terça-feira, 8 de setembro de 2026

A quinta coluna no Brasil

A quinta coluna no Brasil

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum entre os brasileiros insinuar que cada emigrante japonês poderia, com boas probabilidades, ser um soldado, disfarçado de camponês, e que tinham armas escondidas e aguardavam ordens de Toquio para atacar o Brasil. Eram tido como espiões, e temia-se que esses elementos perigosos poderiam praticar atos de sabotagem e terrorismo. Ou seja, todo japonês poderia ser um “quinta-coluna”.

 

No auge dessa situação delirante, os imigrantes não podiam andar na rua sem serem hostilizados. Pessoalmente, sofri com isso (isso nos meados dos anos 60, com a guerra já terminada há tempos). Várias vezes fui hostilizado e até me atiravam  pedras. E eu era apenas uma criança.

 

As origens do movimento anti quinta-coluna.

 

A origem dessa balbúrdia toda deu-se por dois fatos.

O primeiro eram as ocorrências de quintas-colunas em outros países, envolvidos ou não na Segunda Guerra. “Se está acontecendo lá, aqui também estaria acontecendo”, era o pensamento do brasileiro.

 

O segundo fato era que os Estados Unidos tratavam todos os imigrantes japoneses de potenciais quintas-colunas. Obviamente, tinham forte razão para isso, afinal estavam em guerra contra o Japão. Os americanos confinaram os imigrantes japoneses em campos de concentração etc.


Propaganda americana anti quinta-coluna

Propaganda americana anti 5a. coluna


Os americanos exigiram do Brasil e de outros países aliados com colonização do eixo o mesmo cuidado, a mesma atenção ao perigo da quinta-coluna. Era a política de que todos os aliados deveriam se esforçar em conjunto. “Nós estamos fazendo nossa obrigação, vocês também devem”, era esse o argumento dos americanos.


Americanos sugerem campos de concentração no Brasil

A campanha da imprensa mal informada

 

Alguns jornais no Brasil, dirigidos e alimentados por repórteres mal-informados e tendenciosos, movidos por discriminação racial, arroubos de patriotismo e pura emoção amadora, passaram a insinuar, as vezes de forma delirante, que o Brasil estava infestado de quintas-colunas. E conclamavam o povo, a polícia e o exército a vigiar o Brasil, a bisbilhotar o vizinho, na procura e identificação desses “elementos nocivos infiltrados na nação brasileira”.


Correio da Tarde, 17-11-1942- Insinuações 


Uma reportagem do jornal Correio da Tarde da cidade de Santos é um exemplo da paranóia que tomou conta dos jornalistas. A reportagem sugere que a cidade de Santos foi alvo de "limpeza". Que os quintas-colunas foram "laçados um a um". No final insinua nada menos que fuzilamento.


Este é o texto final da reportagem:


Fuzilamento de imigrante quinta-coluna


O engajamento da sociedade

 

Nas ocasiões solenes, em discursos era chique para o orador se manifestar contra os “quintas-colunas”. Era uma demonstração de patriotismo, de preocupação com a segurança nacional, etc. Era um gancho, um exibicionismo, que resultava em palmas ao orador. Na pequena nota abaixo, publicada no jornal Correio Paulistano, num comício falou-se dos inexistentes quintas-colunas.


Correio Paulistano 11 de julho de 1942

Nas entrevistas a jornais e rádios, era o mesmo truque, o entrevistado se manifestava contra a “quinta-coluna” e isso lhe rendia elogios, e se fosse político, votos.

A exemplo de puro exibicionismo, um militar chegou a anunciar que havia erradicado o estado dos quintas-colunas. Erradicou um mal que nunca existiu, e não apresentou sequer um preso.


O Diario e Sao Paulo 13-06-1943


A paranóia chegou ao ponto de um sindicato de trabalhadores sugerir ao Ministério do Trabalho a composição de uma força de trabalho para combater a quinta coluna.


Diario de Sao Paulo, 27-08-1944


Enfim, o combate às quintas-colunas era um bom argumento para se pousar de herói da pátria.

 

Afinal, os quintas-colunas realmente existiram no Brasil?

 

Tudo não se passou de uma paranóia coletiva, incutida e martelada insistentemente pela imprensa, especialmente a paulista, pois era forte a presença dos emigrantes japoneses e italianos naquele estado.


Um ou outro caso isolado de imigrante patriota radical flagrado com material de cunho patriota, era apresentado como quinta-coluna.

Um alemão, operador de radio-amador foi acusado de espionagem e taxado de quinta-coluna.


Grupos alemães radicais existiram no Paraná e Sc., entretanto não tinham as intenções de uma quinta-coluna, tanto que não eram secretos e nem portavam armas.

 

Muito se falou sobre, mas sequer um imigrante foi preso por ser, literalmente, um legítimo quinta-coluna, secretamente a serviço de um dos países do eixo.


O assunto, por falta de embasamento sólido, caiu no esquecimento a partir de 1943. Felizmente, pois a continuidade dessa campanha infame poderia semear entre os brasileiros o ódio racial, a exemplo do que aconteceu com os judeus na Alemanha. 

 

Os quintas-colunas foram E.Ts. de Varginha, muito se falou a respeito, mas eles nunca existiram.

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