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sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil

 

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) foi inaugurada em 1914 até a estação Porto Esperança, as margens do Rio Paraguai. Posteriormente, foi continuada, chegando a Corumbá em 1952.

Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB)

A NOB foi concebida também para promover a integração entre o Brasil, a Bolívia e o Paraguai, além de estabelecer ligação desses dois últimos ao Oceano Atlântico.

A construção iniciou-se em 1907 e foi dividida em dois lotes: de Bauru (Sp) até Itapura (Sp, na divisa com Ms), e de Itapura até Porto Esperança (Ms), próximo à divisa com o Paraguai. A construção do primeiro lote foi privatizada, ficando a cargo da construtora , e o segundo lote (Itapura-Porto Esperança) ficou a cargo da União.

Duas frentes de trabalho foram estabelecidas, uma construindo a partir de Porto Esperança até Campo Grande(Ms), e outra no lado oposto, de Bauru a Campo Grande. As duas pontas se encontraram na Estação Ligação, próximo a Campo Grande, em 1914, data da inauguração, totalizando 1272 km de ferrovia. A obra estendeu-se por apenas 7 anos.

A construção enfrentou os desafios da época - ataques de índios, malária, deficiência alimentar, leichmaniose, etc. O maior problema enfrentado foi o logístico, com todo material de construção sendo levado às obras as duras penas.

Não há estatísticas a respeito, porém é certo que centenas ou talvez milhares de operários pereceram nessa obra. Essa alta mortandade era comum em obras desse gênero naqueles tempos.

Estação Ligação - Campo Grande, Ms

Estação Bauru

Os japoneses na construção da ferrovia

Segundo um levantamento feito por Ryodi Noda, um intérprete dos imigrantes do Kasato Maru, dos 781 imigrantes pioneiros desse navio, 120 foram trabalhar na construção dessa ferrovia. Eram imigrantes que abandonaram as fazendas de café e foram levados ao ponto inicial da empreitada, em Porto Esperança (Ms), próximo a Corumbá. Ali se encontraram com outros imigrantes japoneses, vindos do Peru.

Alguns historiadores afirmam que por deficiência alimentar, ocorreram muitos problemas de saúde relacionados a falta de vitaminas e minerais (zinco, magnésio, ferro, etc). Entretanto, os japoneses não tiveram essa deficiência, pois tinham o costume de comer muitas verduras e legumes, que eles mesmos cultivavam.

Legado e fixação dos japoneses

Ao final da construção da ferrovia, em 1914, a maioria dos japoneses que nela trabalharam decidiram se fixar nas terras adjacentes a nova ferrovia. Campo Grande, atraiu um bom número de japoneses, onde adquiriram boas terras para se estabelecerem. Nos anos seguintes vários imigrantes se mudaram para Campo Grande, atraídos pelas boas notícias dos trabalhadores da ferrovia. Hoje a cidade abriga uma das maiores concentrações de descendentes de japoneses do Brasil.

A ferrovia NOB hoje ainda é usada para transporte de minérios e mercadorias. Entretanto, o transporte de passageiros foi desativado e por esse motivo as estações ferroviárias estão atualmente abandonadas.

NOB-Turistas em viagem inaugural de trecho - 1910

Viajantes na NOB - sem data

O ramal até Ponta Porã – a colônia japonesa de Dourados

Posteriormente à inauguração da NOB Bauru-Porto Esperança, um ramal foi construído, ligando Campo Grande até Ponta Porã, ao sul do Ms, passando por Dourados. A estação ferroviária de Dourados (Estação Ministro Pestana) foi inaugurada em 1949.

Esse ramal atraiu milhares de imigrantes, graças a iniciativa de um grande empreendedor, Yasutaro Matsubara. 

