de Percy Lau


Imigrantes em desmatamento, c. 1909, São Paulo


Japoneses e figueira gigante, sem data


Japoneses fazendo queimada

Desmatamento - Jean Moritz Rugendas

Queimada - gravura de Percy Lau

Desmatamento - Santa Catarina - alemães - sem data





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