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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Sakuragumi Teishi-tai - diversos acontecimentos

 Sakuragumi Teishin-tai - a violencia policial


Conta o jornal Folha da Manhã que uma força policial foi até ao Sitio Guaraciaba para retirar dali os japoneses. Levaram os até a Delegacia de Policia de Santo Andre, antes de alojá-los num pavilhão. 

Apareceu na delegacia um japonês, vindo de São Paulo, com um veículo. Ele foi lá buscar a irmã e 5 filhos dela. Entretanto, a mulher era esposa de um dos 9 presos no episódio da invasão da embaixada e por isso julgou que deveria permanecer no seio da seita, em solidariedade ao marido preso.

Os policiais tiveram que usar a força para embarcar ela no veículo do irmão. Estava ali um reporter da Folha da Manhã, que fez uma reportagem indignada.

 Apesar dos exageros do reporter, a polícia as vezes precisa agir com certo rigor. Alias, é por isso que ela é chamada, quando a situação não se resolve, a policia é chamada para intimidar, e se for necessário, usar a força. 

Folha da Manhã, 22-04-1955


O enviado especial à delegacia

Em 22/05/1955 compareceu na redação do Jornal Folha da Tarde, Sadakazu Fukazawa. Ele foi a mando do trio, que preferiam não se expor ao público. Seguindo instruções dos chefes, amistosamente solicitou a devolução do dinheiro confiscado da Saguragumi, e protestou contra a série de reportagens que o jornal vinha publicando contra os líderes da seita, Yoshitani,  Amano e Ando.

Um repórter tentou convencê-lo de que tudo não se tratava de um esquema criminoso, porém Sadakazu se negou a acreditar. Diante da insistência do repórter, ficou inseguro e afirmou que “se o diplomata do consulado confirmar suas palavras, eu acreditarei”.  Este episódio demonstra uma fortíssima característica dos imigrantes japoneses da época: eles obedeciam e acreditavam cegamente num “shiyatyou-san” (chefe, comandante). Tinham senso de disciplina, e acreditavam ser parte de uma hierarquia, onde a obediência deveria ser mantida. Para o imigrante, em qualquer estrutura, social, religiosa, profissional, etc, era indispensável a existência de um shiyatyou. Para Sadakazu, o consul, dentro dessa hierarquia, o diplomata seria superior aos chefes da quadrilha. 

Sadakazu Fukasawa na Folha da Manhã

Pretendiam matar o diretor do presidio

Esse episódio demonstra o quão perigoso é o fanatismo cego. Por vezes, ele atinge a um ponto em que a razão, o raciocínio e o juízo são subjugados pela paixão, pelo fanatismo. Nesse ponto, a pessoa perde a noção das coisas e toma decisões erradas e as vezes perigosas.

A Folha da Manhã de 06/12/1955 publicou essa reportagem, em que os 6 presos do atentado ao consulado do Japão pretendiam assassinar o diretor do presídio, e com isso ganhar publicidade, projeção na opinião pública.

As intenções foram desmascaradas, e o próprio diretor, Fernando José Fernandes, informado, conversou com os japoneses e tomou providencias. Ficaram a partir daí isolados uns de outros, incomunicáveis.

Folha da Manha, 06/12/1955






O Jornal Folha da Manha

O desbaratamento da quadrilha deu-se muito graças ao bravo e corajoso trabalho do Jornal Folha da Manhã, que prestou esclarecimentos não somente aos japoneses incautos, como a toda sociedade, pressionando as autoridades por providencias.

A preocupação do jornal era que o Sakuragumi se tornasse violenta, e evoluísse para os moldes da Shindo Renmei, que efetuou dezenas de assassinatos e atendados. 

O alerta do jornal Folha da Manha, 08/12/1955


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Folha da Manhã publica foto do lider

A Folha da Manhã, edição de 21/10/1955 publicou essa foto, em que o lider da seita aparentemente está expondo seus planos aos membros da seita. 


Segue o texto da reportagem, com alguns retoques para melhor leitura.

