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domingo, 18 de outubro de 2026

Bairro da Liberdade - Rua Conde de Sarzedas

 

Os porões da Rua Conde de Sarzedas

Impossível falar da história do bairro da Liberdade sem comentar sobre essa icônica rua.

Por volta de 1912 os imigrantes japoneses passaram a residir na rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, em cuja parte baixa havia um riacho e uma área de mangue.

Quase todas as casas dessa rua tinham porão, e os aluguéis dos quartos nesses porões eram muito baratos. Evidente, não eram nada confortáveis, os porões eram mal iluminados e mal ventilados.

As janelinhas abaixo das janelas grandes são de porões (R. dos Estudantes)

Os porões na Rua Carolina Augusta

Apesar do preço módico, as famílias não tinham condições de pagar aluguel sozinhas, e por isso muitas delas se juntavam e compartilhavam um porão, ou até mesmo uma pequena casa. 

Havia muitas "repúblicas" de moças e rapazes solteiros.

Para aqueles imigrantes, aquele cantinho ignorado da cidade de São Paulo significava esperança por dias melhores. A rua foi escolhida não só pelo preço dos aluguéis, mas também devido à proximidade com a Praça da Sé, de onde partiam os bondes. Dali, podiam pegar o transporte coletivo para irem trabalhar.


Bairro Liberdade 

Os produtos japoneses na Conde de Sarzedas

Aos poucos começaram a surgir as atividades comerciais voltadas ao imigrante japonês: empório, uma casa que fabricava tofu, outra que fabricava manju, agencia de empregos, tornando a Conde de Sarzedas “a rua da japonesada”. Porém o grande atrativo da rua era um estabelecimento que vendia shoyu. Esse local atraia muitos imigrantes japoneses que vinham à São Paulo e voltavam ao interior carregados de shoyu. A introdução desse molho no Brasil melhorou muito os hábitos alimentares dos japoneses: passaram a apreciar, finalmente, o sukiyaki, o sashimi, o nishime, o daikon, etc.

A vida japonesa fervilhava na Conde de Sarzedas, de tal forma que se formavam pequenos grupos, associações recreativas, e até time de beisebol.

Por fazer esquina com a Conde de Sarzedas, a Rua Tomás de Lima também foi aos poucos tomada por imigrantes japoneses. 

A Conde de Sarzedas, retratada pelo artista Tomoo Handa

A vida difícil dos imigrantes da Conde de Sarzedas

Não foi nada fácil a vida dos primeiros imigrantes japoneses da Conde de Sarzedas. Como não falavam o português, era difícil arranjar um bom emprego. Entretanto, havia uma grande vantagem: os japoneses tinham, apesar de não falarem o português, fama de trabalhador dedicado, responsável e disciplinado. Por sua vez, o japonês, sendo analfabeto (no romaji, pois sabiam ler e escrever em japonês) e não falando português, procurava compensar essas deficiências trabalhando com muita dedicação.

Boa parte trabalhava como carpinteiro, pedreiro e motorista de caminhão. Alguns conseguiam o emprego de motorista particular ou empregado de família rica, um emprego muito desejado por todos.

Entretanto o emprego mais comum era de empregado doméstico, na época, chamado de “copeiro”, exercendo as funções de copa, serviços de faxina, auxiliar de cozinheiro, jardineiro e lavador de pratos.

O vicio pelo jogo do bicho

O jogo do bicho era uma das poucas diversões dos japoneses. Na falta de grandes emoções, de outros entretenimentos,  para dar um pouco de emoção ao dia, muitos se tornaram jogadores do bicho. Algumas famílias tiveram problemas com isso, pois perdiam dinheiro, que já era pouco.

O beisebol e o tênis na Conde de Sarzedas

Em 1916 o imigrante Kenji Sassawara organizou um grupo de beisebolistas, que passaram a treinar num terreno baldio, na Rua Conde de Sarzedas, que o chamavam de “campo da Sudan”, pois esse terreno ficava ao lado de algumas instalações da Fábrica de Cigarros Sudan. Talvez seja esse o primeiro time de yakiyu da história do Brasil.

