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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Ryu Mizuno (ou Rio Midzuno)

Imigrãção japonesa no Brasil

Ryu Mizuno, o "pai" da imigração japonesa no Brasil


A vida de Ryu Mizuno no Japão

Nascido em 11 de novembro de 1859, recebeu o nome de Ikeno Gonossuke Minamoto Noritsune. Esse nome grande e esquisito foi dado pelo senhor feudal (daymio) das terras onde ele nasceu. O pai de Mizuno era samurai e coube ao seu daymio a honra de batizar o filho. Mais tarde, já adulto, mudou o nome para “Ryu Mizuno”.

A grafia “Ryu Mizuno” é a que aparece em toda a literatura a seu respeito. Entretanto, seu nome correto seria “Rio Midzuno”, pois era assim que ele assinava.

Assinatura de Ryo Mizuno
Assinatura: "Rio Midzuno"


Mizuno formou-se e exerceu as funções de professor em escolas primárias. Porem em 1876, aos 17 anos, decidiu largar a profissão e tentar a sorte em Tokyo. Com uma carta de recomendação, conseguiu emprego de secretário particular do subsecretário do Imperador, Shinzo Ohashi. Em outras palavras, ele foi apadrinhado e arranjaram para ele a função de secretário do subsecretário do secretário do Imperador. 

Envolveu-se com a politica, e neste meio conheceu em 1882, aos 23 anos, Manjiro Nakahama, que tinha vivido 11 anos nos Estados Unidos e vivia lhe contando as maravilhas da América. Provavelmente este contato mexeu com a cabeça de Mizuno, que passou a sonhar com terras distantes.

Mizuno exerceu ainda as funções de policial e funcionário público do governo da província Okayama. 

Casou-se em 1884, com Kikuyo Iwasa, uma viúva, filha de um militar, mãe de um menino. O casamento foi arranjado por um amigo, este muito envolvido em política, a quem Mizuno era protegido e devia favores.

Em 1890 Mizuno participou de um atentado contra Shiguenobu Okura, primeiro-ministro do Japão. Enviaram a ele um pacote de presente, contendo dinamite, que deveria explodir ao ser aberto. Mas o plano fracassou, pois a dinamite não explodiu. Mizuno ficou na moita.

Em 1897 Mizuno, juntamente com outros políticos funda o Partido Socialista Popular. Pouco depois debandou-se para o Partido Popular Livre, candidata-se a deputado pela província de Nara. Durante a campanha, fez um discurso inflamado demais e acabou preso, ficando 40 dias em cadeia.

Abandonou a politica e fundou uma empresa de iluminação pública, uma empreitada que não deu certo. Acabou trabalhando de gerente numa fábrica de enlatados.

Finalmente em 1904 decide fundar uma empresa de imigração, Kookuko Shokumim Kaisha (Companhia Imperial de Emigração), convencido de que a presença japonesa fora do país fortaleceria o Japão, e que estaria oferecendo oportunidade de vida nova e próspera aos que desejavam deixar o Japão.  Mizuno teria ficado irritado com as altas taxas que as empresas de emigração estavam cobrando no Japão, para enviar emigrantes ao Hawai, Peru e outros países. As altas taxas deixavam os imigrantes endividados. “As empresas de emigração se esqueceram da felicidade do povo japones. Essa atitude é imperdoavel”, escreveu certa vez. Diante disso resolveu abrir a sua empresa.

Em 21 de dezembro de 1905, após conseguir empréstimos para custear sua viagem, Mizuno parte de Yokohama, rumo ao Brasil, em viagem de reconhecimento. 

A primeira viagem de Ryu Mizuno ao Brasil (1905)


Em sua primeira viagem, Mizuno  encontra-se com Teijiru Suzuki


Antes de organizar a primeira leva de imigrantes (que comporiam o Kasato Maru), Mizuno fez sua primeira viagem para cá. Embarcou em um navio no Japão em 21 de dezembro de 1905, aos 46 anos de idade, rumo ao Brasil via Oceano Pacífico, com uma parada em Valparaiso, Chile.  