Clique para melhor leitura


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Considerações finais (do autor deste site)


O movimento Sakuragumi Teishintai tem as mesmíssimas características da Guerra dos Canudos e a Guerra do Contestado.

Um grupo grande de pessoas, vitimadas por um mal ou circunstâncias comuns passam a ter uma vida atormentada pela pobreza extrema (foi o caso da Canudos e a Contestado), ou por um estado de grande decepção por não conseguir alcançar um objetivo.

O caso da Sakuragumi foi esse, a grande decepção dos japoneses envolvidos por não conseguir realizar seu grande sonho:  voltar ao Japão, mesmo que para se envolver em luta armada, para defender os ideais do país.

Nesse estado de emoção coletiva, surge exatamente o que eles tanto sonham: um grande líder que os conduzirá em direção ao porto seguro, ao grande objetivo desejado. O líder que vai elaborar o plano, tomar as providencias, falar com as pessoas certas e... arrecadar os fundos para execução do grande sonhado plano.

   A credibilidade cresce com o senso de segurança de grupo, como um cardume de peixes, "se 10 estão acreditando, então deve ser verdade", e assim a seita vai engrossando de adeptos. 

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Confisco de bens - Decreto Lei


O Decreto-lei 4.166, de  11 de março de 1942

 

O Decreto, assinado por Getúlio Vargas,  declarava o confisco de bens dos “súditos” da Alemanha, Itália e Japão. Os bens serviriam para cobrir os danos da perda do navio brasileiro "Taubaté" que foi  atacado, no mar Mediterrâneo, por forças de guerra da Alemanha.


O Decreto foi escrito sob forte emoção e certamente para atender o clamor popular, agradar os americanos e... na lata, data venia,, extorquir.


O valor de um navio, comparado com os bens de todos os imigrantes apenados, representava uma migalha. Portanto, o episódio do ataque alemão foi apenas um argumento descabido. Seria a troca de todos os bens dos imigrantes por um mero e pequeno navio.


Na época o Brasil não estava em guerra contra o Japão, e também foram os alemães, não os japoneses que atacaram o Taubaté. Mesmo assim, os bens dos imigrantes japoneses (e italianos) foram incluídos no Decreto.


 

O resumo do Decreto

 

- Confiscou 10% a 30% dos saldos bancários dos atingidos, valor este foi transferido para uma conta especial no Banco do Brasil;

- Confiscou 10% a 30% dos pagamentos superiores a 2000$0 feitos aos atingidos,

- Estabeleceu imposto de 10% a 30% sobre o valor dos bens transferidos aos atingidos;

- Estabeleceu imposto de 10% a 30% sobre o lucro das empresas atingidas (o balanço era feito, na época, trimestralmente);

- Incluiu também os bens das Pessoas Juridicas (empresas de imigrantes). Em tese, até uma quitandinha de frutas foi confiscado.

- Qualquer manobra para esconder, desviar e também qualquer omissão (não declaração de bens) era punido com 1 a 5 anos de prisão;

- Proibiu alienação de quaisquer bens;

- Estabeleceu a utilização para fins de interesses públicos, mediante autorização do Ministro da Justiça e Negócios Interiores,  os bens das sociedades culturais eu recreativas formadas pelos atingidos;

 

As falhas do Decreto

 

As falhas do Decreto devem ter causado uma enxurrada de processos judiciais de defesa. A maior falha seria a definição de “súdito”. Os naturalizados seriam considerados “súditos”? Os mestiços ? Se um japonês se casasse com uma brasileira e ganhasse uma casa do sogro ?


As empresas e terras produtivas, que empregavam brasileiros não atingidos pelo Decreto, seriam atingidos? Isso abalaria a economia do país.

 

Consequências

 

O Decreto se constituiu em uma aberração jurídica, pois feriu o direito a propriedade, um dos pilares do progresso e da ordem pública. Interferiu na produção industrial e agrícola. Foi um ato de irresponsabilidade de Vargas. O resultado foi de prejuízos ao país.

