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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O Dojinkai e o Hospital Japones Santa Cruz

 

O Dojinkai e o Hospital Santa Cruz

 

Seria grande injustiça desse site não mencionar o Dojinkai e o Hospital Japonês Santa Cruz.

 

Nas primeiras décadas da emigração dos japoneses ao Brasil os imigrantes tinham grandes dificuldades com acesso a assistência médica, por vários motivos: financeiro, barreira linguística, distância dos pontos de assistência médica e meios de transporte. Não existiam estradas e nem ambulância. Um problema simples de saúde já era um grande transtorno.

 

A Sociedade Beneficente Dojinkai foi uma instituição beneficente, criada em 1924, com o intuito de prestar assistência médica aos imigrantes japoneses. O Dojinkai foi criado pelo Consulado Geral do Japão de São Paulo, com verba doada pelo governo japonês.


A criação do Dōjinkai movimentou as lideranças da comunidade japonesa da cidade de São Paulo, e os subsídios enviados pelo Japão despertou na comunidade japonesa a suspeita da possibilidade de um futuro hospital.


Muitos pioneiros região noroeste de São Paulo, entre eles Shūhei Uetsuka e Teijirō Suzuki pressionaram o Dojinkai, dando início a um movimento pela criação do hospital na região noroeste do estado de São Paulo. Afinal era ali que se concentrava o maior número de imigrantes japoneses.


Entretanto, decidiu-se, enfim, construir o hospital na cidade de São Paulo.

 

Não foi inútil a pressão das lideranças do interior do estado, o Dojinkai abriu postos de saúde em Bauru e Lins no ano 1930; e em Santos e Presidente Prudente, em 1932.

 

Caravanas médicas do Dojinkai passaram a circular pelo estado, prestando assistência médica e promovendo palestras e cursos.

 

O Hospital Japonês Santa Cruz

 

Em 1934, compadecido com a situação dos imigrantes, o Imperador do Japão fez uma doação no valor de 50 mil ienes para a construção de um hospital para atender os imigrantes japoneses no Brasil.

A idéia do Imperador era dar o exemplo, e o primeiro passo.

 

Seguindo o exemplo do Imperador, em 1935, foi criado o Comitê de Construção do Hospital Japonês de São Paulo. Calculou-se que os custos da construção desse hospital chegariam a 800 mil ienes.


Esse custo seria rateado da seguinte maneira:

 

- Doação do Imperador, 50 mil ienes

- Subsídio oferecido pelo governo japonês, 250 mil ienes;

-  Donativos arrecadados no Japão 400 mil ienes;

-  Donativos arrecadados entre os japoneses no Brasil, 100 mil ienes.

 

Eram tempos de pouca burocracia, de poucos empecilhos, e por isso o hospital foi inaugurado em 1939, apenas 4 anos depois da formação do Comitê de Construção e campanha de arrecadação.

 

Oficialmente, a instituição ostentava o nome “Sociedade Brasileira e Japonesa de Beneficência Santa Cruz”. O prédio ocupava uma área de 1.460 m2, com 5 andares e um subsolo, 76 apartamentos e 200 leitos, sendo o maior edifício da comunidade nipo-brasileira até então.

Hospital Japones Santa Cruz, 1939


Em 1936 o Dojinkai inaugurou o Sanatório São Francisco Xavier, em Campos de Jordão, para tratamento de pacientes com tuberculose. 


Sanatorio São Francisco Xavier

Em 1945 o Hospital Japones Santa Cruz inaugurou um curso de enfermagem.


Enfermeiras do hospital, sem data

O confisco do Hospital Santa Cruz 


Com o advento da Segunda Guerra Mundial o Hospital Santa Cruz, na época controlado e explorado pela colônia japonêsa,  foi colocado sob controle do governo federal em 1942.  Foi nomeado um interventor e essa situação perdurou até 1945, mas foi, depois de muito tempo, em 1989 que a comunidade nipo-brasileira reivindicou e reinstaurou a gestão pelos japoneses.

