sábado, 6 de junho de 2020

A expulsão dos imigrantes japoneses do litoral


A expulsão dos imigrantes japoneses do litoral

(Este post é um registro histórico, sem qualquer intenção de contestação, insinuação de retratação, julgamento, etc)      

A História do Brasil que foi ensinada aos da minha geração, no ginásio e colégio, era bem florida, enaltecendo nossos heróis, contando nossas vitorias, etc, tinha um contexto moldado pelo então Regime Militar, que na época enaltecia (com razão) o sentimento de patriotismo. Porém alguns esqueletos foram esquecidos no armário, como foi o episodio da expulsão dos imigrantes japoneses, italianos e alemães do litoral do Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial. 

O motivo dessa expulsão foi absolutamente absurda, surreal. Os militares brasileiros temiam que navios do eixo invadissem nosso litoral, e os conterrâneos daqui os guiassem de alguma forma o desembarque de soldados. Chegou-se a afirmar que eles iam a noite, nas praias,  guiar os navios e os submarinos com sinais feitos com lamparinas de querosene (!). 

Naqueles tempos, sem porta-aviões e outros  apoios logísticos, era praticamente impossível um navio de guerra chegar ao Brasil, partindo da Alemanha, Itália ou Japão. Além disso, os imigrantes eram praticamente todos agricultores, nenhum executava atividade de pesca, ou seja, não tinham barcos nem pratica nenhuma em navegar.

Como foram poucos os italianos e alemães que se instalaram no litoral, praticamente todos os expulsos eram japoneses.

No litoral do Parana, os japoneses da Colonia Kakatsu, atual Colonia Cacatu, foram também expulsos, trazidos para Curitiba. Os imigrantes japoneses não gostam e evitam falar assuntos relacionados às perseguições e preconceitos que sofreram no Brasil.

      Para elaboração desse post, decidi usar alguns noticiários que encontrei em sites especializados.

Reportagem – Folha da Manhã, edição de 09/07/1943.

Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo

Abaixo, para facilidade de leitura, segue a transcrição da reportagem :

Não houve surpresa

Há muito tempo os súditos do "eixo" receberam ordem de abandonar o litoral

“Com o intuito de colher novas informações sobre os trabalhos de expurgo dos súditos dos países do “eixo”, do litoral do Estado (de São Paulo), a reportagem da “Folha da Noite” esteve ontem, a noite, na Superintendência de Segurança Politica e Social ,  encontrando o sr. Augusto Gonzaga, delegado de Ordem Política, no seu gabinete de trabalho.  Inteirado da nossa missão, o delegado de Ordem Politica nos adiantou que os trabalhos realizados pela policia estavam seguindo o curso traçado pelo superintendente da Segurança Politica e Social, segundo as autoridades ora destacadas na zona litorânea informaram. A parte sul, continuou S. S., já foi percorrida ate Itanhaen pelo sr. Tavares de Carmo, delegado Regional de Santos. Os serviços de transporte dos súditos do “eixo” estão se processando regularmente pela ferrovia, tendo chegado a esta capital numerosas famílias que estão sendo recolhidas no prédio da Imigração (Hospedaria dos Imigrantes) até ficar estabelecido o local em que cada uma dessas famílias deve residir no interior do Estado.

      A propósito do tempo gasto com a preparação do expurgo, o delegado da Ordem Politica nos declarou o seguinte :

      “Logo que assumiu o exercício da Supererintendencia de Segurança Politica e Social, há cerca de seis meses, o major Hildeberto Vieira de Mello teve sua atenção atraída para o problema de existência de numerosos súditos do “eixo” localizados na zona litorânea.

     De acordo com o resultado das averiguações “in loco” e estudos que vinham sendo feitos desde a administração anterior, constituía esse problema assunto de alta relevância, reclamando pronta solução que viesse acautelar os interesses da segurança nacional.

      Sem perda de tempo, o major Vieira de Mello expediu instruções para que todos os referidos estrangeiros fossem intimados a mudar-se do litoral, dentro do prazo razoável que lhes foi marcado.

      Muitos obedeceram prontamente, outros, porem, valendo-se do prazo de tolerância que lhes fora concedido, permaneceram.

      Agora esgotado o prazo, e tendo em vista as conveniências da ordem politica e social, foram adotadas as medidas coercitivas que se impunham para tornar efetiva aquela providencia por parte dos retardatários ou recalcitrantes, consoante já é do domínio publico.

      Tudo foi feito com ordem e não há motivo para qualquer alegação de surpresa por parte dos interessados, que foram prevenidos com bastante antecedência e, só a si mesmo poderão culpar pelo atropelo ou constrangimento, que as ordens ultimamente expedidas poderão estar ocasionando.