Em 1925 foi a vez do tênis de campo: os japoneses inauguraram uma quadra na Sarzedas.

Time de beisebol (Yakiyu) no "campo da Sudan"
Fonte "O imigrante japonês", Tomoo Handa

O nihongakko na Rua Conde de Sarzedas

Em 1914 o professor Shinzo Miyazaki passou a lecionar japonês em casa. No ano seguinte criou a Escola Primária Taisho. Mais tarde, em 1919, contratou uma professora, dona Antonia Santos, para lecionar o idioma Portugues. A escola chegou a ter 300 alunos. 

A rua Conde de Sarzedas começa a ter ares de bairro japonês, tendo inclusive um nihongakko.

 

Alunos da Escola Taisho - prof. Shinzo Miyazaki a direita
Fonte: "O Imigrante Japones", Tomoo Handa

Aos poucos, os japoneses começaram a chegar e morar nas proximidades da Conde de Sarzedas, onde a Liberdade, como bairro japonês, começou.

Com o passar do tempo e a melhoria da renda familiar, os japoneses abandonaram os porões e alugaram ou compraram moradias melhores.

R. Conde de Sarzedas, 1937

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Fontes: "O imigrante japonês", Tomoo Handa; "Recordações de um imigrante japonês no Brasil", Kazuo Yokomizo/Ana Paula Momose; e outras

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Proibição do imigrante comprar terras

Segunda Guerra Mundial - As proibições  

Proibição do imigrante comprar terras da União


Uma determinação do órgão do governo federal, o Dominio da União, proibiu a venda de terras de domínio da União, cedidas para projetos de colonização, aos imigrantes dos países do eixo. Alegava que essa proibição estava amparada pelo Decreto Lei 4.166, o do confisco.

A União disponibilizava às empresas de colonização vastas áreas de terras para venda aos imigrantes. O valor da venda era repassado à União.

Embora essa proibição não figurasse no Decreto, os tramites de transferência eram feitos por aquele órgão. Entretanto, era uma determinação sem fundamento jurídico, já que não havia determinação legal.

Provável que os projetos de colonização japonesa, italiana e alemã ficaram paralisados.

Folha da Manhã, 01/04/1942



 


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Proibição de viajar


No inicio da Segunda Guerra Mundial, o japonês não podia viajar sem autorização (salvo-conduto).

Salvo-conduto

Entretanto, em 11 de março de 1942 os salvo-condutos para os japoneses paulistas tiveram sua emissão suspensa. Dessa forma, os japoneses ficaram "ilhados", não podendo mais sair de suas cidades. 

O Globo, 11 de março de 1942


Outras proibições ao imigrante japonês:


- Possuir aparelho de rádio;
- Possuir armas de fogo;
- Ensinamento do idioma japonês (aulas);
- Expressar-se no idioma japonês;

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A ação contra os imigrantes no estado do Rj

 A ação contra os imigrantes no estado do Rj

Sob o argumento do perigo de formação de uma quinta coluna, a polícia do estado do Rio de Janeiro fez uma campanha, prendendo 23 imigrantes e colocando outros 300 “sob cuidados e ininterrupta vigilância”, conforme noticiou o jornal Correio Paulistano, em 29 de janeiro de 1942.

Note que o jornal diz que os vigiados eram apenas “suspeitos”. Quanto aos 23 presos, o jornal não cita exatamente os motivos da prisão, podendo ser por simples desacato e suspeita infundada. Também não cita os nomes dos presos. É provável que passaram por interrogatório rápido e foram liberados em seguida.

Alem das detenções, várias entidades de atividades relacionadas às etnias citadas foram fechadas. 

