A expulsão dos alemães e japoneses do litoral paulista
Continuando com a série de reportagens de jornais da época,
cobrindo o episódio da expulsão dos japoneses, alemães e italianos do litoral
do Brasil. Essa reportagem acrescenta alguns fatos novos, como as tentativas de
escapar da expulsão.
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| Reportagem: japoneses e alemães expulsos do litoral |
Essa é a transcrição da reportagem, para melhor leitura:
Folha da Noite, 10 de julho de 1943
TODOS ALEMÃES E JAPONESES DE SANTOS
Já foram removidos para São Paulo.
Continuam a chegar trens
repletos de “eixistas” procedentes do litoral – os alemães inventam
enfermidades para escapar da medida policial – austríacos e perseguidos pela
“Gestapo”
Santos, 9 (Do enviado especial da
“Folha da Noite”, pelo telefone) – continuam os Srs. Affonso Celso, delegado
auxiliar e Nelson da Veiga, delegado a Ordem Pública de Santos, a dispender
esforços no sentido de terminar o envio de japoneses e alemães para São Paulo,
em cumprimento às ordens emanadas da superintendência de Segurança Pública e
Social, major Vieira de Mello.
EMBARCADOS TODOS OS JAPONESES E ALEMÃES RESIDENTES NA CIDADE
Graças às medidas preventivas
postas em prática pelo delegado auxiliar o titular da Ordem Pública já
conseguiu embarcar para São Paulo todos os japoneses registrados e que residiam
na cidade, o mesmo acontecendo com os alemães, cujo total é de 700
aproximadamente. Pela manhã de hoje embarcaram 773 pessoas e a noite o total de
embarcados atingiu a 600. (ilegível) somente hoje, deixaram esta cidade
1373 “eixistas”. Incluindo os que embarcaram ontem temos o total de 2075. Não
estão computados na cifra acima os que seguiram por conta própria, bem como as
crianças menores de 3 anos. A estimativa geral é de cerca de 3.000 pessoas.
A partir de amanhã as autoridades
providenciarão o embarque dos “eixistas” não registrados e residentes fora da
cidade, incluindo São Vicente, Guarujá e localidades próximas.
RECURSOS PARA ESCAPAR A (sic) REMOÇÃO
Como tem sido acentuado, os
“eixistas” atingidos pela providência do Major Vieria de Mello de modo algum
foram colhidos de surpresa, pois há muito estavam avisados de que deviam
mudar-se. Abusando da tolerância da autoridade, a maioria foi ficando e, com o
tempo, chegaram a desistir de cumprir as determinações recebidas, naturalmente
na presunção de que tudo, afinal , ficaria como estava e ninguém precisaria
arredar o pé do lugar.
Resultado dessa falsa crença foi
acontecer, para eles, o pior. De uma hora para outra tiveram que levantar
acampamento. A princípio muitos ainda não acreditavam na efetivação da medida e
pretenderam recalcitrar. A energia e severidade da autoridade, porém, os
chamaram à realidade.
Mesmo assim houve os que tentaram
reagir ou retardar a execução da medida policial, apresentando uma série
infindável de recursos, sobressaindo entre eles os “doentes”, que ocorreram aos
médicos afim de conseguir atestados. Deparamos com numerosos deles que se
diziam portadores de moléstias de toda natureza. Um simples resfriado era o
bastante para requerer “repouso absoluto” e impedir que o “paciente” saísse
sequer a rua, principalmente nesses dias que correm (sic), em que Santos
tem experimentado uma temperatura algo fria. Nessas condições, subira a serra,
ainda que bem agasalhado e medicado era sujeitar-se a grandes males.
Primeiramente, quem surgiu com esse recurso de última hora, foram os alemães.
Posteriormente, ao descobrirem o hábil truque, os japoneses formaram fila.