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Imigração Japonesa ao Brasil–indice


Histórias sobre a imigração japonesa ao Brasil - indice


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Introdução - sobre o blog e o autor



Os primórdios da história da imigração japonesa




    

Ryu Mizuno e Kasato Maru








A Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo



Diversos assuntos sobre a imigração japonesa



👉Ibaraki Tomojiro, o monge milagroso do Kasato Maru




Preconceito, nacionalismo e perseguição





As cartas de chamada de imigrante

A expulsão dos súditos do "eixo" do litoral brasileiro












Ryu Mizuno (ou Rio Midzuno)

Imigrãção japonesa no Brasil

Ryu Mizuno, o "pai" da imigração japonesa no Brasil


A vida de Ryu Mizuno no Japão

Nascido em 11 de novembro de 1859, recebeu o nome de Ikeno Gonossuke Minamoto Noritsune. Esse nome grande e esquisito foi dado pelo senhor feudal (daymio) das terras onde ele nasceu. O pai de Mizuno era samurai e coube ao seu daymio a honra de batizar o filho. Mais tarde, já adulto, mudou o nome para “Ryu Mizuno”.

A grafia “Ryu Mizuno” é a que aparece em toda a literatura a seu respeito. Entretanto, seu nome correto seria “Rio Midzuno”, pois era assim que ele assinava.

Assinatura de Ryo Mizuno
Assinatura: "Rio Midzuno"


Mizuno formou-se e exerceu as funções de professor em escolas primárias. Porem em 1876, aos 17 anos, decidiu largar a profissão e tentar a sorte em Tokyo. Com uma carta de recomendação, conseguiu emprego de secretário particular do subsecretário do Imperador, Shinzo Ohashi. Em outras palavras, ele foi apadrinhado e arranjaram para ele a função de secretário do subsecretário do secretário do Imperador. 

Envolveu-se com a politica, e neste meio conheceu em 1882, aos 23 anos, Manjiro Nakahama, que tinha vivido 11 anos nos Estados Unidos e vivia lhe contando as maravilhas da América. Provavelmente este contato mexeu com a cabeça de Mizuno, que passou a sonhar com terras distantes.

Mizuno exerceu ainda as funções de policial e funcionário público do governo da província Okayama. 

Casou-se em 1884, com Kikuyo Iwasa, uma viúva, filha de um militar, mãe de um menino. O casamento foi arranjado por um amigo, este muito envolvido em política, a quem Mizuno era protegido e devia favores.

Em 1890 Mizuno participou de um atentado contra Shiguenobu Okura, primeiro-ministro do Japão. Enviaram a ele um pacote de presente, contendo dinamite, que deveria explodir ao ser aberto. Mas o plano fracassou, pois a dinamite não explodiu. Mizuno ficou na moita.

Em 1897 Mizuno, juntamente com outros políticos funda o Partido Socialista Popular. Pouco depois debandou-se para o Partido Popular Livre, candidata-se a deputado pela província de Nara. Durante a campanha, fez um discurso inflamado demais e acabou preso, ficando 40 dias em cadeia.

Abandonou a politica e fundou uma empresa de iluminação pública, uma empreitada que não deu certo. Acabou trabalhando de gerente numa fábrica de enlatados.

Finalmente em 1904 decide fundar uma empresa de imigração, Kookuko Shokumim Kaisha (Companhia Imperial de Emigração), convencido de que a presença japonesa fora do país fortaleceria o Japão, e que estaria oferecendo oportunidade de vida nova e próspera aos que desejavam deixar o Japão.  Mizuno teria ficado irritado com as altas taxas que as empresas de emigração estavam cobrando no Japão, para enviar emigrantes ao Hawai, Peru e outros países. As altas taxas deixavam os imigrantes endividados. “As empresas de emigração se esqueceram da felicidade do povo japones. Essa atitude é imperdoavel”, escreveu certa vez. Diante disso resolveu abrir a sua empresa.

Em 21 de dezembro de 1905, após conseguir empréstimos para custear sua viagem, Mizuno parte de Yokohama, rumo ao Brasil, em viagem de reconhecimento. 

A primeira viagem de Ryu Mizuno ao Brasil (1905)


Em sua primeira viagem, Mizuno  encontra-se com Teijiru Suzuki


Antes de organizar a primeira leva de imigrantes (que comporiam o Kasato Maru), Mizuno fez sua primeira viagem para cá. Embarcou em um navio no Japão em 21 de dezembro de 1905, aos 46 anos de idade, rumo ao Brasil via Oceano Pacífico, com uma parada em Valparaiso, Chile.  