Correio Paulistano, 29 de janeiro de 1942

As ações foram contra os imigrantes alemães, judeus e italianos, já que a colônia japonesa no estado do Rio de Janeiro, na época, era quase nula. Entretanto, essa reportagem dá uma ideia de como o imigrante, inclusive o japonês, era tratado na época.

Para melhor leitura, segue o texto da reportagem.





O registro dos estrangeiros do eixo

O DOPS do estado do Rio de Janeiro obrigou todos os estrangeiros descendentes dos paises do "eixo" a se registrarem em delegacias de polícia.


O Globo, 20 de fevereiro de 1942


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terça-feira, 25 de agosto de 2026

As condições de higiene e saúde a bordo

 

Cap. 06 - As condições de higiene, saúde e nutrição a bordo

As condições de higiene eram relativamente boas pois todos zelavam pela limpeza. Era questão primordial o zelo, pois todos temiam a proliferação de doenças. 


As superlotações dos navios eram o principal perigo para proliferação de doenças a bordo. O navio Teikoku Maru, por exemplo, partiu em 25/03/1914 do porto de Kobe com nada menos que 1.868 pessoas a bordo, uma superlotação absurda e inadmissível. 


O banho era esporádico, tomado com água salgada seguido de um enxague com água doce e racionada..

 

Mesmo com os cuidados, a falta de saneamento ideal causava proliferação de piolhos e diarreia. A manutenção da limpeza dos banheiros (W.C.) era alvos de especial atenção, com a vantagem de poder ser feita com água salgada. Banheiro sujo era motivo de protestos junto aos supervisores.

 

Alguns tinham enjoo de mar e por isso passavam a maior parte do tempo deitados, e tinham dificuldades em se alimentar. Algumas mulheres grávidas recentes sofriam duplo enjoo, o da gravidez e o do mar.

 

Contrair uma doença significava ter que retornar ao Japão, na chegada ao porto de Santos. Não era permitido a entrada de pessoas com doenças infectocontagiosas no Brasil.

 

 

Havia o medo permanente de surgir algum surto de doença a bordo. Temia-se principalmente a cólera, o sarampo, o tracoma e o tifo. Surtos de gripe eram comuns, devido a aglomeração e má ventilação dos dormitórios.

 

Temia-se o beribéri, pois naquela época os brasileiros consideravam a como doença transmissível (na realidade é uma deficiência nutricional), e por isso quem desembarcava com sintomas de beribéri era repatriado.

 

A taxa de mortalidade das viagens era em média de 0,5 a 1%.


Emigrante a bordo, imagem gerada por I.A.

Dormitório (imagem gerada por I.A.) 
 fonte : Fragmentos da Historia, Youtube

O serviço médico a bordo

 

Todos os navios vinham com um médico e enfermeiras a bordo, que aplicavam vacinas, entre elas a da cólera. Os médicos alertavam aos doentes que era preciso se curar durante a viagem, para não chegar doente em Santos e ser repatriado. O consultório médico vivia sempre lotado.

 

Pelo menos uma sala no navio era reservada para servir de internamento de doentes mais graves.

 

 
A morte de emigrante a bordo

 

Os que morriam a bordo eram enrolados em lençóis com alguns pesos, e após breve cerimônia religiosa, lançados ao mar. Os pesos evitavam que o cadáver boiasse. 


A morte de um emigrante deixava o representante da agência arrasado. Para ele, chegar ao Brasil com todos sãos e salvos era responsabilidade dele, e por isso sentia certo sentimento de culpa e de fracasso.

 

Imigrante morto é lançado ao mar (imagem gerada por I.A.)
Fonte: Fragmentos da Historia, Youtube

O calor nos dormitórios no navio

 

O calor nos dormitórios era um grande problema, principalmente quando a viagem se iniciava no verão japonês e se agravava quando no navio se aproximava à linha do equador.

 

A ventilação era muito precária, pois os porões tinham apenas pequenas escotilhas. Os ventiladores ficavam permanentemente ligados, e por isso sempre queimavam. Para piorar ainda mais, o japonês fumava muito nos dormitórios, piorando a qualidade do ar.

