A quinta coluna no Brasil
Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum entre os
brasileiros insinuar que cada emigrante japonês poderia, com boas
probabilidades, ser um soldado, disfarçado de camponês, e que tinham armas
escondidas e aguardavam ordens de Toquio para atacar o Brasil. Eram tido como
espiões, e temia-se que esses elementos perigosos poderiam praticar atos de
sabotagem e terrorismo. Ou seja, todo japonês poderia ser um “quinta-coluna”.
No auge dessa situação delirante, os imigrantes não podiam andar na rua sem serem hostilizados. Pessoalmente, sofri com isso (isso nos meados dos anos 60, com a guerra já terminada há tempos). Várias vezes fui hostilizado e até me atiravam pedras. E eu era apenas uma criança.
As origens do movimento anti quinta-coluna.
A origem dessa balbúrdia toda deu-se por dois fatos.
O primeiro eram as ocorrências de quintas-colunas em outros países, envolvidos ou não na Segunda Guerra. “Se está acontecendo lá, aqui também estaria acontecendo”, era o pensamento do brasileiro.
O segundo fato era que os Estados Unidos tratavam todos os
imigrantes japoneses de potenciais quintas-colunas. Obviamente, tinham forte
razão para isso, afinal estavam em guerra contra o Japão. Os americanos
confinaram os imigrantes japoneses em campos de concentração etc.
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| Propaganda americana anti quinta-coluna |
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| Propaganda americana anti 5a. coluna |
Os americanos exigiram do Brasil e de outros países aliados
com colonização do eixo o mesmo cuidado, a mesma atenção ao perigo da
quinta-coluna. Era a política de que todos os aliados deveriam se esforçar em
conjunto. “Nós estamos fazendo nossa obrigação, vocês também devem”, era esse o
argumento dos americanos.
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| Americanos sugerem campos de concentração no Brasil |
A campanha da imprensa mal informada
Alguns jornais no Brasil, dirigidos e alimentados por
repórteres mal-informados e tendenciosos, movidos por discriminação racial, arroubos
de patriotismo e pura emoção amadora, passaram a insinuar, as vezes de forma
delirante, que o Brasil estava infestado de quintas-colunas. E conclamavam o
povo, a polícia e o exército a vigiar o Brasil, a bisbilhotar o vizinho, na
procura e identificação desses “elementos nocivos infiltrados na nação
brasileira”.
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| Correio da Tarde, 17-11-1942- Insinuações |
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| Fuzilamento de imigrante quinta-coluna |
O engajamento da sociedade
Nas ocasiões solenes, em discursos era chique para o orador
se manifestar contra os “quintas-colunas”. Era uma demonstração de patriotismo,
de preocupação com a segurança nacional, etc. Era um gancho, um exibicionismo,
que resultava em palmas ao orador. Na pequena nota abaixo, publicada no jornal Correio Paulistano, num comício falou-se dos inexistentes quintas-colunas.
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| Correio Paulistano 11 de julho de 1942 |
Nas entrevistas a jornais e rádios, era o mesmo truque, o
entrevistado se manifestava contra a “quinta-coluna” e isso lhe rendia elogios,
e se fosse político, votos.
A exemplo de puro exibicionismo, um militar chegou a anunciar que havia erradicado o estado dos quintas-colunas. Erradicou um mal que nunca existiu, e não apresentou sequer um preso.
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| O Diario e Sao Paulo 13-06-1943 |
A paranóia chegou ao ponto de um sindicato de trabalhadores sugerir ao Ministério do Trabalho a composição de uma força de trabalho para combater a quinta coluna.
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| Diario de Sao Paulo, 27-08-1944 |
Enfim, o combate às quintas-colunas era um bom argumento
para se pousar de herói da pátria.
Afinal, os quintas-colunas realmente existiram no Brasil?
Tudo não se passou de uma paranóia coletiva, incutida e
martelada insistentemente pela imprensa, especialmente a paulista, pois era
forte a presença dos emigrantes japoneses e italianos naquele estado.
Um ou outro caso isolado de imigrante patriota radical
flagrado com material de cunho patriota, era apresentado como quinta-coluna.
Um alemão, operador de radio-amador foi acusado de
espionagem e taxado de quinta-coluna.
Grupos alemães radicais existiram no Paraná e Sc.,
entretanto não tinham as intenções de uma quinta-coluna, tanto que não eram
secretos e nem portavam armas.
Muito se falou sobre, mas sequer um imigrante foi preso por
ser, literalmente, um legítimo quinta-coluna, secretamente a serviço de um dos
países do eixo.
O assunto, por falta de embasamento sólido, caiu no esquecimento a partir de 1943. Felizmente, pois a continuidade dessa campanha infame poderia semear entre os brasileiros o ódio racial, a exemplo do que aconteceu com os judeus na Alemanha.
Os quintas-colunas foram E.Ts. de Varginha, muito se falou a respeito, mas eles nunca existiram.
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