 

Os imigrantes japoneses não tinham acesso à informação, pois na época a maioria era analfabeta na língua portuguesa. Também não tinham acesso às rádios, confiscados. Portanto, desconheciam o Decreto, e os que foram atingidos de alguma forma ficaram sem entender o acontecido.

Evidente, por ser inexequível, o Decreto não fez com que autoridades invadissem casas de imigrantes, sítios, casas comerciais etc, em nome do Decreto. Isso causaria um estado de convulsão social, de desordem, de saques, famílias expulsas de casa, reações violentas, etc

Entretanto o Decreto foi um instrumento para confisco monetário e alguns bens, especialmente clubes e escolas. 

 

Os imigrantes passaram, literalmente, a guardar dinheiro debaixo do colchão, pois o depósito bancário poderia causar um confisco, de 10% a 30%. Isso causou certo impacto negativo no sistema financeiro do país, pois havia muito dinheiro paralisado, que poderia estar financiando projetos.

 

Ao final da Segunda Guerra, já no governo de Dutra, o governo federal viu-se envolvido em pendências jurídicas e até protestos internacionais para a devolução dos valores e bens confiscados.

 

Abrangência  do Decreto

 

Quantos imigrantes foram atingidos, prejudicados pelo Decreto? Que bens e valores foram confiscados? Não há dados oficiais, pois o governo manteve sigilo.


Entretanto, é certo que um grande valor permaneceu retido no Banco do Brasil, após o fim da Guerra e a devolução desse dinheiro, me parece que nunca foi devolvido. 

 

Da parte dos imigrantes, diante da ditadura Vargas, da discriminação racial da sociedade e da imprensa, não se manifestaram. Preferiram, por medo, permanecerem calados, sem protestar. Afinal, eram “quintas-colunas infiltrados”.

 

Por esses motivos, não se sabe exatamente a abrangência desse Decreto.


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sábado, 22 de agosto de 2026

A viagem dos emigrantes ao Brasil

 A viagem dos emigrantes ao Brasil 

Cap. 01 - Considerações gerais - introdução 


Este é um panorama genérico, retratando as condições das viagens de 1908 até talvez 1940. Nem todas as viagens transcorreram de forma iguais, e nem todos os navios e empresas de emigração eram iguais. 


A despeito dessas diferenças, essa série de posts dão uma boa idéia de como eram as viagens dos emigrantes japoneses ao Brasil.

 

Rota emigratória Brasil - Japão


A viagem - a travessia dos oceanos: um assunto tabu

 

Os imigrantes japoneses “passam a borracha”, não gostam de comentar sobre três assuntos: 


1) As dificuldades e injustiças que sofreram durante a segunda guerra mundial, 

2) A organização criminosa Shindo Renmei;

3) a viagem emigratória de navio. 


Todos têm trauma ou medo de falar sobre esses três assuntos. Não querem cutucar feridas, nem reabrir cicatrizes.

 

As viagens marítimas dos emigrantes ao Brasil até aos meados do século XX eram longas, difíceis e desconfortáveis. Eram episódios que desejavam esquecer para sempre. Por esse motivo, deixaram pouquíssimos registros.


Ryu Midzuno escreveu um diário de bordo da viagem do Kasato Maru. Mas ele não teve coragem de descrever a dura realidade da viagem. Em seu diário, preferiu deixar esses detalhes no esquecimento.


Um dos poucos registros de viagem foi feito pelo escritor Tatsuzo Ishikawa, em seu livro "Sobô - uma saga da imigração japonesa", escrito em 1933.


👉 Continua no capitulo 02......


👉 A viagem dos emigrantes ao Brasil  - todos os capitulos


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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Imigração japonesa-desbravamento da colonia


Imigração - O desmatamento da mata virgem

Implantada a colônia, feito o trabalho de delimitações pelos agrimensores, estabelecida as vias de acesso, etc o empreendedor colocava então os lotes de terra ("sítios") a venda. Algumas colônias, planejadas, já tinham alguns compradores, esperando a implantação, o chamado.