 

Nas noites quentes, todos dormiam descobertos e isso era embaraçoso para as mulheres, pois tinham a privacidade prejudicada.

 

 Algumas crianças desenvolviam brotoejas de forma severa.

 

Devido a impossibilidade de banho e de lavagem de lençóis com frequência, aliado ao calor abafado dos dormitórios, ocorriam surtos de piolho. As mulheres, por terem mais cabelos, sofriam mais com os piolhos. 

 

Eventualmente eram feitas sanitizações de dormitórios. Os colchões eram retirados e o dormitório era pulverizado.


Emigrantes italianos no porão de um navio (sem data)


Um doente recebe refeição no dormitório dos emigrantes

A alimentação do emigrante

 

Peixe seco salgado, mingau de cevada, arroz, pão, soja e conserva de nabo eram a base alimentar, e eram servidos de forma racionada.


É muito provável que era servido ainda picles, biscoitos, geleias de frutas, chás e porco defumado.


Eventualmente eram servidos peixes pescados a bordo.

 

A falta de vitamina C causava escorbuto. Eram servidas três refeições por dia, café da manhã, almoço e chá da tarde.

 

Na falta de arroz, o mingau de cevada era o prato principal, a base da alimentação.

 

O serviço de catering (alimentação a bordo) era terceirizado e os mantimentos eram por conta desse terceirizado. Muitos acusavam o contratado de economizar nas refeições (servindo pouca comida e/ou de qualidade inferior) para assim sobrar mais dinheiro.

 

A empresa não contratava pessoal suficiente, espertamente esperava que ajudantes voluntários se apresentassem para ajudar na cozinha e no refeitório, sem renumeração.

 

Os da primeira classe tinham refeições servidas em refeitório próprio, e menu diferenciado. A eles eram servidos frango e carne bovina.


Refeição de emigrantes na terceira classe do navio


Refeitório de um navio de emigrantes  (Imagem gerada por I.A.) 
 fonte: Fragmentos da Historia, Youtube.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Imigraçao japonesa - primeiros nucleos coloniais

 
Os primeiros núcleos coloniais

As primeiras colônias, de imigrantes independentes, surgiram a partir de 1914. As grandes colônias localizavam-se  em locais remotos, como se fossem um mundo à parte. Os vizinhos mais próximos ficaram a quilômetros de distância. Os colonos não tinham acesso à informação, na zona rural não chegavam jornais ou revistas, e não existia a Tv. As correspondências (correio) não chegavam na zona rural.

Para evitar o isolamento total, as famílias costumavam construir casas próximas, e assim cada uma poderia socorrer outra em caso de necessidade.

O índice de mortalidade era grande. Morria se principalmente de malária, além de picadas de cobras e ferimentos não tratados adequadamente. Doenças infecciosas como gripe, varíola, sarampo etc. não eram comuns devido ao isolamento. Pegava-se essas doenças somente quando iam a cidade.

Uma estrada rústica que ligava a colônia à cidade servia para escoar a produção. Isso era feito a cavalo, em carroças de madeira. Nas temporadas de chuva a estrada poderia ficar lamacenta, dificultando ou impossibilitando o deslocamento. As chuvas mais fortes provocavam erosão na estradinha, que ficava cheia de valas.

A implantação de uma colônia

As colônias surgiam da iniciativa de um empreendedor, que poderia ser uma pessoa ou uma empresa de colonização. Sempre envolvia o estado (Sp, Pr, Es, Ms, Am) ou o município, que davam apoio, fazendo estradas de acesso à nova colônia, cedendo grandes extensões de terras ao empreendedor ou colonizadora.

Essas terras eram então divididas em lotes e vendidas a prestações anuais e em longo prazo. Naqueles tempos, a maioria das terras pertenciam ao governo.

