segunda-feira, 6 de junho de 2016

Kasato Maru– o incidente com Ryu Mizuno




O "calote" de Ryu Mizuno

Mizuno era um visionário, um empreendedor, mas um péssimo administrador. Sua companhia de imigração tinha algumas características de amadorismo. Tanto que somente no dia do embarque do Kasato Maru, Mizuno teve conhecimento que deveria pagar uma taxa portuária. Não tinha dinheiro para tal, e nem havia informado aos imigrantes a respeito. 

A situação era essa : Mizuno tinha em Kobe quase 800 imigrantes hospedados em diversos hotéis, esperando o embarque. As despesas de hospedagem e alimentação eram por sua conta, e ele não tinha dinheiro para liberar o navio. Alem de tudo isso, certamente o navio deveria pagar diária portuária para ficar atracado no porto. O prejuízo era grande e diário, e a situação era desesperadora para Mizuno. 

A companhia havia recolhido todo dinheiro de um grupo emigrantes, guardando-o em envelopes separados, a fim de custodiá-los em cofre a bordo. A companhia alegou, com razão, que poderia acontecer roubos ou extravios a bordo no decorrer da viagem. 

Não tendo dinheiro para pagar a taxa portuária, Mizuno negociou um desconto e conseguiu às pressas um empréstimo. Entretanto, não foi o suficiente, e por isso Mizuno lançou mão de uma atitude incrivelmente amadora : retirou de cada envelope custodiado um certo valor, sem comunicar aos imigrantes. 

Provavelmente Mizuno previu que se negociasse com os imigrantes no porto de Kobe, a confusão se estabeleceria, ele não ia convencer todos a pagarem as taxas portuárias. Preferiu, sabiamente, resolver o problema no desembarque, já no Brasil. 

Na chegada, já na Hospedaria dos Imigrantes, o grupo pediu de volta o dinheiro. Como Mizuno ainda não havia comunicado o acontecido, e não sabia ainda como resolver o problema, não se manifestou a respeito. Os imigrantes passaram a pressioná-lo. Acuado e sem parte do dinheiro, Mizuno inventou uma mentira, alegou que “ o dinheiro foi esquecido na sede da empresa no Japão”, e que deveriam esperar a remessa. 

Na iminência de embarcar nos trens rumo às fazendas, e sem o dinheiro, o grupo se exaltou e deram um ultimato a Mizuno, que teria reagido com violência, pode ter ocorrido até luta corporal.
Mizuno teve que se refugiar nos fundos de um pequeno escritório. Shuhei Uetsuka, um representante da companhia, postou-se em frente a porta do escritório e conseguiu salvar Mizuno. Habilmente, conseguiu convencer os imigrantes que o dinheiro realmente estava no Japão, e que não havia outra solução senão esperar a remessa.

Uetsuka recorreu a um fato bem conhecido pelos japoneses da época, o bushido, código de honra dos samurais, que pregava  o suicídio em nome da honra. Disse a todos que se Mizuno não devolvesse o dinheiro, praticaria o harakiri.

Acredito que Mizuno agiu da melhor forma: não podia deixar o navio parado no porto, pois as despesas diárias seriam impagáveis. 

Não se sabe se ele honrou os débitos mais tarde, é provável que ele esperou um momento melhor para se justificar a todos sobre o acontecido. 

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