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quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Legação Sueca e o comunicado oficial

 A Legação Sueca no Brasil e o fim da guerra

As legações diplomáticas eram escritórios representativos de determinados países, com patente inferior a uma embaixada. Enquanto uma embaixada era chefiada por um embaixador, uma legação era chefiada por um ministro, no Brasil denominado de "ministro plenipotenciário". 

Alguns países não tinham legação diplomática no Brasil ao final da Segunda Guerra, era o caso do Japão, devido ao rompimento de relações diplomáticas. Por isso, o Japão nomeou o ministro plenipotenciário da Suécia como representante do Japão no Brasil. O Japão enviou então ao ministro plenipotenciário sueco os termos da rendição japonesa, assinado no encouraçado Potsdam. O termo era fac simile de um documento escrito em japonês (foto).

Comunicado oficial da rendição do Japão

A Legação Sueca fez uma publicação no Jornal de São Paulo, edição de 16/04/1943, com menção aos vitoristas do Shindo Rinmei.


Fonte: National Diet Libray, Tokyo















Feita a publicação,  a Legação Sueca em conjunto com o governo do Estado de São Paulo, convocou aproximadamente mil imigrantes para uma reunião de esclarecimentos.

O trabalho da Legação Sueca foi importantíssimo e muito eficiente, pondo fim ao período de terrorismo do promovido pelo Shindo Renmei. Era necessário, entre os vitoristas, uma manifestação vinda de uma entidade neutra, que ele podiam confiar.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Shindo Renmei - a pressao da sociedade

 Shindo Renmei - a pressão da sociedade 

Com a sucessão de acontecimentos envolvendo o Shindo Renmei, começaram as cobranças junto ao poder público no sentido de investigação policial e estabelecimento da ordem.

A Folha da Manhã, em 123/07/1946 publicou um manifesto na Câmera dos Deputados Federais, feito pelo então deputado amazonense Pereira da Silva.

Folha da Manhã - manchete



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No dia 27/08/1946 a Folha da Noite publicou a noticia de que alguns elementos do Shindo Renmei, na qualidade de detentos, foram recebidos pelo interventor Macedo Soares, no Palácio do Governo. Coisa impensável em nossos dias, o governador do estado receber terroristas presos. 

A reportagem é muito superficial,  não informa o número de detidos, apenas diz que estes se comportaram de maneira "insolente" diante do governador, que então sugeriu a expulsão dos mesmos. 

É provável que o processo de expulsão encalhou, visto que na época não havia meios de executar a decisão. 


Folha da Noite, 27-07-1946


Zoom da notícia

Transcrição:


VAO SER EXPULSOS OS TERRORISTAS JAPONESES

Minucioso relatório sobre as atividades dos fanáticos da “Shindo Renmei” foi entregue pelo Sr. Pedro de Oliveira Ribeiro Sobrinho ao Ministro da Justiça

 

Rio 27 (Da sucursal) havia sido entregue ao ministro da Justiça pelo sr. Oliveira Sobrinho, secretário da Segurança de São Paulo... (ilegível)....sobre as atividades terroristas que fanáticos nipônicos vem desenvolvendo naquele estado contra elementos da própria colônia. Estas graves ocorrências que vem ...(ilegível)...ferozmente a opinião pública do país atingiram o auge durante a ultima semana, em virtude da insolência desenfreada por tais elementos quando recebidos nos Campos Eliseos pelo interventor Macedo .Soares

     Segundo se afirma o relatório entregue ao ministro a Justiça, pelo sr. Oliveira Sobrinho já foi devidamente escutado e ...(ilegível) ... sr. Carlos Luz, com a recomendação de que oitenta dos terroristas nipônicos deverão ser expulsos do país.

O processo de expulsão terá agora o seu prosseguimento ...(ilegível) .. devendo, para isso, ser encaminhado ao Departamento do Interior e Justiça daquele ministério. 