Durante a viagem, conheceu Teijiro Suzuki, que estava a caminho do Chile, onde ia se estabelecer. Como já notamos, Mizuno tinha uma lábia enorme e convenceu Suzuki a trocar o Chile pelo Brasil.

Tão logo que chegou ao Brasil, em companhia de Teijiro Suzuki, dirigiu-se imediatamente a Petropolis. Nesta cidade se encontravam as embaixadas de todos os países, e Mizuno foi encontrar-se com o Ministro Suguimura. Explicou suas intenções de trazer imigrantes, e que fora influenciado pelo relatório do Ministro e solicitou ajuda.
O Ministro então cedeu os serviços do interprete Arajiro Miura, e recomendou o trio (Mizuno, Miura e Suzuki) a procurarem as autoridades do estado de São Paulo. Para lá se dirigiram, foram recebidos pelo Secretário da Agricultura (Carlos Botelho), pelo diretor da Sociedade Imigratória de São Paulo (Bento Bueno) e pelo governador do estado, Jorge Tibiriça. Juntos, chegaram a conclusão que era impossível a vinda de imigrantes, pois não havia ainda leis regulamentando o assunto. O governo paulista alegou também que tinha dúvidas se um japones teria ou não condições de enfrentar o pesado trabalho nas lavouras de café. Prontamente, Teijiro se propôs a trabalhar nos cafezais por um período, a fim de conhecer o serviço e provar que o japonês era “pau para toda obra”.

Decepcionados, voltaram à Petrópolis. Lá chegando foram surpreendidos com a notícia da morte do Ministro Suguimura, vitima de AVC. Foi um choque para a dupla. O Ministro era o único apoio e incentivo da dupla no Brasil. Mizuno decidiu então voltar ao Japão, levando a família de Suguimura junto. Teijiro Suzuki permaneceu no Brasil, para cumprir o que havia prometido, e foi trabalhar nos cafezais.

Um ano depois, Suzuki voltou a São Paulo, ali mereceu reconhecimento do Secretário da Agricultura, que ficou admirado com as suas qualificações. Foi então nomeado secretário na Hospedaria dos Imigrantes.

A viagem do Kasato Maru não teria acontecido sem as iniciativas de Suzuki.

Teijiro Suzuki, na minha opinião, é um dos injustiçados na história da imigração japonesa no Brasil. Deveria existir mais reconhecimento pela sua coragem, sua determinação e confiança que depositou no nosso país, Brasil. 

Teijiro Suzuki aos 26 anos de idade
Teijiro Suzuki, aos 26 anos de idade.

A segunda viagem de Ryu Mizuno ao Brasil (1907)


Tendo notícias de que leis regulamentando a imigração japonesa haviam sido promulgadas no Brasil, Mizuno decide voltar para cá. Dirige-se mais uma vez a Petropolis, onde se encontra com o novo Ministro, Utida. Tal qual Suguimura, Utida era fervoroso defensor da idéia de se criar colônias japonesas aqui no Brasil.

No final do ano de 1907, Mizuno conseguiu fechar dois contratos, com o governo do Rio de Janeiro e do estado de São Paulo. Viajou mais de 60 vezes o trecho entre as cidades do Rio e São Paulo. Estes contratos estabeleciam que :

- Haveria a permissão de entrada de 1000 imigrantes japoneses por ano;
- Os imigrantes deveriam vir em grupo familiar de pelo menos 3 pessoas: marido, mulher e filho.
- A idade dos imigrantes deveria ser de 12 a 45 anos.
- Desembarque em Santos, nos meses de abril e maio;
- A empresa de Mizuno deveria providenciar 6 interpretes; e esses deveriam vir ao Brasil antes da primeira leva de imigrantes;
- O salário mínimo do imigrante deveria ser de 200 mil réis

De posse com essas condições, Mizuno voltou ao Japão, a fim de organizar a primeira leva de imigrantes. É muito provável teria ele deixado algum funcionário sua empresa (Companhia Imperial de Emigração) fazendo recrutamento de emigrantes e àquela altura, já tinha a lista pronta.
 

