Os porões da Rua Conde de Sarzedas
Impossível falar da história do
bairro da Liberdade sem comentar sobre essa icônica rua.
Por volta de 1912 os imigrantes
japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, em
cuja parte baixa havia um riacho e uma área de mangue.
Quase todas as casas dessa rua
tinham porão, e os aluguéis dos quartos nesses porões eram muito baratos.
Evidente, não eram nada confortáveis, os porões eram mal iluminados e mal
ventilados.
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| As janelinhas abaixo das janelas grandes são de porões (R. dos Estudantes) |
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| Os porões na Rua Carolina Augusta |
Apesar do preço módico, as
famílias não tinham condições de pagar aluguel sozinhas, e por isso muitas
delas se juntavam e compartilhavam um porão, ou até mesmo uma pequena casa.
Havia muitas
"repúblicas" de moças e rapazes solteiros.
Para aqueles imigrantes, aquele
cantinho ignorado da cidade de São Paulo significava esperança por dias
melhores. A rua foi escolhida não só pelo preço dos aluguéis, mas também devido
à proximidade com a Praça da Sé, de onde partiam os bondes. Dali, podiam pegar
o transporte coletivo para irem trabalhar.
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| Bairro Liberdade |
Os produtos japoneses na Conde de Sarzedas
Aos poucos começaram a surgir as atividades comerciais voltadas ao imigrante japonês: empório, uma casa que fabricava tofu, outra que fabricava manju, agencia de empregos, tornando a Conde de Sarzedas “a rua da japonesada”. Porém o grande atrativo da rua era um estabelecimento que vendia shoyu. Esse local atraia muitos imigrantes japoneses que vinham à São Paulo e voltavam ao interior carregados de shoyu. A introdução desse molho no Brasil melhorou muito os hábitos alimentares dos japoneses: passaram a apreciar, finalmente, o sukiyaki, o sashimi, o nishime, o daikon, etc.
A vida japonesa fervilhava na
Conde de Sarzedas, de tal forma que se formavam pequenos grupos, associações
recreativas, e até time de beisebol.
Por fazer esquina com a Conde de
Sarzedas, a Rua Tomás de Lima também foi aos poucos tomada por imigrantes
japoneses.
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| A Conde de Sarzedas, retratada pelo artista Tomoo Handa |
A vida difícil dos imigrantes da Conde de Sarzedas
Não foi nada fácil a vida dos
primeiros imigrantes japoneses da Conde de Sarzedas. Como não falavam o português,
era difícil arranjar um bom emprego. Entretanto, havia uma grande vantagem: os
japoneses tinham, apesar de não falarem o português, fama de trabalhador dedicado,
responsável e disciplinado. Por sua vez, o japonês, sendo analfabeto (no romaji,
pois sabiam ler e escrever em japonês) e não falando português, procurava compensar
essas deficiências trabalhando com muita dedicação.
Boa parte trabalhava como carpinteiro,
pedreiro e motorista de caminhão. Alguns conseguiam o emprego de motorista
particular ou empregado de família rica, um emprego muito desejado por todos.
Entretanto o emprego mais comum
era de empregado doméstico, na época, chamado de “copeiro”, exercendo as funções de copa, serviços de faxina, auxiliar de cozinheiro, jardineiro e lavador de pratos.
O vicio pelo jogo do bicho
O jogo do bicho era uma das poucas
diversões dos japoneses. Na falta de grandes emoções, de outros
entretenimentos, para dar um pouco de
emoção ao dia, muitos se tornaram jogadores do bicho. Algumas famílias tiveram problemas
com isso, pois perdiam dinheiro, que já era pouco.
O beisebol e o tênis na Conde de Sarzedas
Em 1916 o imigrante Kenji
Sassawara organizou um grupo de beisebolistas, que passaram a treinar num
terreno baldio, na Rua Conde de Sarzedas, que o chamavam de “campo da Sudan”,
pois esse terreno ficava ao lado de algumas instalações da Fábrica de Cigarros Sudan. Talvez seja esse
o primeiro time de yakiyu da história do Brasil.
Em 1925 foi a vez do tênis de
campo: os japoneses inauguraram uma quadra na Sarzedas.
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| Time de beisebol (Yakiyu) no "campo da Sudan" Fonte "O imigrante japonês", Tomoo Handa |
O nihongakko na Rua Conde de Sarzedas
Em 1914 o professor Shinzo Miyazaki passou a lecionar japonês em casa. No ano seguinte criou a Escola Primária Taisho. Mais tarde, em 1919, contratou uma professora, dona Antonia Santos, para lecionar o idioma Portugues. A escola chegou a ter 300 alunos.
A rua Conde de Sarzedas começa a ter ares de
bairro japonês, tendo inclusive um nihongakko.
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| Alunos da Escola Taisho - prof. Shinzo Miyazaki a direita Fonte: "O Imigrante Japones", Tomoo Handa |
Aos poucos, os japoneses
começaram a chegar e morar nas proximidades da Conde de Sarzedas, onde a
Liberdade, como bairro japonês, começou.
Com o passar do tempo e a melhoria da renda familiar, os japoneses abandonaram os porões e alugaram ou compraram moradias melhores.
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| R. Conde de Sarzedas, 1937 |
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Fontes: "O imigrante japonês", Tomoo Handa; "Recordações de um imigrante japonês no Brasil", Kazuo Yokomizo/Ana Paula Momose; e outras









