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sábado, 27 de junho de 2026

Shindo Renmei - as origens do grupo terrorista

 As origens do Shindo Renmei

O que era o Shindo Renmei

Era uma associação que em sua fundação buscava apenas a manutenção do "Yamato Damashii", o espírito japonês, a manutenção do nacionalismo japonês, o sentimento de patriotismo e apoio ao Japão. Entretanto, a partir de 1946 ela começou a praticar atos de terrorismo, praticados por alguns elementos do grupo, movidos por fanatismo, por patriotismo cego ou por interesses escusos. 

Esclareço aqui que nem todos os integrantes da associação eram terroristas, apenas uma pequena facção dela. 

Há controvérsias em relação à data de fundação desta organização, que teve como principais líderes os ex-coronéis japoneses Junji Kikawa e Jinsaku Wakiyama.

Há versões afirmando que o Shindo surgiu em 1942, diante da forte repressão do governo Vargas  sobre os japoneses. Outras afirmam que o grupo se originou entre 1944 e 1945, a princípio com o nome de Kodôsha, ou Movimento Unificador.

Entretanto, a versão mais aceita é de que ela surgiu logo depois do fim da guerra.

O Shindo proclamava a vitória do Japão, ou a continuidade da Guerra, e não admitiam, entre os imigrantes japoneses,  opinião contrária. Exerciam forte pressão, mediante uso de ameaças e até mesmo de violência e assassinato, àqueles que acreditavam na rendição e derrota do Japão. O Shindo chamavam os de “corações sujos” , “makegumi” ou “derrotistas”.

O grupo surgiu na cidade de Marilia (Sp), e cometeu 23 homicídios de imigrantes, além de deixar 147 feridos.

O fundador do Shindo Renmei

No ano 1942, Junji Kikawa, que mais tarde iria fundar e liderar o Shindo Renmei, imprimia e distribuía panfletos que aconselhavam os agricultores nipo-brasileiros a abandonar ou destruir a produção de seda , pois segundo ele estava sendo usada na fabricação de paraquedas do exército americano.

Também aconselhou a destruição de lavouras de hortelã pimenta, pois esse produto era utilizado para tornar a nitroglicerina mais potente). Ocorreram alguns atos de destruição de criação de bicho-da-seda e de plantações de hortelã de agricultores nipo-brasileiros, porém as autoridades policiais não investigaram os fatos devidamente e o assunto foi logo esquecido.

Junji Kikawa


O tamanho da organização

O Shindo Renmei chegou a ter 64 representações, espalhadas em diversos municípios dos estados Sp e Pr. A organização era mantida com contribuições da colônia japonesa.

Motivos da violência do Shindo Renmei

(atenção: opinião do autor deste site)

Tudo indica que o Shindo Renmei acabou tornando-se numa quadrilha, que usou o sentimento de patriotismo e a guerra para arrecadar dinheiro e bens, que supostamente seriam enviados ao Japão. Obviamente, na época e nas circunstâncias de guerra, não havia meios para enviar dinheiro e mercadorias ao Japão.

Alguns estelionatários do forjaram jornais e revistas japonesas com notícias sobre a grande vitória e começaram a vender terras nos "territórios conquistados".

Minha mãe me contou que certa vez um caminhão chegou no sítio da família dela e fez um carregamento de açúcar, arroz e outros bens, para serem “levados ao Japão”.

Com o fim da guerra, esse esquema criminoso desapareceria, e por isso a organização passou a não admitir a crença da rendição do Japão.

A venda de yens sem valor

O Shindo criou um boato, em que um navio japonês chegaria em Santos a fim de arrecadar dinheiro, em yens. E que os imigrantes deveriam dirigir-se ao porto com as contribuições, ajudas de guerra ao Japão.

Para isso, o Renmei passou a vender notas de yens aos imigrantes. Entretanto, vendiam notas antigas sem valor, já tiradas de circulação no Japão.

Os que acreditaram e foram ao porto, ficaram a ver navios...

O "Dragão Negro" 

Há fortes indícios (porem não há provas) de que o Shindo Renmei foi inspirado na organização Dragão Negro, que atuava no Japão, cujo intuito era incentivar a expansão japonesa na Ásia. 