Durante a viagem, conheceu Teijiro Suzuki, que estava a caminho do Chile, onde ia se estabelecer. Como já notamos, Mizuno tinha uma lábia enorme e convenceu Suzuki a trocar o Chile pelo Brasil.

Tão logo que chegou ao Brasil, em companhia de Teijiro Suzuki, dirigiu-se imediatamente a Petropolis. Nesta cidade se encontravam as embaixadas de todos os países, e Mizuno foi encontrar-se com o Ministro Suguimura. Explicou suas intenções de trazer imigrantes, e que fora influenciado pelo relatório do Ministro e solicitou ajuda.
O Ministro então cedeu os serviços do interprete Arajiro Miura, e recomendou o trio (Mizuno, Miura e Suzuki) a procurarem as autoridades do estado de São Paulo. Para lá se dirigiram, foram recebidos pelo Secretário da Agricultura (Carlos Botelho), pelo diretor da Sociedade Imigratória de São Paulo (Bento Bueno) e pelo governador do estado, Jorge Tibiriça. Juntos, chegaram a conclusão que era impossível a vinda de imigrantes, pois não havia ainda leis regulamentando o assunto. O governo paulista alegou também que tinha dúvidas se um japones teria ou não condições de enfrentar o pesado trabalho nas lavouras de café. Prontamente, Teijiro se propôs a trabalhar nos cafezais por um período, a fim de conhecer o serviço e provar que o japonês era “pau para toda obra”.

Decepcionados, voltaram à Petrópolis. Lá chegando foram surpreendidos com a notícia da morte do Ministro Suguimura, vitima de AVC. Foi um choque para a dupla. O Ministro era o único apoio e incentivo da dupla no Brasil. Mizuno decidiu então voltar ao Japão, levando a família de Suguimura junto. Teijiro Suzuki permaneceu no Brasil, para cumprir o que havia prometido, e foi trabalhar nos cafezais.

Um ano depois, Suzuki voltou a São Paulo, ali mereceu reconhecimento do Secretário da Agricultura, que ficou admirado com as suas qualificações. Foi então nomeado secretário na Hospedaria dos Imigrantes.

A viagem do Kasato Maru não teria acontecido sem as iniciativas de Suzuki.

Teijiro Suzuki, na minha opinião, é um dos injustiçados na história da imigração japonesa no Brasil. Deveria existir mais reconhecimento pela sua coragem, sua determinação e confiança que depositou no nosso país, Brasil. 

Teijiro Suzuki aos 26 anos de idade
Teijiro Suzuki, aos 26 anos de idade.

A segunda viagem de Ryu Mizuno ao Brasil (1907)


Tendo notícias de que leis regulamentando a imigração japonesa haviam sido promulgadas no Brasil, Mizuno decide voltar para cá. Dirige-se mais uma vez a Petropolis, onde se encontra com o novo Ministro, Utida. Tal qual Suguimura, Utida era fervoroso defensor da idéia de se criar colônias japonesas aqui no Brasil.

No final do ano de 1907, Mizuno conseguiu fechar dois contratos, com o governo do Rio de Janeiro e do estado de São Paulo. Viajou mais de 60 vezes o trecho entre as cidades do Rio e São Paulo. Estes contratos estabeleciam que :

- Haveria a permissão de entrada de 1000 imigrantes japoneses por ano;
- Os imigrantes deveriam vir em grupo familiar de pelo menos 3 pessoas: marido, mulher e filho.
- A idade dos imigrantes deveria ser de 12 a 45 anos.
- Desembarque em Santos, nos meses de abril e maio;
- A empresa de Mizuno deveria providenciar 6 interpretes; e esses deveriam vir ao Brasil antes da primeira leva de imigrantes;
- O salário mínimo do imigrante deveria ser de 200 mil réis

De posse com essas condições, Mizuno voltou ao Japão, a fim de organizar a primeira leva de imigrantes. É muito provável teria ele deixado algum funcionário sua empresa (Companhia Imperial de Emigração) fazendo recrutamento de emigrantes e àquela altura, já tinha a lista pronta.
 

