Continuando a explorar o assunto expulsão dos japoneses do litoral paulista, neste post transcrevo uma reportagem do jornal A Tribuna. Segundo a reportagem, o processo de expulsão foi aceito passivamente pelos japoneses, e não houve nenhum caso de resistência. Por outro lado, os agentes do governo encarregados da tarefa agiram de forma respeitosa.
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| Imigrantes japoneses exxpulsos do litoral |
Jornal A Tribuna – edição
de 10 de julho, 1943
Transcrição da reportagem :
Mais de 1.500 súditos japoneses removidos, ontem, para capital
A medida determinada pelo major
Vieira de Melo, superintendente da Ordem Politica e Social, quanto a
imediata transferência de súditos japoneses e alemães para a capital e subequente redistribuição
para o interior Estado, processa-se em nossa cidade com plena regularidade.
esforçando-se a polícia para perfeita execução dessa providência inédita no
país e que não revela qualquer ato de punição, mas inspirada nos altos
interesses da segurança nacional.
A remoção de japoneses e alemães,
iniciada anteontem, continuou durante o dia de ontem, quando foram embarcados
para a capital nada menos de 1549 pessoas daquelas nacionalidades, predominando
entretanto, o elemento amarelo.
Os alemães foram os primeiros a
embarcar e muitos deles preferiram viajar espontaneamente e a expensas
próprias.
Praticamente, não há mais alemães
na cidade. E os japoneses, em número consideravelmente maior, também já foram
expurgados, em sua maioria, havendo entretanto, milhares deles residentes na
larga faixa litorânea que ainda aguardam embarque nos seus centros
domiciliares. Todos, porém, já foram notificados, de maneira que dentro de
poucas horas todo o litoral estará varrido dos súditos nipônicos.
ORDEM E DISCIPLINA
Todos os detalhes de
transferência desses estrangeiros decorreram sem atropelo, em ambiente de
tranquilidade e de respeito, não se registrando qualquer incidente. Aliás, os
investigadores encarregados do serviço agem ponderadamente, evitando qualquer
constrangimento aos estrangeiros.
OS EMBARQUES DE ONTEM
As 10 horas de ontem (09/07/1943),
em composição especial da Inglesa, foram embarcados para a capital 775 súditos
japoneses e alemães, aqueles em número extraordinariamente maior. Seus
documentos de identidade são recolhidos pelas autoridades policiais
encarregadas de sua custódia, recebendo-os posteriormente, depois do registro
na Hospedaria de Imigração.
No período da tarde, nova
composição especial conduziu para a capital 774 japoneses, fazendo-se muitos
deles acompanhar de suas famílias. O serviço de embarque decorreu em boa ordem.
QUASE TODOS QUEREM RESIDIR NA
CAPITAL
A reportagem teve ocasião de
abordar alguns súditos nipônicos um pouco antes do seu embarque. Mostravam-se
conformados com a medida policial. Um ancião, antigo morador da Ponta da Praia,
comentava, entristecido, que residia em Santos há 25 anos e durante todo esse
tempo não havia se afastado da cidade. Atendeu prontamente á instrução para o
embarque, conformando-se com a situação, mas receberia com angústia qualquer
ordem de fixação de residência fora da capital do Estado. Aliás, a maioria
deles prefere residir em São Paulo.
VENDENDO TUDO A QUALQUER PREÇO
Colhidos de surpresa, pela medida
da Ordem Política e Social, numerosos japoneses trataram de se desfazer dos
seus bens. No Marapé, na Ponta da Praia, e em Santa Maria, houve verdadeira
corrida para a venda de suínos, galináceos, muares, etc... Os japoneses – quase
todos proprietários de chácaras – expuseram a venda quase tudo quanto possuíam.
Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regateamento. Sabe-se de um
deles que, para se desfazer de sua chácara em Santa Maria, vendeu três porcos,
uma carroça e um muar pela quantia de mil cruzeiros. E galinhas? Essas foram
vendidas a três e dois cruzeiros a cabeça.
NA HOSPEDARIA DA IMIGRAÇÃO
São Paulo, 9 (Da Sucursal) –
Continuam a chegar a esta capital os súditos japoneses e alemães que residiam
em Santos e na região do litoral sul e norte do Estado. Durante o dia de ontem,
em dois trens especiais, chegaram ao edifício da Imigração 1549 nipônicos e
alemães, aqueles em maior parte.
Após o competente registro, os
estrangeiros são conduzidos aos alojamentos, onde há limpeza e conforto. A
alimentação é farta e saborosa.
Há cerca de 4.000 japoneses e
alemães recolhidos à Imigração.
Esses estrangeiros, quando
perguntados qual a cidade em que pretendem continuar suas atividades, optam
impreterivelmente pela capital. Entretanto, o critério adotado parece ser dos
mais justos, porquanto cada pessoa ou família é destinada a uma cidade apropriada
para o desenvolvimento da profissão de seu chefe (chefe da família)..
Os japoneses em sua maioria
vieram acompanhados de suas famílias. Há muitas crianças na Hospedaria da
Imigração. Verificaram-se dois casos de moléstias: o de uma criança atacada de
sarampo e de uma velhinha acometida de maleita. Os médicos providenciaram
imediatamente o isolamento desses enfermos, os quais estão sendo cuidado com
todo o carinho profissional.
REMESSA PARA O INTERIOR DO
ESTADO
A remessa de nipônicos e alemães para o interior do Estado começou na noite de hoje. Não serão removidos para cidades onde exista quartel do Exército, sendo, porém, as demais localidades de livre escolha. As famílias que não dispõem de recursos serão encaminhadas aos prefeitos municipais e terão toda a assistência até normalizar a situação particular de cada um.
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