O Dragão Negro, tal como o Shindo Renmei era movido por um forte fanatismo cego e por um patriotismo exacerbado.

Essa teoria foi proposta pelo jornal Folha da Noite, edição de 20/04/1946.



Para possibilitar a leitura, fiz recortes da publicação : 








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terça-feira, 23 de junho de 2026

Expulsão-alemães e japoneses-reportagem

 A expulsão dos alemães e japoneses do litoral paulista

Continuando com a série de reportagens de jornais da época, cobrindo o episódio da expulsão dos japoneses, alemães e italianos do litoral do Brasil. Essa reportagem acrescenta alguns fatos novos, como as tentativas de escapar da expulsão.

 

Reportagem: japoneses e alemães expulsos do litoral
Reportagem: japoneses e alemães expulsos do litoral


Essa é a transcrição da reportagem, para melhor leitura:

Folha da Noite, 10 de julho de 1943

TODOS ALEMÃES E JAPONESES DE SANTOS

Já foram removidos para São Paulo.

Continuam a chegar trens repletos de “eixistas” procedentes do litoral – os alemães inventam enfermidades para escapar da medida policial – austríacos e perseguidos pela “Gestapo”

Santos, 9 (Do enviado especial da “Folha da Noite”, pelo telefone) – continuam os Srs. Affonso Celso, delegado auxiliar e Nelson da Veiga, delegado a Ordem Pública de Santos, a dispender esforços no sentido de terminar o envio de japoneses e alemães para São Paulo, em cumprimento às ordens emanadas da superintendência de Segurança Pública e Social, major Vieira de Mello.

EMBARCADOS TODOS OS JAPONESES E ALEMÃES RESIDENTES NA CIDADE

Graças às medidas preventivas postas em prática pelo delegado auxiliar o titular da Ordem Pública já conseguiu embarcar para São Paulo todos os japoneses registrados e que residiam na cidade, o mesmo acontecendo com os alemães, cujo total é de 700 aproximadamente. Pela manhã de hoje embarcaram 773 pessoas e a noite o total de embarcados atingiu a 600. (ilegível) somente hoje, deixaram esta cidade 1373 “eixistas”. Incluindo os que embarcaram ontem temos o total de 2075. Não estão computados na cifra acima os que seguiram por conta própria, bem como as crianças menores de 3 anos. A estimativa geral é de cerca de 3.000 pessoas.

A partir de amanhã as autoridades providenciarão o embarque dos “eixistas” não registrados e residentes fora da cidade, incluindo São Vicente, Guarujá e localidades próximas.

 

RECURSOS PARA ESCAPAR A (sic) REMOÇÃO

Como tem sido acentuado, os “eixistas” atingidos pela providência do Major Vieria de Mello de modo algum foram colhidos de surpresa, pois há muito estavam avisados de que deviam mudar-se. Abusando da tolerância da autoridade, a maioria foi ficando e, com o tempo, chegaram a desistir de cumprir as determinações recebidas, naturalmente na presunção de que tudo, afinal , ficaria como estava e ninguém precisaria arredar o pé do lugar.

Resultado dessa falsa crença foi acontecer, para eles, o pior. De uma hora para outra tiveram que levantar acampamento. A princípio muitos ainda não acreditavam na efetivação da medida e pretenderam recalcitrar. A energia e severidade da autoridade, porém, os chamaram à realidade.

Mesmo assim houve os que tentaram reagir ou retardar a execução da medida policial, apresentando uma série infindável de recursos, sobressaindo entre eles os “doentes”, que ocorreram aos médicos afim de conseguir atestados. Deparamos com numerosos deles que se diziam portadores de moléstias de toda natureza. Um simples resfriado era o bastante para requerer “repouso absoluto” e impedir que o “paciente” saísse sequer a rua, principalmente nesses dias que correm (sic), em que Santos tem experimentado uma temperatura algo fria. Nessas condições, subira a serra, ainda que bem agasalhado e medicado era sujeitar-se a grandes males. Primeiramente, quem surgiu com esse recurso de última hora, foram os alemães. Posteriormente, ao descobrirem o hábil truque, os japoneses formaram fila.

