sábado, 3 de outubro de 2026

Koutakusei e Vila Amazonia - o inicio

 

O inicio desta história - as concessões de Yamanishi e Awazu

Em 11 de março de 1927, Genzaburo Yamanishi, um jovem empresário de Tóquio, veio ao Brasil e se juntou a Kinroku Awazu, que havia emigrado para o Brasil em 1914 e residia no Rio de Janeiro.

 Os dois, assessorados pelo então embaixador japonês no Brasil Akira Ariyoshi, com Awazu fazendo papel de intérprete, firmaram um acordo com o Estado do Amazonas, na época governado por Ephigenio Ferreira de Salles, para a concessão gratuita de terras. Conseguiram inacreditáveis 14 milhões  de hectares de terras estatais, uma área absurdamente gigante, equivalente a 140.000 km2, ou seja, uma área do tamanho do estado do Amapá.

Entretanto, essa doação seria consolidada dentro das seguintes condições: a área deveria ser dividida em 14 lotes de 1 milhão de hectares; cada um desses lotes deveria ser explorado por uma empresa investidora diferente (uma empresa não poderia ter dois lotes); apresentar investidor no prazo de 2 anos e iniciar a vinda de colonos no terceiro ano.

A empresa deveria firmar um acordo com o Governo do Estado do Amazonas para a construção de uma colônia japonesa no lote demarcado, e deveria ser povoada por pelo menos 10.000 famílias de imigrantes japoneses dentro de 50 anos. A média seria então de 100 hectares por família (cerca de 40 alqueires paulista).

Sem tempo para reunir 14 investidores, Yamanishi e Awazu deveriam portanto, às suas próprias custas, demarcar um total de um milhão de hectares de terras estatais no Amazonas, dentro de um prazo de dois anos. Após a seleção da área, Yamanishi e Awazu deveriam constituir uma empresa no Japão, para investir na Amazonia, no prazo de um ano. Mas não tinham recursos para esses trabalhos.

Yamanishi retornou ao Japão e tentou convencer investidores para alavancar o projeto de desenvolvimento de 1 milhão de hectares, mas não foi bem sucedido, devido à crise financeira.

Akira Ariyoshi - embaixador japones no Brasil

Yamanishi e Awasu cedem a concessão

Sem conseguir investidores, Yamanishi e Awazu cederam os direitos ao membro da Câmara dos Representantes Tsukasa Uetsuka. Este, era um profundo estudioso de ocupação e colonização ultramarina japonesa, se entusiasmou pelo projeto, e conseguiu investidores de peso, entre eles Mitsui, Sumitomo e Mitsubishi.

Foi fundada então uma escola em Tóquio, a Kokushikan Koto Takushoku Gakko, para atender aos objetivos do projeto (veja página específica sobre esta escola).

Uetsuka enviou ao Amazonas equipes de levantamento topográfico para analisar e selecionar terras em 1928 e em 1930 (a segunda equipe, liderada pelo próprio Uetsuka, foi enviada com uma verba do governo).

Missão topográfica de Tsukaza Uetsuka no Amazonas, 1930

Fundação da Vila Amazonia e do  Centro de Pesquisa Industrial da Amazônia

Após a seleção, um terreno a dois quilômetros rio abaixo da cidade de Parintins foi adquirido e denominado "Vila Amazônia". Ironicamente, o projeto tinha 1 milhão de hectares, mas Uetsuka teve que comprar a área da vila, pois ela estava fora da concessão.

O Centro de Pesquisa Industrial da Amazônia (ou "Instituto Amazonas") foi estabelecido nesse local em 21 de outubro de 1930, com uma estação experimental agrícola, uma estação de observação meteorológica, um hospital, alojamentos, kaikan, etc. Também foi criada na vila a escola  "Jitsugyou Renshu-Sho" (Centro de Treinamento de Práticas Agrícolas).