 

O Dr. Shizuo Hosoe

 

Shizuo Hosoe nasceu no dia 4 de julho de 1901, em Wasa, Gero-cho, no Japão e veio ao Brasil em 1930, como médico-bolsista enviado pelo Ministério de Relações Exteriores do Japão.

 

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Keio, formando-se em 1930. Recém-formado, aceitou o convite do governo japonês para trabalhar por três anos na região de Bastos, a fim de atender os imigrantes japoneses do local. Os três anos se transformaram em 45.

 

Em 1935 participou na formação  do Centro de Assistência Médica Dojinkai.

 

Entretanto, seu diploma não era válido no Brasil, por isso decidiu novamente estudar Medicina em faculdade brasileira. Passou no vestibular da Faculdade de Medicina da USP, onde se formou em 1940.

 

Conciliou os estudos com o trabalho na construção do Sanatório de Campos de Jordão (1937) e do Hospital Santa Cruz (1939).

 

Tendo adquirido a nacionalidade brasileira, em 1941 alistou-se e cumpriu o serviço militar obrigatório em 1942, aos 41 anos de idade.

 

Costumava ir ao Rio de Janeiro e acompanhava os imigrantes japoneses até o porto de Santos no navio. Durante a viagem, transmitia-lhes os cuidados a serem observados com respeito à saúde e higiene na colônia.

 

Publicou vários folhetos e manuais sobre puericultura, prevenção e tratamento de doenças e guia de medicamentos

 

Em 1951, o Dr. Shizuo Hosoe recebeu o japonês Mishiharu Mishima, que difundia o escotismo entre os japoneses no mundo, e com ele fundou um núcleo de escotismo em São Paulo. O Dr. Hosoe foi praticante fervoroso do escotismo.


Sr. Hosoe faleceu em 28 de agosto de 1975, 45 anos depois de desembarcar no Brasil. 



Alem de Shizuo Hosoe, os médicos Sentaro Takaoka e Yoshinobu Takeda, além de outros, foram importantes profissionais no atendimento aos emigrantes, nas décadas de 20 a 40.


Dr. Shizuo Hosoe


 

O Hospital Nipo-Brasileiro

 

Em 18 de junho de 1988, por ocasião do 80º. Aniversário da Imigração, foi inaugurado o Hospital Nipo-Brasileiro, com 30 leitos, sofrendo ampliações posteriores. Tal como o Santa Cruz, foi construído com verbas doadas pela comunidade japonesa no Brasil e do governo do Japão.

 

Hospital Nipo-Brasileiro, em São Paulo, Sp

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A quinta coluna no Brasil

A quinta coluna no Brasil

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum entre os brasileiros insinuar que cada emigrante japonês poderia, com boas probabilidades, ser um soldado, disfarçado de camponês, e que tinham armas escondidas e aguardavam ordens de Toquio para atacar o Brasil. Eram tido como espiões, e temia-se que esses elementos perigosos poderiam praticar atos de sabotagem e terrorismo. Ou seja, todo japonês poderia ser um “quinta-coluna”.

 

No auge dessa situação delirante, os imigrantes não podiam andar na rua sem serem hostilizados. Pessoalmente, sofri com isso (isso nos meados dos anos 60, com a guerra já terminada há tempos). Várias vezes fui hostilizado e até me atiravam  pedras. E eu era apenas uma criança.

 

As origens do movimento anti quinta-coluna.

 

A origem dessa balbúrdia toda deu-se por dois fatos.

O primeiro eram as ocorrências de quintas-colunas em outros países, envolvidos ou não na Segunda Guerra. “Se está acontecendo lá, aqui também estaria acontecendo”, era o pensamento do brasileiro.

 

O segundo fato era que os Estados Unidos tratavam todos os imigrantes japoneses de potenciais quintas-colunas. Obviamente, tinham forte razão para isso, afinal estavam em guerra contra o Japão. Os americanos confinaram os imigrantes japoneses em campos de concentração etc.