NÃO FALTARAM PISTOLÕES

Paciente e zelosamente, o delegado a Ordem Pública, ao compreender os recursos, tratou de anulá-los a todos, sem qualquer contemplação. Os alemães, ainda em primeiro lugar, quando verificaram a insuficiência do método, passaram a lançar mão dos “pistolões”. Queriam, quando não uma execução, pelo menos adiar a partida e outros privilégios. O delegado Affonso Celso teve que resistir a tremendos “cercos” encaminhando os “recomendados” ao delegado Nelson da Veiga. Essa autoridade os recebia atenciosamente, mostrando lhes a impossibilidade de qualquer proteção. Alguns insistiam.

E a autoridade, já cansada de tanta insistência, encontrava jeito para contentá-los - e desiludi-los afinal. Algumas vezes, vimo-lo, com ar compreensível :

- (ilegível) vá lá uma concessãozinha, especialmente para o senhor... e para mais ninguém. Enves (sic) de embarcar já, pode embarcar daqui há (sic) uma hora. Se não pode embarcar no tem das 2, consinto que embarque no trem das 4 horas.

E assim todos desistiram de qualquer reação.

PADRES ALEMÃES

A medida foi tão rigorosa que nem os padres escaparam. Todos os sacerdotes alemães rumaram para São Paulo, o mesmo acontecendo ccom as irmãs religiosas. Também embarcaram os austríacos, os que se diziam judeus e perseguidos pelo nazismo ou vitimas da “Gestapo”.

Alemães e japoneses naturalizados, que tentaram prevalecer-se dessa circunstancia tiveram igualmente a entrar no cordão.

(conclui na pagina 5)

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Na mesma edição, não na pagina 5, há informações sobre a falta de acomodações para os expulsos: 


Reportagem: destinações dos imigrantes expulsos


Transcrição:

Seguem para o interior as primeira levas
de súditos do "eixo" removidos do litoral

Continuam as remoções o litoral paulista - o Clube Lira transformado em hospedaria dos súditos da Alemanha

Prosseguem no Departamento de Imigração e Colonização os trabalhos de registro dos súditos do "eixo" removidos da zona litorânea para a Capital. Cresce o número de alemães e japoneses na Hospedaria daquele Departamento, com a chegada de novas levas. Ainda ontem a noite, foram removidas mais de 674 pessoas. O major Vieira de Mello, que pessoalmente está acompanhando os trabalhos, providenciou, então, um novo alojamento para os súditos da Alemanha, sendo para isso destinadas as dependencias do Clube Lira.

A reportagem da Folha da Noite pode apurar, ainda, que já foi iniciada, ontem a noite, a distribuição dos súditos do "eixo" para o interior paulista em cidades onde não há tropas militares. Hoje pela manhã, em trem da Sorocabana, seguiu uma leva para Presidente Prudente.

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E na mesma edição, informações sobre o desenrolar do processo:

Reportagem: expulsao dos japoneses do litoral


Transcrição dessa notícia, para melhor legibilidade:

TODOS OS JAPONESES E ALEMÃES

UM QUE REAGIU COM VIOLÊNCIA

Como temos acentuado, as autoridades policiais de Santos teem agido com o máximo acerto e segurança e adotaram todas as providencias a tempo de evitar atropelos e embaraços. O embarque se processa com regularidade e o tratamento dispensado aos "eixistas" é absolutamente humano. Nada de violência ou humilhação. Todas as facilidades são proporcionadas, indistintamente. 

Compreendendo esse fato, os referidos súditos se tem comportado bem, não criando dificuldades à ação policial. Apenas os alemães, como, aliás, não é de admirar, não ... (ilegivel) ...atitude arrogante. Mas se submeteram ao fato consumado.

Só registraram um único caso de reação violenta, por parte de um japonês. Trata-se de (nome ilegível) indivíduo que (ilegivel) passagens pela polícia (restante do texto ilegível) 

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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Mais de 1.500 japoneses levados para capital

 

Continuando a explorar o assunto expulsão dos japoneses do litoral paulista, neste post transcrevo uma reportagem do jornal A Tribuna. Segundo a reportagem, o processo de expulsão foi aceito passivamente pelos japoneses, e não houve nenhum caso de resistência. Por outro lado, os agentes do governo encarregados da tarefa agiram de forma respeitosa. 