Ryu Mizuno e Teijiru Suzuki atravessam os Andes


Em sua primeira viagem ao Brasil, o  navio aportou no Chile, onde faria uma escala. Porem no Chile aconteceram problemas burocráticos, o que obrigou Mizuno e seu amigo de viagem Suzuki a ficarem um mês no país. Finalmente, puderam comprar passagem de trem até Buenos Aires. No dia do embarque, já na estação ferroviária, uma pequena multidão cercou a dupla, Suzuki e Mizuno.

- É verdade que os japoneses venceram os coreanos e chineses ?
- Sim, respondeu Mizuno, é verdade.

Os chilenos ficaram espantados com a coragem e audácia dos japoneses, e lançaram um desafio :

- Voces venceram os coreanos e chineses, mas duvidamos que tenham coragem de atravessar os Andes.

Mizuno e Suzuki aceitaram o desafio imediatamente, abandonaram o trem. Iniciaram a jornada, a pé. Uma arriscadissima decisão, enfrentaram frio e as dificuldades de se atravessar os Andes. Mizuno conta que a certa altura da viagem, começou a entrar em pânico, mas Teijiro Suzuki começou a cantar alto, animando o amigo.  Às duras penas,  chegaram a Mendoza, Argentina, onde foram recebidos como heróis. Dali prosseguiram de trem até  Buenos Aires. E ao ali chegar, Mizuno constatou que haviam roubado sua carteira, com todo dinheiro. Foi então a embaixada do Japão em Buenos Aires pedir socorro.

Depois de mais ou menos 90 dias de viagem, a dupla finalmente chegou ao Rio de Janeiro, em março de 1906.


Argentina mapa
Mizuno e Suzuki  fizeram o percurso Valparaiso-Mendoza a pé. 

A Colonia Akebono (ou Colônia Alvorada) em Ponta Grossa (Pr)


Ryu Mizuno tinha um espírito altamente empreendedor, que o levou a elaborar, em 1936, um plano: uma colônia em Ponta Grossa. Obteve apoio do então  governador Manoel Ribas, que concedeu um lote de terras, cuja extensão era 2.767 hectares (1.140 alqueires paulistas),  no local onde hoje se chama Desvio Ribas (próximo ao Parque Vila Velha). 

Mizuno embarcou para o Japão em 1941, a fim de levantar dinheiro junto a investidores para implantação deste projeto. Provavelmente Mizuno precisava de dinheiro para construir pontes, estradas de acesso, serviços de topografia, escritório de vendas e financiamento de lotes de terras, etc. 

Infelizmente, chegando ao Japão, aconteceu o ataque a Pearl Harbour, e Mizuno ficou retido no Japão, conseguindo voltar ao Brasil  somente 10 anos depois. Durante este período, sua família no Brasil passou por dificuldades financeiras. 

Familia e últimos dias de Ryu Mizuno


Ryu Mizuno tinha dois filhos do primeiro casamento, no Japão. Um deles era enteado, pois se casou com uma  viúva que tinha um filho. Os dois faleceram de tuberculose, no Japão.

Quando a  primeira esposa faleceu, Ryu casou-se novamente, no Japão. A segunda esposa veio ao Brasil em 1923. Mizuno bebeu até os 60 anos, e fumou até morrer, aos 91 anos. Tinha o hábito de tomar guaraná em pó com cobra cascavel em pó.

Na idade avançada, se alimentava de mingau de aveia. Caminhava 6 quilometros por dia, mesmo após os 90 anos. Era um homem magro e forte.

Guardava grande respeito aos falecidos que haviam, de alguma forma, colaborado com suas realizações. Todos os dias acordava as 7:00h e após fazer preces, repetia o nome de todos, em memória deles. Segundo o filho mais novo, eram mais de 100 nomes.

Ryu Mizuno fixou residência em Curitiba, no bairro Merces, em 1924 e ali viveu até sua morte em agosto de 1951 em São Paulo, aos 92 anos. A mulher, Maki, morreu em 1996, aos 97. Tiveram quatro filhos.

