quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O fim do projeto Koutakussei no Amazonas

 O fim do projeto Koutakussei

O projeto Koutakussei sofreu seu primeiro golpe em 1934, ainda nos primeiros anos de funcionamento, com a promulgação da Constituição Brasileira. Num ato de extrema idiotice, a Constituição em seu artigo 121 do parágrafo 6 decretou:

 "A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante, não podendo, porém, a corrente imigratória de cada país exceder, anualmente, o limite de 2% sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos 50 anos". 

Como o projeto Koutakussei previa a entrada de mais de 10 mil famílias, essa restrição praticamente reduziu as dimensões do projeto e espantou investidores. Esses 2% mal cobriam a demanda de imigrantes do estado de São Paulo. 

Para piorar, no artigo 130 dessa Constitição foi determinado que: "Nenhuma concessão de terras de superfície superior a dez mil hectares poderá ser feita sem que, para cada caso, preceda autorização do Senado Federal", pelo que surgiu, posteriormente a questão da ilegalidade da concessão de terras ao projeto Koutakussei feita pelo estado do Amazonas.

Em 24 de agosto de 1936, na então capital do Brasil, Rio de Janeiro, na sessão do Senado  foi deliberado, pela última vez, o assunto da concessão de terras ao projeto Koutakussei. Apesar dos esforços de Tsukasa Uetsuka, não foram aceitos os seus argumentos;  e por fim decretada a anulação da concessão feita pelo estado do Amazonas.

Uetsuka contou que poderia recorrer judicialmente, alegar a não retroatividade da lei e o principio do direito adquirido. Entretanto, não fez petição,  alegando que não era de bom senso azedar as relações entre os países, Brasil e Japão. 

Shin Sekai Asahi Shinbum, California, 17/06/1936


A Segunda Guerra Mundial - o golpe final

Com o inicio da Segunda Guerra Mundial, o projeto sofreu o golpe final  dado pelo governo federal.

Getulio Vargas decretou confisco dos bens dos japoneses. Com isso, foi declarada nula a doação das terras do projeto e confiscado o complexo Centro de Pesquisa Industrial da Amazônia. O complexo foi vendido para um milionário português radicado no Brasil, Joaquim Gonçalves de Araújo, por um valor irrisório. Ele construiu uma mansão no local, hoje aberto a visitação turística. 

As terras já em poder dos colonos na Andirá foram desapropriadas.

Casarão de Joaquim G. Araújo, em Vila Amazônia

Como em outras partes do Brasil, os imigrantes japoneses foram proibidos de fazer reuniões públicas e de falar seu idioma, uma proibição impossível de ser cumprida naquele núcleo colonial.

Muitos foram feitos prisioneiros de guerra e levados para Tomé-Açu, no Pará. Outros se esconderam na mata, e muitos deles foram secretamente acolhidos por nativos que se simpatizavam com os japoneses.

Alguns retornaram à Colônia Andirá, onde clandestinamente permaneceram, com discrição. 

O kaikan da Vila Amazônia foi transformado em escola brasileira, Escola de Santa Maria de Vila Amazonia e mais tarde, infelizmente, demolido.

No início da década de 50, já encerrado o conflito, Uetsuka tornou a procurar Getúlio Vargas para propor a criação de uma tecelagem, a Tecejuta, e com isso recomeçar a produção da juta. Segundo um relatório que deixou escrito, o projeto teve o apoio do presidente. Porém Getúlio faleceu em 1954, dando fim ao plano de  continuidade do projeto.

E assim, extinguiu-se o projeto Koutakussei. A Colonia Andirá, após o ciclo da juta, foi abandonada, e as árvores voltaram a crescer. Hoje ela está novamente coberta por floresta.

Colonia Andirá, 2025 - hoje coberta de mata

Praia fluvial de Itaracuera, Rio Uaicurapá, onde antes era Colônia Andirá, 2025

Conclusão final

Infelizmente, o governo federal brasileiro cometeu um erro gravíssimo, e sem motivo para tal. Se o projeto Koutakussei fosse adiante, e tivesse apoio (em vez de repúdia) do governo, poderia constituir numa grande corrente migratória, provocando um grandioso desenvolvimento econômico no Amazonas, tal como ocorreu no estado de São Paulo, com os imigrantes japoneses, italianos e outros.

O projeto Koutakusssei foi muito bem elaborado, com um altíssimo grau de profissionalismo. Escolas, treinamentos, pesquisas, agrimensura, adesão voluntária, apoio do governo do estado do Amazonas, etc. tinha tudo para dar certo, mas o governo federal, inflamado por um sentimento de nacionalismo equivocado, praticamente decretou a morte do projeto.

Casarão de J.G. Araújo em Vila Amazônia, 2025

Vila Amazônia, 2025

Vila Amazônia, 2025


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