Ryu Mizuno e Teijiru Suzuki atravessam os Andes


Em sua primeira viagem ao Brasil, o  navio aportou no Chile, onde faria uma escala. Porem no Chile aconteceram problemas burocráticos, o que obrigou Mizuno e seu amigo de viagem Suzuki a ficarem um mês no país. Finalmente, puderam comprar passagem de trem até Buenos Aires. No dia do embarque, já na estação ferroviária, uma pequena multidão cercou a dupla, Suzuki e Mizuno.

- É verdade que os japoneses venceram os coreanos e chineses ?
- Sim, respondeu Mizuno, é verdade.

Os chilenos ficaram espantados com a coragem e audácia dos japoneses, e lançaram um desafio :

- Voces venceram os coreanos e chineses, mas duvidamos que tenham coragem de atravessar os Andes.

Mizuno e Suzuki aceitaram o desafio imediatamente, abandonaram o trem. Iniciaram a jornada, a pé. Uma arriscadissima decisão, enfrentaram frio e as dificuldades de se atravessar os Andes. Mizuno conta que a certa altura da viagem, começou a entrar em pânico, mas Teijiro Suzuki começou a cantar alto, animando o amigo.  Às duras penas,  chegaram a Mendoza, Argentina, onde foram recebidos como heróis. Dali prosseguiram de trem até  Buenos Aires. E ao ali chegar, Mizuno constatou que haviam roubado sua carteira, com todo dinheiro. Foi então a embaixada do Japão em Buenos Aires pedir socorro.

Depois de mais ou menos 90 dias de viagem, a dupla finalmente chegou ao Rio de Janeiro, em março de 1906.


Argentina mapa
Mizuno e Suzuki  fizeram o percurso Valparaiso-Mendoza a pé. 

A Colonia Akebono (ou Colônia Alvorada) em Ponta Grossa (Pr)


Ryu Mizuno tinha um espírito altamente empreendedor, que o levou a elaborar, em 1936, um plano: uma colônia em Ponta Grossa. Obteve apoio do então  governador Manoel Ribas, que concedeu um lote de terras, cuja extensão era 2.767 hectares (1.140 alqueires paulistas),  no local onde hoje se chama Desvio Ribas (próximo ao Parque Vila Velha). 

Mizuno embarcou para o Japão em 1941, a fim de levantar dinheiro junto a investidores para implantação deste projeto. Provavelmente Mizuno precisava de dinheiro para construir pontes, estradas de acesso, serviços de topografia, escritório de vendas e financiamento de lotes de terras, etc. 

Infelizmente, chegando ao Japão, aconteceu o ataque a Pearl Harbour, e Mizuno ficou retido no Japão, conseguindo voltar ao Brasil  somente 10 anos depois. Durante este período, sua família no Brasil passou por dificuldades financeiras. 

Familia e últimos dias de Ryu Mizuno


Ryu Mizuno tinha dois filhos do primeiro casamento, no Japão. Um deles era enteado, pois se casou com uma  viúva que tinha um filho. Os dois faleceram de tuberculose, no Japão.

Quando a  primeira esposa faleceu, Ryu casou-se novamente, no Japão. A segunda esposa veio ao Brasil em 1923. Mizuno bebeu até os 60 anos, e fumou até morrer, aos 91 anos. Tinha o hábito de tomar guaraná em pó com cobra cascavel em pó.

Na idade avançada, se alimentava de mingau de aveia. Caminhava 6 quilometros por dia, mesmo após os 90 anos. Era um homem magro e forte.

Guardava grande respeito aos falecidos que haviam, de alguma forma, colaborado com suas realizações. Todos os dias acordava as 7:00h e após fazer preces, repetia o nome de todos, em memória deles. Segundo o filho mais novo, eram mais de 100 nomes.

Ryu Mizuno fixou residência em Curitiba, no bairro Merces, em 1924 e ali viveu até sua morte em agosto de 1951 em São Paulo, aos 92 anos. A mulher, Maki, morreu em 1996, aos 97. Tiveram quatro filhos.

Um de seus filhos, Ryusaburo Mizuno, conta que o pai morreu desgostoso com o resultado final do histórico Kasato Maru. Considerava que a empreitada foi um fracasso total, da qual se arrependia. No final da vida, diariamente em orações pedia perdão aos imigrantes do Kasato Maru. 

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