Propaganda americana anti quinta-coluna

Propaganda americana anti 5a. coluna


Os americanos exigiram do Brasil e de outros países aliados com colonização do eixo o mesmo cuidado, a mesma atenção ao perigo da quinta-coluna. Era a política de que todos os aliados deveriam se esforçar em conjunto. “Nós estamos fazendo nossa obrigação, vocês também devem”, era esse o argumento dos americanos.


Americanos sugerem campos de concentração no Brasil

A campanha da imprensa mal informada

 

Alguns jornais no Brasil, dirigidos e alimentados por repórteres mal-informados e tendenciosos, movidos por discriminação racial, arroubos de patriotismo e pura emoção amadora, passaram a insinuar, as vezes de forma delirante, que o Brasil estava infestado de quintas-colunas. E conclamavam o povo, a polícia e o exército a vigiar o Brasil, a bisbilhotar o vizinho, na procura e identificação desses “elementos nocivos infiltrados na nação brasileira”.


Correio da Tarde, 17-11-1942- Insinuações 


Uma reportagem do jornal Correio da Tarde da cidade de Santos é um exemplo da paranóia que tomou conta dos jornalistas. A reportagem sugere que a cidade de Santos foi alvo de "limpeza". Que os quintas-colunas foram "laçados um a um". No final insinua nada menos que fuzilamento.


Este é o texto final da reportagem:


Fuzilamento de imigrante quinta-coluna


O engajamento da sociedade

 

Nas ocasiões solenes, em discursos era chique para o orador se manifestar contra os “quintas-colunas”. Era uma demonstração de patriotismo, de preocupação com a segurança nacional, etc. Era um gancho, um exibicionismo, que resultava em palmas ao orador. Na pequena nota abaixo, publicada no jornal Correio Paulistano, num comício falou-se dos inexistentes quintas-colunas.


Correio Paulistano 11 de julho de 1942

Nas entrevistas a jornais e rádios, era o mesmo truque, o entrevistado se manifestava contra a “quinta-coluna” e isso lhe rendia elogios, e se fosse político, votos.

A exemplo de puro exibicionismo, um militar chegou a anunciar que havia erradicado o estado dos quintas-colunas. Erradicou um mal que nunca existiu, e não apresentou sequer um preso.


O Diario e Sao Paulo 13-06-1943


A paranóia chegou ao ponto de um sindicato de trabalhadores sugerir ao Ministério do Trabalho a composição de uma força de trabalho para combater a quinta coluna.


Diario de Sao Paulo, 27-08-1944


Enfim, o combate às quintas-colunas era um bom argumento para se pousar de herói da pátria.

 

Afinal, os quintas-colunas realmente existiram no Brasil?

 

Tudo não se passou de uma paranóia coletiva, incutida e martelada insistentemente pela imprensa, especialmente a paulista, pois era forte a presença dos emigrantes japoneses e italianos naquele estado.


Um ou outro caso isolado de imigrante patriota radical flagrado com material de cunho patriota, era apresentado como quinta-coluna.

Um alemão, operador de radio-amador foi acusado de espionagem e taxado de quinta-coluna.


Grupos alemães radicais existiram no Paraná e Sc., entretanto não tinham as intenções de uma quinta-coluna, tanto que não eram secretos e nem portavam armas.

 

Muito se falou sobre, mas sequer um imigrante foi preso por ser, literalmente, um legítimo quinta-coluna, secretamente a serviço de um dos países do eixo.


O assunto, por falta de embasamento sólido, caiu no esquecimento a partir de 1943. Felizmente, pois a continuidade dessa campanha infame poderia semear entre os brasileiros o ódio racial, a exemplo do que aconteceu com os judeus na Alemanha. 

 

Os quintas-colunas foram E.Ts. de Varginha, muito se falou a respeito, mas eles nunca existiram.

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