Um de seus filhos, Ryusaburo Mizuno, conta que o pai morreu desgostoso com o resultado final do histórico Kasato Maru. Considerava que a empreitada foi um fracasso total, da qual se arrependia. No final da vida, diariamente em orações pedia perdão aos imigrantes do Kasato Maru. 

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Kasato Maru-Correio Paulistano


Correio Paulistano,  5 de junho de 1908, noticia a chegada do Kasato Maru 

O então Inspetor da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, J. Amandio Sobral esteve na Hospedaria dos Imigrantes, onde estavam alojados os recém chegados imigrantes do Kasato Maru. Ele produziu um relatório, que foi enviado ao Correio Paulistano.

Nesta transrição foi mantida a ortografia original, de 1908.





Está São Paulo com os primeiros imigrantes japonezes.
Chegaram dia 18 (18/06/1908) pelo vapor Kassato Maru, depois de 52 dias de viagem do Japão a Santos, tendo tocado só em dois portos : o de Singapura na Asia e o da Cidade do Cabo na extremidade austral da Àfrica. Deste ultimo porto, o navio veio diretamente a Santos, tendo feito com uma regularidade digna de nota sua derrota (?) do porto de procedência, Kobe (Japão), ao porto de destino (Santos).

O vapor Kasato Maru trouxe para o Estado de S. Paulo 781 japoneses, que constituem a primeira leva da quantidade que deve trazer a Companhia Japonesa de Imigração e Colonização, que contratou com o Estado de S. Paulo a introdução de 3.000 famílias.
Estes 781 japoneses agora introduzidos agrupam-se em 161 famílias, sendo cada família constituída em média por 4,5 indivíduos. São poucos os indivíduos que vieram avulsos (37), isto é, não fazendo parte de famílias.

O número de crianças é insignificante, e o de velhos nulo. Crianças com menos de três anos vieram 8; dos três a sete anos vieram 4; de sete a doze anos, 4, e de mais de doze anos 765. Todo o individuo de mais de doze anos traz já as mãos calejadas, sinal evidente de trabalho habitual.

Com estes japoneses introduzidos pela companhia acima referida, vieram também 11 de mais de doze anos e 1 de três a sete anos, espontâneos, isto é, com passagem paga à sua custa.



Dos introduzidos pela companhia (781) 532 sabem ler e escrever, isto é, 68 por cento, sendo necessário notar que, dos 249 tidos como analfabetos, muitos deles sabem ler mal e escrever um pouco. Na realidade, os analfabetos, empregando esta palavra na sua acepção literal, não chegam a 100, o que eleva muito aquela porcentagem.

Os imigrantes japoneses vieram de onze províncias diferentes, que são as seguintes: Tokyo, Fukushima, Kagoshima, Kumamato, Okinawa, Ehime, Yamaguchi, Hiroshima, Kochi, Niigata e Yamaguchi.

Pelas cifras supra, ve se que, das 781, só 16 pessoas não são de trabalho, sendo, portanto, 2 por cento os não trabalhadores, e esta insignificante porcentagem não é constituída por velhos ou pessoas invalidas, mas por crianças que amanhã serão ótimos elementos de trabalho.

Vieram para S. Paulo no dia 19, desembarcando nesse mesmo dia do vapor que os trouxe. As suas camaras e mais acomodações apresentavam uma limpeza inexcedível. É preciso notar que se trata de gente de humilde camada social no Japão. Pois houve em Santos quem afirmasse que o navio japonês apresentava na sua 3ª. classe mais asseio e limpeza que qualquer transatlântico europeu na 1ª. classe. 



Isto não é hiperbólico, como adiante se verá.

Ao desembarcarem na Hospedaria de Imigrantes sairam todos dos vagões na maior ordem e, depois de deixarem estes não se viu no pavimento um só cuspo, uma casca de fruta, em suma, uma coisa qualquer que denotasse falta de asseio por parte de quem neles veio. Sairam na maior ordem, depois de quatro horas de viagem em trem especial de Santos a São Paulo (não sei qual a razão por que se não há de fazer o trajeto dos trens de imigrantes em menos tempo), e foram recolhidos no amplo salão do refeitório da hospedaria, ocupando todas as mesas, e ainda sobrou gente, que ficou nos corredores. 