Em geral os empreendedores davam preferência às terras próximas a uma estação ferroviária.

Quem eram os empreendedores

Haviam três tipos de empreendedores.

O tipo de empreendedor mais bem estruturado eram as companhias de imigração subsidiadas pelo governo brasileiro, tais como a Kaigai Kyokai (Associação Ultramarina de Emigração), a Takushoku Kumiai (Cooperativa de Colonização), que providenciavam infra estrutura e suporte econômico.

O segundo tipo era um líder que reunia em torno de si um grupo de imigrantes independentes (que já cumpriram o contrato com as fazendas de café). Esse líder estruturava a colônia juntamente com o governo ou prefeitura. Eram colônias alavancadas por ideais, ambições pessoais. Envolvia coragem, riscos e sofrimentos. Não tinham muito apoio. Os exemplos desse tipo de empreendedor líder são Saburo Kumabe, Unpei Hirano, Shuhei Uetsuka, Ryu Mizuno e Yassutaro Matsubara.

O terceiro tipo de empreendedor era um latifundiário, que loteava suas terras com intuito de vender os lotes aos imigrantes. Esse modelo foi o mais popular de todos. Um exemplo desse tipo de loteamento é a colônia de Antonio Prado, em Ribeirão Preto.

Topografico do Nucleo Colonial Antonio Prado

Como era o começo

O empreendedor em parceria com a prefeitura, com recursos próprios ou advindos de financiamento de instituição bancária fazia a agrimensura, delimitando os lotes de terras. Eram então feitas instalações provisórias para receber o colono. Essas instalações constituíam de um barracão com uma cozinha e algumas camas, um depósito de ferramentas agrícolas, mantimentos, etc  Ali o recém-chegado se instalava e ficava até construir uma casa própria em seu lote.

O empreendedor convidava imigrantes para se instalar na colônia. Em geral vinham em grupos, em várias famílias. Era comum os adultos homens irem primeiro, para construírem a casa, cavar o poço, construir uma horta, etc e após isso vinham as mulheres e crianças.

Os grandes projetos das companhias de imigração tinham melhores estruturas para receber os colonos.

O topógrafo e a agrimensura da colônia

O serviço de agrimensura (levantamento topográfico), feito por topógrafos era o primeiro passo da implantação da colônia. O topógrafo determinava os limites da área e as linhas de delimitação dos lotes a serem vendidos aos imigrantes. Muitas vezes recebia informações vagas a respeito da área, do tipo “esta linha de delimitação começa na beira do Rio Baiano, ali onde os meninos tomam banho e segue em linha reta até um cedro gigante, e chegando nesse cedro a linha quebra levemente a esquerda e segue em linha reta até a uma casinha, onde mora o seu Sebastião. Chegando a essa casinha, pergunte ao Sebastião e ele vai te levar até a um palanque de cimento fincado  no meio do mato, que é a continuação da linha...”

O agrimensor chefiava uma equipe, que montava um acampamento no meio da mata. Esse acampamento era o quartel general, e para montá-lo era preciso levar tudo em lombo de mulas: equipamentos, comida, cobertores, lonas para montar barraca, cordas, etc  Era indispensável no acampamento uma fogueira, que ardia a noite inteira. Ela servia para aquecer o trabalhador, para assar carne (as vezes de alguma caça), cozinhar, espantar os mosquitos e as onças, iluminar, etc

Frequentemente era conveniente transferir o acampamento para outro local.

 Havia casos em que, seguindo as instruções do proprietário, o agrimensor acabava invadindo terras do vizinho, gerando conflitos.

As medições e estabelecimento das linhas eram feitas na base da foice e facão, entrando mata adentro. Era um trabalho dificílimo, e feito nas estações secas.

Os colonos imigrantes japoneses

Após cumprir o contrato empregatício com as fazendas, os imigrantes estavam livres para alguma iniciativa privada, para tornarem-se colonos.