Comprado o lote, o imigrante iniciava o trabalho de estabelecimento definitivo no local, de mudança. A primeira tarefa era o de desmatamento do seu pedaço. A compra do lote era um ato de enraizamento no Brasil, o sonho de voltar ao Japão já não existia mais. 

O imigrante se sentia no céu: finalmente um pedaço de terra seu, a sua independência ! A sua aquisição representava uma vitória, após anos de luta e sofrimento nas fazendas de café. Era motivo de júbilo e muito orgulho, eram extensões de terra que ele jamais iria possuir no Japão.

O trabalho de desmatamento

A maioria das terras eram florestas, mata virgem, que eram derrubadas a foice,  machado e trançador. Ainda não existiam as motosserras. 

Havia o perigo de ataques de catetos (espécie de porto do mato), de picada de cobras, aranhas e outros insetos. Também havia o perigo de ser atingido por um tronco, na caída. Alem disso, a malária era sempre uma ameaça perigosa. 

Outra grande preocupação era com a agua potável. O trabalho exigia que se bebesse muita água. Se existisse uma mina de água por perto, o problema estava resolvido. Era possível beber água de algum rio nas proximidades, mas sob o risco de contrair diarréia.

O desmatamento era sempre feito nas estações secas, pois era praticamente impossível trabalhar debaixo de chuva. Algumas colônias tinham mata composta de pequenas árvores, o que facilitava muito o trabalho.

O trabalho era duríssimo e perigoso, feito somente por homens e quase sempre em regime de mutirão. Uma cabana improvisada, rústica, era erguida no meio da mata, para servir de acampamento.

As etapas do desmatamento

O desmatamento consistia em 4 etapas:

1- Roçada;
2- Derrubada das árvores;
3- Queimada;
4- Destocamento.

(1) A roçada (limpeza)

Antes de adentrar no mato, era preciso roçar a mata rasteira, cortar os cipós, e derrubar os arbustos e árvores menores. Esse trabalho era feito a foice e era necessário para facilitar a derrubada das árvores maiores.
Os cipós deviam ser cortados, pois havia o perigo deles alterarem a trajetória da caída da árvore.

(2) A derrubada das árvores


A derrubada era feita com machado ou um serrote grande usada por dois homens, chamado de trança ou trançador.

Trançador


Japoneses derrubando arvores, sem data - fonte "O imigrante japones" - Tomoo Handa


Japoneses desmatando e sua cabana de apoio

(3) As queimadas

Após o desmatamento, esperava-se um tempo para as folhas e galhos secarem. Era então feita a queimada, que deixava só os troncos maiores, chamuscados. A queimada dizimava a fauna, e junto com ela as cobras e insetos venenosos, que morriam ou fugiam.

Da mesma forma, a flora era dizimada com o fogo. Havia um lado benéfico: a terra ficava estéril, pois as ervas daninhas e suas raízes e sementes eram queimadas. A imagem era de devastação, mas na época não se falava em preservação ambiental.

Terminada a queimada, restavam somente as toras (troncos principais da árvore). Elas constituíam um estorvo, atrapalhava o trabalho agrícola. Com sorte, o colono poderia encontrar alguma madeireira (serraria) que levava as toras, sem nada cobrar (!).

Queimada - gravura de Percy Lau

A terra, depois da queimada

Depois da queimada

(4) O “destocamento” - retirada dos tocos

Depois de desmatado e queimado, era feita ao longo dos anos a limpeza do terreno, com a retirada dos troncos maiores e o trabalho mais difícil de todos: a retirada dos tocos e raízes. Consistia em arrancar os tocos das arvores, enraizadas. Para isso era preciso da força dos cavalos, bois ou humanos, ou a utilização de alavancas. 

Os tocos e raizes eram empecilhos, pois não permitiam, a agricultura mecanizada, e dificultava o uso de arado com tração animal. 

O trabalho de destocamento era feito sempre depois de se colher alguma safra, e depois de uma chuva, pois o solo molhado ficava mais fofo.