Estavam todos, homens e mulheres, vestidos à europeia: eles de chapéu ou boné, elas de saia e camiseta pegada à saia, apertada na cintura por um cinto, e de chapéu de senhora, um chapéu simples, o mais simples que se pode conceber, preso na cabeça por um elástico e ornado com um grampo. Os penteados fazem lembrar-nos os que temos visto em pinturas japonesas, mas sem os grampos colossais que as mesmas pinturas nos apresentam.

Homens e mulheres trazem calçados (botinas, borzeguins e sapatos) baratos, com protetores de ferro na sola, e todos usam meias. Alguns homens foram soldados na ultima guerra (russo-japonesa) e traziam no peito as suas condecorações.

Um deles trazia três medalhas, uma das quais de ouro, por atos de heroísmo, 


Muitos traziam bandeiras pequenas de seda, numa pequenina haste de bambú pintado e lança de metal amarelo. Essas bandeiras eram trazidas aos pares : uma branca com um círculo vermelho no meio, e outr auri-verde: a do Japão e a do Brasil. Essa primeira leva de imigrantes japoneses entrou em nossa terra com bandeiras brasileiras de seda, feita no Japão, e trazidas de propósito para nos serem amáveis. Delicadeza fina, reveladora de uma educação apreciável.

As suas roupas europeias foram todas adquiridas no Japão e ali confeccionadas nas grandes fábricas japonesas. A vestimenta europeia conquista terreno o império do sol nascente. Foram os próprios imigrantes que compraram as suas roupas, adquiridas com seu dinheiro, e só trouxeram roupa limpa, nova, causando uma impressão agradável. As mulheres calçam luvas brancas de algodão. 


Depois de estarem uma hora no salão do refeitório, tiveram que abandoná-lo para saberem quais eram as suas camas e os quartos, e surpreendeu a todos o estado de limpeza absoluta em que ficou o salão : nem um uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste com as cuspinheiras repugnantes e pontas de cigarro esmagadas com os pés de outros imigrantes.

Tem feito as suas refeições sempre na melhor ordem e, apesar de os últimos as fizerem duas horas depois dos primeiros, sem um grito de gaiatice, um sinal de impaciência ou uma voz de protesto.

No dia seguinte ao da sua chegada, foram todos vacinados em duas horas, apresentando todos, homens, mulheres, os braços à vacinação, sem relutância alguma nem pudores piegas. Nunca se vacinou ali tanta gente, com tanta ordem, tanto silencio e tanta espontaneidade, no mesmo tempo. Muitissimo tinham sido já vacinado e muitos revacinados.

Tem recebido bem a nossa alimentação, feita a nossa moda e com os nossos temperos, e nem um só caso de doença intestinal se manifestou até agora. Só dois leves casos de gripe e algumas dores de cabeça (de ligeiras constipações) em menos de duas dezenas de pessoas.

Todos os japoneses vindos são geralmente baixos, cabeça grande, troncos grandes e reforçados, mas pernas curtas. Um japonês de 14 anos não é mais alto que uma criança das nossas de 8 anos de idade. A estatura média japonesa é inferior a nossa estatura baixa.



Mas vieram alguns homens mais altos, regulando a sua estatura pela nossa média. O que, sobretudo, atrai a nossa atenção é a robustez, o reforçado dos corpos masculinos, de músculos pouco volumosos (admira, mas é verdade!) mas fortes e de esqueleto largo, peito amplo.

Os seus cabelos negros, que parecem negrejar mais nos volumosos penteados das mulheres, são cortados, nos homens, de maneira a permitir uma marrafa, que quase todos usam, uns do lado e outros no alto da cabeça, penteada com cuidado, perfeitamente em harmonia com a gravata que todos usam e sem incompatibilidade com os calos que todos trazem nas mãos.