Imigrantes japoneses exxpulsos do litoral




Jornal A Tribuna – edição de 10 de julho, 1943

Transcrição da reportagem :

Mais de 1.500 súditos japoneses removidos, ontem, para capital

A medida determinada  pelo major  Vieira de Melo, superintendente da Ordem Politica e Social, quanto a imediata transferência de súditos japoneses e alemães  para a capital e subequente redistribuição para o interior Estado, processa-se em nossa cidade com plena regularidade. esforçando-se a polícia para perfeita execução dessa providência inédita no país e que não revela qualquer ato de punição, mas inspirada nos altos interesses da segurança nacional.

A remoção de japoneses e alemães, iniciada anteontem, continuou durante o dia de ontem, quando foram embarcados para a capital nada menos de 1549 pessoas daquelas nacionalidades, predominando entretanto, o elemento amarelo.

Os alemães foram os primeiros a embarcar e muitos deles preferiram viajar espontaneamente e a expensas próprias.

Praticamente, não há mais alemães na cidade. E os japoneses, em número consideravelmente maior, também já foram expurgados, em sua maioria, havendo entretanto, milhares deles residentes na larga faixa litorânea que ainda aguardam embarque nos seus centros domiciliares. Todos, porém, já foram notificados, de maneira que dentro de poucas horas todo o litoral estará varrido dos súditos nipônicos.

ORDEM E DISCIPLINA

Todos os detalhes de transferência desses estrangeiros decorreram sem atropelo, em ambiente de tranquilidade e de respeito, não se registrando qualquer incidente. Aliás, os investigadores encarregados do serviço agem ponderadamente, evitando qualquer constrangimento aos estrangeiros.

OS EMBARQUES DE ONTEM

As 10 horas de ontem (09/07/1943), em composição especial da Inglesa, foram embarcados para a capital 775 súditos japoneses e alemães, aqueles em número extraordinariamente maior. Seus documentos de identidade são recolhidos pelas autoridades policiais encarregadas de sua custódia, recebendo-os posteriormente, depois do registro na Hospedaria de Imigração.

No período da tarde, nova composição especial conduziu para a capital 774 japoneses, fazendo-se muitos deles acompanhar de suas famílias. O serviço de embarque decorreu em boa ordem.

QUASE TODOS QUEREM RESIDIR NA CAPITAL

A reportagem teve ocasião de abordar alguns súditos nipônicos um pouco antes do seu embarque. Mostravam-se conformados com a medida policial. Um ancião, antigo morador da Ponta da Praia, comentava, entristecido, que residia em Santos há 25 anos e durante todo esse tempo não havia se afastado da cidade. Atendeu prontamente á instrução para o embarque, conformando-se com a situação, mas receberia com angústia qualquer ordem de fixação de residência fora da capital do Estado. Aliás, a maioria deles prefere residir em São Paulo.

 

VENDENDO TUDO A QUALQUER PREÇO

Colhidos de surpresa, pela medida da Ordem Política e Social, numerosos japoneses trataram de se desfazer dos seus bens. No Marapé, na Ponta da Praia, e em Santa Maria, houve verdadeira corrida para a venda de suínos, galináceos, muares, etc... Os japoneses – quase todos proprietários de chácaras – expuseram a venda quase tudo quanto possuíam. Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regateamento. Sabe-se de um deles que, para se desfazer de sua chácara em Santa Maria, vendeu três porcos, uma carroça e um muar pela quantia de mil cruzeiros. E galinhas? Essas foram vendidas a três e dois cruzeiros a cabeça.

NA HOSPEDARIA DA IMIGRAÇÃO

São Paulo, 9 (Da Sucursal) – Continuam a chegar a esta capital os súditos japoneses e alemães que residiam em Santos e na região do litoral sul e norte do Estado. Durante o dia de ontem, em dois trens especiais, chegaram ao edifício da Imigração 1549 nipônicos e alemães, aqueles em maior parte.