Como era feito o trabalho de destocamento

Um método era cavar em volta do tronco, expor as raízes. Era então cortada as raizes e extraído o tronco. As raízes poderiam então ser mais facilmente retiradas, uma a uma. 

Expostas as raízes, eram recortadas

Outra maneira, usada em arvores menores,  era simplesmente arrancar o toco com o uso da força, utilizando-se bois e cavalos.

Existia também um equipamento especial, que na verdade era um suporte para alavanca. Nunca vi esse equipamento, nem ouvi falar dele. 



Havia também o recurso de queimar lentamente a base do toco, desprendendo-o das raízes. As raízes, soltas do toco, eram mais fáceis de serem arrancadas.

Depois das queimadas, mesmo antes da destocagem, entre os tocos, troncos e galhos, já era possível praticar a agricultura: plantava-se feijão, milho, hortelã pimenta, etc.

Galeria de fotos de desmatamento

 

Colono russo em sitio em desmatamento

Após a queimada, Paraguaçu Paulista, 1923

Desmatamento - gravura de Percy Lau


Imigrantes em desmatamento, c. 1909, São Paulo


Japoneses e figueira gigante, sem data


Japoneses fazendo queimada

Desmatamento - Jean Moritz Rugendas

Queimada - gravura de Percy Lau

Desmatamento - Santa Catarina - alemães - sem data





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👉 Imigração Japonesa ao Brasil: Vida doméstica colono brasileiro nas fazendas

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Carta de chamada de Maria Vidale

 

Carta de chamada da imigrante Maria Vittalle

Esse documento foi emitido pelo prefeito de Padova (Pádoa), Itália, em 05/02/1920. As declarações de autoridades estrangeiras (neste caso, o prefeito) tinham crédito na Inspetoria de Imigração do porto de Santos. 

Carta de chamada de Maria Vidale pag. 01
 
Carta de chamada de Maria Vidale 02

Consta que Idelmonte, Andrea e Umberto Brotto, residentes em São Paulo e visitando a Italia, no dia 05/02/1920 foram a Prefeitura de Padova e declaram ao prefeito que iriam cuidar da mãe Maria Vittalle  (“... tengono a próprio cari la madre Vidale Maria...”). É provável que foram à Italia com o intuito de buscara a mãe, na época com 64 anos de idade.

A carta descreve Maria:  filha de Setpano e viúva de Brotto, nascida em Vicenza em 08/08/1856, e que ela ia unir-se aos filhos tão logo se mude ao Brasil  (...que la stessa rimpatrió unitalmente ai figli in seguito alla mobilitazione.)

De posse deste documento, a imigrante desembarcaria no Brasil e o apresentaria ao serviço de imigração do porto.

Curiosamente, o documento tem duas páginas, sendo que na segunda declara nula as 7 primeiras linhas da primeira página.

Há declaração de que uma via ficava arquivada na prefeitura.

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os filhos adotados

Desembarque de imigrantes

Os  imigrantes “filhos adotados”  por conveniência.


Uma das exigências do governo do estado de São Paulo para aceitar imigrante, era que todos deveriam ser membro de uma família composta de pelo menos três pessoas : marido, mulher e mais uma pessoa, apelidada de “terceira enxada”, que podia ser : filho, sobrinho, cunhado de uns dos conjuges, pai, mãe, etc, ou filho adotado.

   
As fazendas de café sabiam que grupos familiares permanecem juntos, e tem dificuldades em se dispersar. Pessoas independentes, sem laços familiares, eram mais nômades, tinham mais facilidades de abandonar o trabalho. As companhias de emigração no Japão sentiram dificuldades no recrutamento, era difícil atender esta exigência. Também haviam vários japoneses solteiros interessados em imigrar sozinhos.     