São muitos dóceis e sociáveis, tendo manifestado uma grande vontade de aprender a nossa lingua, e no refeitório não deixaram cair um grão de arroz ou uma colher de caldo. Depois de cada refeição (que dura de uma e meia a duas horas), o pavimento do salão está como antes dela. Os dormitórios quase não precisam ser varridos, mal se encontrando de longe em longe um pedacinho de papel ou um fósforo queimado, que algumas vezes são dos serventes da hospedaria.

Tem nas suas mulheres a maior confiança, a ponto de, para não interromperem uma lição adventícia de portugues, lhes confiarem a troca do seu dinheiro japones em moeda portuguesa, pois todos trazem dinheiro : 10 yens, 20, 30, 40, 50 ou mais yens, mas todos trazem um pouco. 



São de maior asseio com o seu corpo, tomando repetidos banhos e trazendo sempre roupas limpas.

Todos tem uma caixa de pós dentifricios, escova para dentes, raspadeira para a língua, pente para o cabello e navalha de barba. Barbeiam-se sem sabão, só com água.

As suas bagagens são pequenas: para menos de oitocentas pessoas, mil e cem malas, na sua maior parte de vime branco e algumas de lona pintada. Não parece bagagem de gente pobre, contrastando flagrantemente com os baús de folha e trouxas dos nossos operários. Nestas suas bagagens trazem as roupas indispensáveis e objectos de uso diário, como pasta para dentes, um frasco de conservas, um de molho para temperar comida, um ou outra raiz medicinal, as indispensáveis e exquisitices travesseiras, pequeninas e altas, de madeira forrada de veludo ou de bambu fino, flexível; cobertores acolchoados, casacões contra o frio, ferramentas pequenas (por sinal que as de carpinteiro são muito diferentes das nossas), um ou dois livros, (cheios de garatujas, direi eu), uma caixa de papel para cartas, nankim para escrever, pausinhos (que podem ser de alumínio), para comer arroz, colheres pequenas, mas largas e chatas, para as refeições, e muitas outras miudezas que lhes são necessárias.

De roupas japonesas, só vi um kimôninho pintalgado numa criança de colo. 


Nas mil e cem malas que trouxeram, a alfândega não encontrou um único objeto nas condições de pagar imposto, embora a conferencia tenha sido feita com todo o rigor e durado quase dois dias inteiros.

Os empregados da alfândega declaram que nunca viram gente que tenha, com tanta ordem e com tanta calma, assistido á conferencia de suas bagagens, e nem uma só vez foram apanhados em mentiras.

Se esta gente, que é toda de trabalho, for neste o que é no asseio, (nunca viu pela imigração gente tão asseada), na ordem e na docilidade, a riqueza paulista terá no japonês um elemento de produção que nada deixará a desejar.

A raça é muito diferente, mas não é inferior. Não façamos, antes do tempo, juízos temerários a respeito da ação do japonês no trabalho nacional.

S. Paulo, 22-VI-1908
J. Amandio Sobral.

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O destino dos imigrantes do Kasato Maru

 

Kasato Maru - o destino dos imigrantes (2) 

Os imigrantes do Kasato foram separados em seis grupos,  para viajarem a seis fazendas.  As viagens foram em trens, de um ou dois vagões apenas.

Na saída do trem, a  Hospedaria forneceu a cada imigrante um grande pão, duro e cascudo, e um pequeno salame. Conta-se que detestaram o salame, muito salgado para eles, e quando o trem fazia parada, muitos venderam seu salame aos brasileiros que estavam na estação. 

Essas  vendas eram feitas da janela do trem, pois era proibido sair do trem.  Temia-se que se saíssem iriam perder-se. 

A primeira leva de imigrantes japoneses foi um fracasso.

A primeira leva de 781 imigrantes foi um desastre. Eles vieram com o sonho de terra idílica, de fartura e riqueza rápida e fácil. A terra era mesmo idílica e de fartura, mas não para eles. 

Mas é regra geral que imigram para outros países em condições precárias, sempre encontram no país novo condições duríssimas de sobrevivência. Ao desembarcarem, não falam a língua, não conhecem os costumes, os hábitos alimentares, o preço das mercadorias, etc, e a eles são reservados os piores trabalhos e as piores moradias. Ficam também à mercê da boa vontade e misericórdia dos patrões, e também sob ameaça da má fé do povo que os receberam. Assim foi e assim sempre será, em toda a história da humanidade, e não foi diferente com eles.