Após o competente registro, os estrangeiros são conduzidos aos alojamentos, onde há limpeza e conforto. A alimentação é farta e saborosa.

Há cerca de 4.000 japoneses e alemães recolhidos à Imigração.

Esses estrangeiros, quando perguntados qual a cidade em que pretendem continuar suas atividades, optam impreterivelmente pela capital. Entretanto, o critério adotado parece ser dos mais justos, porquanto cada pessoa ou família é destinada a uma cidade apropriada para o desenvolvimento da profissão de seu chefe (chefe da família)..

Os japoneses em sua maioria vieram acompanhados de suas famílias. Há muitas crianças na Hospedaria da Imigração. Verificaram-se dois casos de moléstias: o de uma criança atacada de sarampo e de uma velhinha acometida de maleita. Os médicos providenciaram imediatamente o isolamento desses enfermos, os quais estão sendo cuidado com todo o carinho profissional.

REMESSA PARA O INTERIOR DO ESTADO

A remessa de nipônicos e alemães para o interior do Estado começou na noite de hoje. Não serão removidos para cidades onde exista quartel do Exército, sendo, porém, as demais localidades de livre escolha. As famílias que não dispõem de recursos serão encaminhadas aos prefeitos municipais e terão toda a assistência até normalizar a situação particular de cada um.

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👉 Clique aqui - o Globo - Remoção de todos os súditos...

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domingo, 21 de junho de 2026

Expulsão dos japoneses de El Dorado e Santo Amaro

A expulsão dos japoneses de El Dorado e Santo Amaro

Continuo a contar a história da expulsão através de reportagens de jornais da época. 

Reportagem da Folha da Manhã, de 08/07/1943, edição extra.

A reportagem informa que a ação se estendeu a El Dorado (proximidades do Interlagos) e Represa de Santo Amaro (atual Represa Guarapiranga).

Folha-noite-expulsao-japoneses-santo-amaro


Expulsao japoneses de Santo Amaro 



Folha da Noite, 08/07/1943
 
Afastados também todos os eixistas de El Dorado e  região de Santo Amaro
 
A Superintendencia de Ordem Politica e Social esta presentemente empenhada na maior campanha que já se realizou no Brasil, como medida de caráter preventivo em favor da segurança nacional: esta “varrendo” a extensa faixa do litoral paulista todos os súditos do “eixo” cuja presença (ilegível) é inconveniente, como facilmente se pode avaliar.
 
Para completar a obra que vinha  executada com o objetivo de neutralizar possíveis manobras de quinta-(ilegível) Determinou o major Vieira de Mello a “limpeza do litoral, com o que, então, tiveram os súditos dos países inimigos do Brasil com seus movimentos cerceados, (ilegível) pode-se afirmar instintivamente que vai providenciar (ilegível) pelo alcance que representa (ilegível) uma das mais significativas vitorias da nossa policia, mostrando a todos o acerto do critério adotado pelo sr. Corloiano de Goes, Secretário da Segurança Publica, e pelo major Vieira de Mello, o sempre vigilante e ativo Superintendente da Ordem Politica e Social.
 
ÚNICA NO GENERO
Esta ação de limpeza do litoral paulista não encontra semelhante nos anais da historia na nossa policia. Pela primeira vez no Brasil se toma tal providencia e, com tanto acerto que a mesma se vem processando com a máxima normalidade.
    (ilegível) apenas um exemplo de uma operação dessa natureza : no inicio da guerra, as autoridades norte-americanas afastaram os japoneses da costa da California, removendo-os para o interior do país. Hoje sem maior amplitude e completando uma série de providencias em favor da segurança nacional, a policia paulista remove esse quisto com absoluto acerto numa ação que merece especiais louvores, tanto pela (ilegível) maneira como está sendo executada.
 