Fotograma do Centro Industrial ("Instituto Amazonas")

O Currículo da escola era o seguinte:

(1) -Moral e ética da nação japonesa, 1 hora por semana;127

(2) -Língua portuguesa, 18 horas por semana;

(3) -História de colonização do mundo, 1 hora por semana;

(4) -Política de colonização do mundo, 1 hora por semana;

(5) -Aspectos econômicos da América do Sul, 2 horas por semana;

(6) -Geografia e história da América do Sul, 2 horas por semana;

(7) -Noçõesde agricultura, 1 hora por semana;

(8) -Noções de pecuária, 1 hora por semana;

(9) -Noções de engenharia civil e arquitetura, 1hora por semana;

(10) -Noções de agrimensura, 1 hora por semana;

(11) -Noções de cooperativismo, 1 hora por semana;

(12) -Treinamento de judô e kendô, 2 horas por semana;


Kaikan da Vila Amazônia

Dos 14 milhões, Uetsuka conseguiu oficialmente a concessão de 1 milhão. Os demais 13 milhões, foram “perdidos”, pois não houve investidores interessados.

 

Em outubro de 1940, Uetsuka veio ao Brasil, e foi recebido pelo presidente Vargas.

Getulio Vargas recebe Uetsuka (no centro)

Em uma reportagem na revista King, de grande circulação no Japão, Uetsuka descreve a concessão e convida mais investidores.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Os koutakussei - indice

 👉 01 - Quem eram os koutakussei ? 

 👉 02 - O inicio da história dos koutakussei- a Vila Amazonia




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Koutakussei treinando capina


Os koutakussei - quem foram ?

 
Os koutakussei – quem eram?

Os jovens formados pela escola de colonização Koto Takushoku Gakko foram batizados de “ koutakussei”. Essa escola foi fundada com o objetivo de formar jovens imigrantes dispostos a fazer parte de um projeto de colonização no Amazonas. O curso durava um ano, e entre outras coisas, ensinava lingua portuguesa, técnicas agrícolas, geografia do Brasil. 

Eles diferiam dos demais imigrantes da época por terem preparo técnico prévio, a intenção voluntária (não forçada pela pobreza) de se emigrar a Amazonia com o compromisso de se estabelecerem definitivamente no Brasil. Aliado a isso, vieram dentro de um plano pré-concebido, fazendo parte de um investimento agrícola-fundiário, e chegaram ao Brasil com uma estrutura já formalizada para os receberem.

Outra diferença era que ao contrário dos demais imigrantes da época, a maioria dos koutakussei eram jovens de classe média. Portanto, trocaram uma vida confortável e com certo sucesso no futuro no Japão pela opção de vir ao Brasil.

O projeto trouxe ao Brasil 541 imigrantes, destes 248 eram koutakussei, 240 agregados (esposas, etc) e os demais eram funcionários da empresa colonizadora ou técnicos.

Os koutakussei não entendiam o porquê dos brasileiros não terem disposição nem vontade de explorar tanta terra disponível.

 

As turmas koutakussei

Vieram sete levas (“turmas”) de koutakussei ao Brasil

1ª. turma – 42 koutakussei – 1931

2ª. turma – 52 koutakussei – 1932

3ª. turma – 70 koutakussei – 1933

4ª. turma – 49 koutakussei - 1934

5ª. turma – 14 koutakussei – 1935

6ª. turma – 13 koutakussei - 1936

7ª. turma –  5 koutakussei – 1937


A primeira turma koutakussei

Casamento e família do koutakussei

Praticamente todos vieram solteiros, e se casaram mais tarde por omiai, com noivas vindas do Japão. Essas esposas sofreram dobrado, pois imaginavam encontrar condições melhores de vida.

Os casais koutakussei tiveram muitos filhos, de 6 a 10, e muitos deles ficaram órfãos de pai, de mãe ou de ambos, muito precocemente. Os órfãos eram distribuídos entre orfanatos e famílias da colônia.

Por quê decidiram emigrar ?

Por que um jovem de classe média, com bom nível escolar, vivendo muito bem em Tóquio, se mudaria para o interior de uma floresta desbravada, no outro lado do mundo?

A resposta me parece ser única: tomaram a decisão por arroubo, entusiasmo de juventude; por desejo de realizar um projeto sério, de realizar um sonho.

Acima de tudo, provar que era uma pessoa ousada, capaz e ferrenha em seus propósitos, de ser dono do próprio nariz; coisas típicas da juventude japonesa da época.

O koutakussei desejava dar um significado maior ao seu futuro, ser proprietário de uma propriedade idílica, cheia de arvores frutíferas, lago, plantações; vieram para fazer alguma coisa grandiosa na vida.

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