Outra exigência era a indicação de um “chefe da família”. Este chefe geralmente era o marido, mas também poderia ser a pessoa mais velha do grupo.    As empresas japonesas inventaram então um “jeitinho brasileiro” : montavam famílias, somente para atender a exigência. A legislação japonesa permitia adoções de filhos com certa facilidade. Assim, muitos imigrantes aqui chegaram nesta estranha condição, de filho “adotado”, ou sob casamento arranjado. Esses casamentos, na prática, eram dissolvidos tão logo que os casais desembarcavam no Brasil. Mas, muitas vezes, acabavam vivendo juntos.    

Ao ser “adotado” pela família, o emigrante mudava de sobrenome. Ao chegar no Brasil, a “família” se desfazia, e o “filho adotivo” passava então a usar o sobrenome verdadeiro. Porem há possibilidade de que alguns imigrantes continuaram com o sobrenome da família que o “adotou”.


A título de exemplo, dos 14 filhos declarados nesta página, 7 eram “adotivos “. É uma pagina da lista de imigrantes do navio Teikoku Maru, que aportou em Santos em 23 de outubro de 1913,”. Meu avô paterno está nesta página, é o passageiro numero 457 (Kunimatsu Hajii), veio sob esta condição, de “filho adotivo”. Ele era primo do chefe da família, e eu suspeito que até mesmo o casal que o trouxe era arranjado. 



Detalhe da lista. Meu avô, Kunimatsu, passageiro 457 veio na condição de filho “adoptivo”.

    O recurso de “filho adotivo” foi muito útil em vários casos.  Se por exemplo, algum filho ou parente ficou sozinho no Japão e desejou se juntar à família que já estivesse no Brasil, era o único recurso.  

O preconceito contra o adotivo

    O filho “adotivo” sofria de certo preconceito aqui no Brasil, entre a colônia japonesa. Eles eram olhados como desconhecidos, de família desconhecida. Por isso, por ocasião de omiai (casamento arranjado) eram preteridos, pois os pais da noiva (ou do noivo, no caso de filha “adotiva”) não tinham oportunidade de conhecer os verdadeiros pais, o sogro e a sogra. Temiam também que o candidato fosse um filho rejeitado, passado para outra família, por algum motivo grave.

     Os adotivos eram pejorativamente chamados de "trazidos", e por não terem nenhum vinculo afetivo com os pais adotivos, muitas vezes não eram bem tratados. Isto é, não gozavam do amor materno e paterno. Muitos acabavam em condição de escravidão, trabalhando de graça para os "pais adotivos", sofreram muito e vários fugiram. 
 

O recurso de “filho adotivo” foi uma das causas do fracasso das primeira levas, pois sendo (os adotivos) independentes, como já previam os fazendeiros, muitos abandonaram as fazendas. 


Familia arranjada

Esta (foto acima) é uma típica família montada, arranjada, com o filho adotivo de 13 anos e mãe de 17. 

Os fugitivos da ocupação da Coreia


Muitos rapazes, em vias de serem chamados para servirem as forças armadas e serem enviados à Coreia, optavam em fugir para o Brasil. Entretanto, emigrariam sozinhos e por isso precisavam de se agregar a alguma família que o adotassem para levar ele ao Brasil.

A situação dos adotados

Acredito que boa parte dos adotados vieram “emprestados”. Um casal com mais de um filho “emprestava” um deles para outro casal sem filhos, somente para formar o grupo familiar de três, exigido pelas empresas de imigração no Brasil. Evidente, chegando ao Brasil, o filho “emprestado” era “devolvido”, ficando então esse adotado em situação de família normal. 

Os adotados que vieram sozinhos sofreram com a solidão, com a rejeição e o desamparo. Muitos viraram empecilhos aos adotantes, que não tinham o afeto e o carinho de pais verdadeiros, de família verdadeira. Alguns tornaram-se servos dos padrastos e madrastas, ficaram em estado de semiescravidão.  

Ao atingir certa maioridade e coragem, abandonavam então os tutores e as fazendas, fugindo para outras fazendas ou indo residir em São Paulo, se estabelecendo numa região de moradias baratas, num bairro chamado de Liberdade. Em São Paulo, exerciam o trabalho de pedreiros, carregadores, carpinteiros e outros ofícios.

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