(TITULO ILEGIVEL)
----ilegivel-----
      Apenas o distrito de Registro ainda não está incluído na relação, mas de acordo com o pensamento do sr. Interventor Federal, será reforçado o destacamento policial ali existente e impedido o movimento dos referidos súditos para o litoral.
      Turmas especiais de investigadores orientadas por experimentadas autoridades na matéria, realizam paciente trabalho de pesquisa e limpeza em toda essa extensa região.
 
LEVAS E LEVAS DE SUDITOS DO “EIXO”
      A partir de ontem a noite começaram a chegar a esta capital várias levas de japoneses e alemães que intimados (ilegível) começaram a atender a ordem das autoridades.
    Os que possuam recursos próprios viajam por sua conta, sob rigoroso controle da Policia, devendo apresentar-se em São Paulo na autoridade indicada. Os demais veem em (ilegível) especiais da S.P.R. em (ilegível)
------ longo trecho ilegível -----
      A ordem de retirada de (ilegível) japoneses, alemães ....(ilegível) ... de 10.000 famlias, que são  (ilegível) com os cuidados que tal operação exige. Neste particular, deve-se dizer que o trabalho das nossas autoridades é digno de louvores, pois todos os retirantes, homens, mulheres e crianças, mereceram atenção necessária.
 
TAMBEM EL DORADO
      Essa salutar providencia de saneamento não se limita ao litoral, atingindo, também, as regiões que cercam pontos vitais de nosso interesse econômico como zona da represa da Light. Todos os súditos do “eixo” que residem nessa região estão sendo afastados pela policia, sendo , assim, removido também esse quisto.
 
A proposito, podemos salientar que El Dorado, o famoso centro que se estende para além da Vila Conceição e que era um verdadeiro núcleo de habitantes germânicos está hoje livre da --- (ilegível) ----.

Continua no próximo post



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Imigração Japonesa ao Brasil–indice


Histórias sobre a imigração japonesa ao Brasil - indice


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Introdução - sobre o blog e o autor



Os primórdios da história da imigração japonesa




    

Ryu Mizuno e Kasato Maru







Diversos assuntos sobre a imigração japonesa





👉Ibaraki Tomojiro, o monge milagroso do Kasato Maru




Preconceito, nacionalismo e perseguição






A expulsão dos súditos do "eixo" do litoral brasileiro












Antecedentes da história da imigração


Antecedentes da história da imigração

A preferencia pelo imigrante europeu


Em 1819, cerca de 400 chineses vieram ao Brasil (então colônia portuguesa) na qualidade de imigrantes contratados. A idéia da Vossa Majestade D. João VI, que aqui se encontrava refugiado, era introduzir o cultivo do chá no Jardim Botânico na Fazenda Imperial Santa Cruz, no Rio de Janeiro. A essa experiência envolvendo os chineses, seguiram-se outras, e todas acabaram em fracassos.

Imigrantes chineses no Rio de Janeiro, c. 1823

Chineses no Rio de Janeiro, gravura de Johann M Rugendas, c 1823

Baseados nesses fracassos com os primeiros imigrantes chineses, e observando-se a experiência dos Estados Unidos (que utilizara chineses na Califórnia), criou-se entre as autoridades brasileiras a idéia de que o asiático (incluiu-se aí os japoneses que sequer ainda tinham presença no Brasil) era uma “etnia inadequada aos interesses do Brasil”. Portanto, até ao desembarque do Kasato Maru, os japoneses não eram benquistos no Brasil. 

Os argumentos, bem fundamentados,  eram vários : que os orientais não se fixariam às terras brasileiras, seriam meros aventureiros que aqui chegariam “nús e famintos” para mais tarde se retirarem “bem vestidos e afortunados”; que não aceitavam a religião católica nem a língua portuguesa. Que conservavam seus costumes e comidas, preterindo as nacionais.

Houve quem dissesse que eram “...raças propensas ao uso do ópio e à prática do suicídio”, o que não deixava de ter certa verdade, considerando que a China nesta época era devastada pelo vício do ópio introduzido pelos ingleses, e ainda existia a lembrança da  prática do sepukku (haraquiri) entre os samurais. .
Outros diziam que o asiático “era fisicamente inferior, portanto não estaria apto aos trabalhos pesados da lavoura”.