NÃO FALTARAM PISTOLÕES
Paciente e zelosamente, o
delegado a Ordem Pública, ao compreender os recursos, tratou de anulá-los a
todos, sem qualquer contemplação. Os alemães, ainda em primeiro lugar, quando
verificaram a insuficiência do método, passaram a lançar mão dos “pistolões”.
Queriam, quando não uma execução, pelo menos adiar a partida e outros
privilégios. O delegado Affonso Celso teve que resistir a tremendos “cercos”
encaminhando os “recomendados” ao delegado Nelson da Veiga. Essa autoridade os
recebia atenciosamente, mostrando lhes a impossibilidade de qualquer proteção.
Alguns insistiam.
E a autoridade, já cansada de
tanta insistência, encontrava jeito para contentá-los - e desiludi-los afinal.
Algumas vezes, vimo-lo, com ar compreensível :
- (ilegível) vá lá uma
concessãozinha, especialmente para o senhor... e para mais ninguém. Enves (sic)
de embarcar já, pode embarcar daqui há (sic) uma hora. Se não pode
embarcar no tem das 2, consinto que embarque no trem das 4 horas.
E assim todos desistiram de
qualquer reação.
PADRES ALEMÃES
A medida foi tão rigorosa que nem
os padres escaparam. Todos os sacerdotes alemães rumaram para São Paulo, o
mesmo acontecendo ccom as irmãs religiosas. Também embarcaram os austríacos, os
que se diziam judeus e perseguidos pelo nazismo ou vitimas da “Gestapo”.
Alemães e japoneses
naturalizados, que tentaram prevalecer-se dessa circunstancia tiveram
igualmente a entrar no cordão.
(conclui na pagina 5)
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Na mesma edição, não na pagina 5, há informações sobre a falta de acomodações para os expulsos:
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| Reportagem: destinações dos imigrantes expulsos |
Transcrição:
Seguem para o interior as primeira levas
de súditos do "eixo" removidos do litoral
Continuam as remoções o litoral paulista - o Clube Lira transformado em hospedaria dos súditos da Alemanha
Prosseguem no Departamento de Imigração e Colonização os trabalhos de registro dos súditos do "eixo" removidos da zona litorânea para a Capital. Cresce o número de alemães e japoneses na Hospedaria daquele Departamento, com a chegada de novas levas. Ainda ontem a noite, foram removidas mais de 674 pessoas. O major Vieira de Mello, que pessoalmente está acompanhando os trabalhos, providenciou, então, um novo alojamento para os súditos da Alemanha, sendo para isso destinadas as dependencias do Clube Lira.
A reportagem da Folha da Noite pode apurar, ainda, que já foi iniciada, ontem a noite, a distribuição dos súditos do "eixo" para o interior paulista em cidades onde não há tropas militares. Hoje pela manhã, em trem da Sorocabana, seguiu uma leva para Presidente Prudente.
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E na mesma edição, informações sobre o desenrolar do processo:
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| Reportagem: expulsao dos japoneses do litoral |
Transcrição dessa notícia, para melhor legibilidade:
TODOS OS JAPONESES E ALEMÃES
UM QUE REAGIU COM VIOLÊNCIA
Como temos acentuado, as autoridades policiais de Santos teem agido com o máximo acerto e segurança e adotaram todas as providencias a tempo de evitar atropelos e embaraços. O embarque se processa com regularidade e o tratamento dispensado aos "eixistas" é absolutamente humano. Nada de violência ou humilhação. Todas as facilidades são proporcionadas, indistintamente.
Compreendendo esse fato, os referidos súditos se tem comportado bem, não criando dificuldades à ação policial. Apenas os alemães, como, aliás, não é de admirar, não ... (ilegivel) ...atitude arrogante. Mas se submeteram ao fato consumado.
Só registraram um único caso de reação violenta, por parte de um japonês. Trata-se de (nome ilegível) indivíduo que (ilegivel) passagens pela polícia (restante do texto ilegível)
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