Há boa probabilidade de que os fazendeiros não sabiam como lidar com os estrangeiros, e davam a eles o mesmo tratamento que davam aos escravos. O Kasato Maru chegou apenas 20 anos após a libertação dos escravos, e provavelmente a maioria dos fazendeiros tinham ainda em mente o sistema “coronel, casa-grande e senzala”. 

Os japoneses (e também os italianos) não apreciaram o tratamento e as condições escravagistas oferecidas. A maior reclamação era com os salários e várias greves ocorreram. Além disso, ficaram revoltados com as companhias de emigração, dizendo-se logrados por eles, que haviam prometido o paraíso, e que a realidade era outra. O pobre Ryu Mizuno foi alvo de duras críticas, e por várias vezes foi chamado às fazendas para mediar conflitos.

Em dezembro de 1908, Joodi Amari, um enviado do Ministro Plenipotenciário do Japão no Brasil, iniciou uma visita às fazendas que receberam os imigrantes do Kasato Maru, a fim de fazer um levantamento sobre as condições de trabalho, e assim pudesse o ministro formular uma opinião sobre a continuidade ou não da imigração japonesa ao Brasil. De acordo com seu relatório, somente 439 imigrantes (do total de 781) permaneceram nas fazendas.

No final do ano seguinte, 1909, novo levantamento foi feito pelo interprete Ryodi Noda, e constatou-se que apenas 239 imigrantes (31% dos 781 imigrantes do Kasato Maru) permaneceram trabalhando nas fazendas, os demais 542 haviam abandonado o trabalho. Em seu levantamento, Noda constatou o seguinte : 102 deles migraram para cidade de São Paulo (onde exerceram diversas atividades: domésticas, carpinteiros, cozinheiros, etc), 110 para Santos (onde foram trabalhar como estivadores), 120 foram trabalhar na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, 38 foram para o estado do Rio de Janeiro ou Minas Gerais, e 160 reemigraram para a Argentina.

Participação dos imigrantes Kasato na contrução de ferrovias :

Os que foram para Santos (110) foram contratados pela empresa inglesa Southern São Paulo Railway em 1913 para trabalharem na construção da Estrada de Ferro Santos-Juquiá. Ao término da obra, em 1915, compraram terras ao longo dela, e ali se estabeleceram.

Os 120 citados por Noda, quase todos originários de Okinawa, foram contratados pela Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil para trabalharem na construção da ferrovia Andradina-Corumba (Ms), que foi inaugurada em 1914. Também compraram terras ao longo da ferrovia e ali se estabeleceram. A maioria se fixou próximo  a cidade de Campo Grande (Ms).

Ferrovia Noroeste 1

As causas do fracasso do Kasato Maru:

As principais causas do fracasso dos imigrantes do Kasato Maru foram essas :

1) A safra de café de 1908 foi muito fraca, e por isso, os imigrantes do não colheram muito. Como ganhavam por produção, os ganhos foram muito aquém das expectativas.
2) Más condições das moradias;
3) Desentendimentos entre os imigrantes e seus chefes;
4) Famílias arranjadas, possibilitando abandonos de vários imigrantes sem vínculos familiares
5) Vários imigrantes do Kasato não tinham experiência com agricultura

Com o abandono do trabalho, os fazendeiros, que pagavam ao governo as custas da fixação do imigrante nas terras, reclamaram o prejuízo. Solicitaram cancelamento a dívida resultante daqueles que fugiram das fazendas. O governo de São Paulo aceitou o argumento e perdoou muitas dividas.

Mesmo sendo um ícone, um símbolo da imigração japonesa, a primeira leva do Kasato Maru não alcançou seu objetivo original, que era realizar o sonho de riqueza dos imigrantes através do trabalho que eles se propuseram (o trabalho na lavoura), e nem atendeu às necessidades dos contratantes. Cada um dos 781 deve ter enfrentado sérias dificuldades, muitos deles devem ter falecidos de doenças como malária, febre amarela e outras infecções.

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