Muitos, durante o transcorrer do contrato, praticaram atividades paralelas com fins lucrativos. Era comum o imigrante, com autorização do fazendeiro, plantar feijão entre as carreiras de café (essas carreiras eram pedaços improdutivos durante a entressafra), e ficar com parte da venda desse feijão.

Entre as fileiras de pés de café havia um corredor de terra improdutiva

Alguns imigrantes arrendavam terras, como meeiros. 

E assim juntaram dinheiro suficiente para, no fim do contrato, comprarem um lote de terras de algum projeto de colonização. Este foi o caso o meu avô paterno: ele arrendou terras e plantou arroz. Com o dinheiro do arroz, comprou terras no sul do estado de São Paulo.

Alguns projetos de colonização não prosperaram, principalmente por causa da malária, e outros não saíram do papel. Entretanto, a maioria das colonias prosperou. Algumas colônias promoveram progresso tal que a cidade vizinha cresceu em função dela. Nestas cidades, esses colonos são carinhosamente chamados de “pioneiros”.

Algumas colônias japonesas no Brasil

Núcleo Juqueri (atual Mairiporã, periferia de São Paulo) – implantada em 1913 e 1914

Nucleo Colonia Cotia (atual Cotia, periferia de São Paulo), surgiu com um grupo de jovens arrendando terras da Igreja.

Fazenda São Joaquim – colônia fundada próximo a Estação Tibiriçá, Bauru (Sp) por imigrantes que se retiraram da Fazenda Dumont.

Colonia Hirano – implantada em 1915, por iniciativa de Unpei Hirano, próximo à Estação Ferroviaria Presidente Pena (atual Cafelândia, Sp)

Nucleo Barbosa, próximo a Estação Ferroviária Albuquerque Lins (Lins, Sp)

Nucleo Itacolomi – implantada em 1918, por iniciativa de Shuhei Uetsuka com a colaboração de Teijiru Suzuki, atual Promissão (Sp).

Colonia Katsura -  Considerada a primeira colônia japonesa oficialmente organizada no país, localizada no Vale do Ribeira. Destacou-se inicialmente no cultivo de arroz e mais tarde, de banana e chá.

Tomé-Açu (PA): Fundada em 1929 na região amazônica, tornou-se famosa pela introdução e pelo sucesso no cultivo da pimenta-do-reino. Produz ainda cacau e juta.

Fazenda Bastos (SP): Fundada em 1928, destacou-se fortemente na avicultura (produção de ovos) e na sericicultura (criação do bicho da seda).

Colônia Aliança (SP): Localizada nos municípios de Promissão e Guaimbê, fundada na década de 1920 com foco na policultura e no cooperativismo.

Fazenda Tres Barras (Pr) – foi um empreendimento da BRATAC – Sociedade Colonizadora do Brasil Ltda, que em 1928 adquiriu 13.600 alqueires no município de São Jerônimo da Serra (Pr) com apoio da Administração Pública do Estado do Paraná e do capital de investidores japoneses. A Fazenda Tres Barras deu origem a cidade de Assaí.

Colonia Cacatu - Antonina (Pr) - fundada a partir de 1917, foi  a primeira colônia japonesa do Paraná.

Colonia de Registro (Sp) da Cia de Colonização KKKK


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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Shindo Renmei-o ministro sueco e o General Gois Monteiro

 

Impressões do Ministro Plenipotenciario Sueco Ragner Kumlin

Após a histórica reunião no Palácio Campos Elíseos,  sede do governo do estado de São Paulo, o Ministro Plenipotenciário Sueco Ragnar Kumlin, se encontrou com o General Goes Monteiro, no dia 22/07/1946, no Rio de Janeiro.

O encontro foi alvo de uma reportagem do Correio Paulistano, edição do dia seguinte.

Kumlin declarou que não saiu muito seguro da reunião, que o evento não convenceu os japoneses, estes permaneceram calados, sem demonstrar qualquer sentimento a respeito do assunto da reunião.