A preferência pelos europeus

No entanto, a principal causa desse desprezo aos asiáticos era a preferência pelos europeus. Havia um forte ingrediente racial nesta preferência: a elite brasileira desejava “branquear” a população brasileira, nesta época bastante miscigenada entre portugueses, índios e negros. Entendiam então que os asiáticos, vistos como “raça inferior”, poderia “macular” ainda mais a população brasileira.

Tanto que em 28 de junho de 1890 (pouco depois da proclamação da República), foi aprovado o Decreto número 528, que proibia o ingresso de imigrantes oriundos da Ásia e África. A fim de assegurar os ditames deste decreto, foi estabelecido que a polícia portuária deveria fiscalizar os desembarques. Pesadas multas seriam imputadas aos comandantes das embarcações que desobedecessem tal decreto. Este decreto trata os asiáticos e africanos de "indígenas".


Texto do decreto leo 528 de 28 junho de 1890



Entretanto, no final do século XIX, em consequência da Lei Áurea de 1888, uma séria crise de falta de mão-de-obra assolou as fazendas de café no interior do estado de São Paulo. Os europeus contratados para tal (principalmente os italianos) não se adaptaram ao trabalho e migraram as cidades ou foram para outros países;  ou passaram a exercer outras atividades. Ouve então grande pressão para que o Decreto 528 fosse revogado.

Lei número 97 de 24 de setembro de 1892


Diante disso foi sancionada a Lei numero 97 (24/09/1892), de autoria do deputado Monteiro de Barros, autorizando finalmente a entrada dos asiáticos. 

No entanto, essa lei não determinava que o estado iria subvencionar, promover ou organizar essa imigração, ficando subentendido que a iniciativa privada é que deveria fazer todo trabalho de recrutar, providenciar o transporte, recepcionar, encaminhar, etc. os imigrantes.

Apesar desta lei ser promulgada, não havia ainda um tratado formal entre o Brasil e o Japão, estabelecendo relações diplomáticas e regras para reger a entrada de emigrantes e navios japoneses nos portos brasileiros. Isso aconteceu somente 3 anos depois, em 1895.

LEI N° 97, DE 5 DE OUTUBRO DE 1892 

Permitte livre entrada no território da Republica de immigrantes de nacionalidade chineza e japoneza; autorisa o governo a promover a execucao do tratado de 5 de setembro de 1890 com a China; a celebrar tratado de commercio, paz e amizade com o Japao, e da outras providencias attinentes immigracao daquellas procedencias. 

0 Vice-Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil: 

Faco saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a seguinte lei: 

Art. 1° É permittida a livre entrada, no territorio da Republica, a immigrantes de nacionalidade chineza e japoneza, comtanto que, nao sendo indigentes, mendigos, piratas, nem sujeitos a accao criminal em seus paizes, sejam validos e aptos para trabalhos de qualquer industria. 

Art. 2° 0 governo fica autorisado: 

1° A promover a execucao do tratado celebrado com a China ern 5 de setembro de 1880; 
 2° A celebrar tratado de commercio, paz e amizade com o Japao; 
3° A estabelecer agentes diplomáticos e consulares nesses paizes, afim de manter com elles boas relacões e especialmente encarregados esses ou outros agentes de fiscalizar, de modo efficaz a evitar abusos, a immigracao que desses paizes se dirigir para o Brazil. 

Art. 3° Revogam-se as disposicOes em contrario. 

0 Ministro de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas o faca executar. 

Capital Federal, 5 de outubro de 1892, 4° da Republica. 

Floriano Peixoto. Serzedello Correa. 


Outro fato decisivo para a vinda e aceitação dos japoneses foi a proibição na Italia do envio de emigrantes ao Brasil, em 1902. O governo italiano alegou que os imigrantes italianos estavam sendo vitimas de maus tratos e semi-escravidão aqui no Brasil.

A partir do inicio do século XX, surgiram as companhias de imigração no Brasil, e as de emigração no Japão, dando início a história da imigração japonesa no Brasil.

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