O ministro revelou um detalhe interessante: houve um pedido de troca de correspondência (para os mais jovens, troca de cartas escritas em papel, via correios) entre os imigrantes e seus parentes residentes no Japão, a fim de que estes esclarecessem a real situação do país.

Por sua vez o General Gois Monteiro comenta sobre a possibilidade de intervenção militar contra o grupo terrorista, e declara que os imigrantes tinham "baixissimo nível de instrução". O general tinha razão, de fato, os imigrantes, em termos de cultura japonesa tinham certo nível de instrução (quase todos liam kanji). Entretanto, boa parte era analfabeta na lingua portuguesa, e muitos deles sequer falavam o idioma português.


Correio Paulistano, 23/07/1946 - Manchete

Segue o texto da reportagem :











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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Kasato Maru–o navio


 

O navio Kasato Maru 

Imigração japonesa ao Brasil

O navio foi construído na Inglaterra a pedido do Governo Russo em 1900, e chamou-se primeiramente Potosi, ganhando o nome de Kazan cinco anos depois. Em 1906, no final da guerra Russo-Japonesa, foi capturado pela marinha japonesa e adaptado para ser um navio de passageiros. Rebatizado para Kasato Maru, passou a ser usado na ocupação japonesa na Manchuria (China).

No mesmo ano(1906) passou a transportar imigrantes japoneses para o Havaí; em 1907, para o Peru e México, e em 1908 para o Brasil. Em 1934, passou a ser chamado de Kasado Maru. Em 1942, o navio foi requisitado pela Marinha Imperial Japonesa para fazer parte da esquadra japonesa na Segunda Guerra Mundial, como embarcação de apoio.

Kasato Maru -  National Diet Library. Japan
Kasato Maru – gravura - fonte : National Diet Library, Tokyo


Kasato Maru from Wiki
Kasato Maru, 1908 – fonte : Wikipedia



No dia 8 de agosto de 1945, no mar de Okhtosk, nas proximidades da foz do rio Kikhchik, Península de Kamchatk, Rússia, foi bombardeado por um avião militar russo, modelo Beriev MBR-2. O ataque provocou incêndio a bordo. Dois dias depois, em 10 de agosto de 1945 o Kasado Maru (ex-Kasato Maru) afundou.

Kanchatka Peninsula
Região do naufragio do Kasato Maru

Beriev MBR-2

O resgate do Kasato Maru

Em março de 2011, a Embaixada da Federação da Rússia no Brasil e ao Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa iniciaram negociações para resgate de peças do navio. Em 10 de dezembro de 2013, a primeira autorização enfim foi oficializada para que se pudesse dar início aos projetos necessários.

Em abril de 2015, o Governo do Estado do Paraná e o Senado Federal manifestaram-se favoravelmente a respeito, e formalizou-se o pedido, entregue a embaixada russa no Brasil.

Em 19 de junho de 2015, a embaixada russa emitiu uma nota oficial endereçada ao Ministro da Cultura do Brasil, informando sobre a realização , pela Sociedade Geográfica Russa (sediada em São Petersburgo), de uma expedição para estudos sobre biologia marinha, aquecimento global, análise de caldeiras vulcânicas e outros estudos, nas proximidades do local do naufrágio. A esta expedição cientifica poderia então ser incluída os trabalhos de resgate no Kasato Maru. Foi designado, como representante do Brasil nesta empreitada o Instituto Tecnológico e Ambiental do Paraná – ITAPAR, localizado na cidade de Curitiba.

Inicialmente o cronograma previa o resgate das peças em junho ou agosto de 2016, entretanto noticias recentes (hoje é dia 03 de julho de 2016) afirmam que o navio sequer estaria localizado. Localizar um navio em águas profundas é uma tarefa monumental, demanda muitos recursos, e dependendo de onde ele parou dificilmente será localizado. Ou seja, este resgate pode até ficar apenas no papel.

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