      Da parte da Superintendência tudo tem sido feito, para minora esses inconvenientes, sempre sem prejuízo da pronta execução da aludida providencia, que, a bem dos interesses da pátria, não pode sofrer qualquer adiamento ou tergiversão. “

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Reportagem - O Globo, 09 de julho de 1943

Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo

O Globo - edição de 10 de julho de 1943





O Globo - edição de 09-07-1943

Segue a transcrição da reportagem, para melhor legibilidade:

O Globo, 09 de julho de 1943

REMOÇÃO DE TODOS OS SÚDITOS DO EIXO DO LITORAL PAULISTA

Serão concentrados no interior, como medida urgente de segurança nacional

Chegam à capital bandeirantes as primeiras levas

SANTOS, 9 (Especial para O Globo) – todos os súditos japoneses e alemães residentes em Santos, em São Vicente de Guarujá, e litoral sul e norte do Estado de São Paulo estão sendo retirados pela polícia para campo de concentração existente no interior do Estado. A medida começou a ser posta em execução anteontem, pela manhã, e será extensiva aos súditos italianos.

MAIS DE 19.000 FAMÍLIAS ATINGIDAS – RETIRADOS TAMBÉM DAS PROXIMIDADES DA REPRESA DE SANTO AMARO

SÃO PAULO, 9 (Especial para O Globo) – a Superintendencia de Ordem Pública e Social acaba de desferir o segundo golpe contra a “Quinta Coluna”, removendo todos os eixistas do litoral paulista, para o interior do Estado. A medida, tomada por (ilegível) segurança nacional, é de grande amplitude representado o cumprimento de série de providências preventivas levadas a efeito, com o propósito de neutralizar possíveis atividades dos nossos inimigos, disfarçados. O Major Vieira de Melo, de acordo com o interventor Fernando Costa, e o Secretário de Segurança, senhor Coriniano de Góes, ver presidindo, com grande êxito, aos trabalhos de varredura do litora, conseguindo assim que os súditos do Eixo deixem seus domicílios, localizados em pontos estratégicos, para outras casas, onde não oferecem perigos à segurança nacional. A medida atinge particularmente, japoneses e alemães, os quais serão removidos rapidamente de toda a costa paulista para o interior. Os italianos foram colocados sob rigoroso controle sendo os suspeitos remetidos para São Paulo. Nestas condições, calculam-se em cerca de 10.000 famílias os que serão removidos, acabando-se, definitivamente com a presença de italianos e japoneses na área litorânea paulista. Hoje, começam as levas de retirantes, os quais viajam em trem especial. Foram encaminhados para Imigração, onde serão registrados, para depois seguirem para o interior, onde possam desenvolver suas atividades habituais, gozando relativa liberdade. Acredita-se que em poucos dias será completada a operação de limpeza, ação em que estão cooperando, turmas especiais de investigadores em toda a extenção da faixa litorânea, de norte a sul, fazendo paciente trabalho de sindicância na extensa zona. As providencias preventidas da Policia não se limitam apenas ao litoral, estendendo-se igualmente a toda a faixa da represa de Santo Amaro, de onde, também, estão sendo removidos todos os súditos do eixo. A medida teve grande repercussão, dado seu grande alcance, visto como completou (sic) o excelente trabalho das autoridades paulistas no sentido de evitar que os eventuais quint-colunistas, aproveitando-se de sua localização, pudessem servir de qualquer modo, aos inimigos do Brasil. 


Expulsao japoneses - Hospedaria dos Imigrantes
Imigrantes em fila, no desembarque na Hospedaria dos Imigrantes


Familia de imigrantes japoneses descendo do trem, em Hospedaria dos Imigrantes
Familia de imigrantes japoneses descendo do trem, em Hospedaria dos Imigrantes

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Imigração japonesa ao Brasil

 

Introdução

Tendo já algum conhecimento no assunto e uma razoavel biblioteca a respeito, resolvi montar este blog. Ele tem mais carater lúdico, pelo menos minha tentativa foi essa, fazer um blog de leitura rápida, com bastante fotos. Não fiz planejamento nenhum, os assuntos foram postados de aleatoriamente.

O blog ficou com cara de almanaque, e acho que era esse mesmo o objetivo; assuntos diversos sobre o tema, com pouca interligação entre eles.

Tendo a maioria dos assuntos retirados da internet, e que esse meio é cheio de meias-verdades, invencionices e suposições, tive o cuidado de filtrar ao maximo as informações encontradas. Este trabalho de checar a veridicidade das informações encontradas foi muitas vezes dificil.

Em geral, as informações neste blog são de trabalhos academicos de estudantes de História, Ciencias Sociais, etc., de livros que apresentam confiabilidade, de sites governamentais,  de museus e de reportagens de jornais de tradição. O  blog tem também uma pitada pessoal, já que sou descendente de imigrantes, e cresci sob forte influencia da cultura japonesa.

E para os que navegam com celular, para facilitar a navegação, fiz um indice das postagens, cujo link segue abaixo.

Meus agradecimentos a Alvorada Autopeças, pela valiosa colaboração na construção deste site.

Boa leitura !

Clique aqui para ir ao indice do blog


Indice1

Anuncio-patrocinador_thumb

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Imigração Japonesa ao Brasil–indice


Histórias sobre a imigração japonesa ao Brasil - indice


Clique 👉sobre o assunto desejado

Introdução - sobre o blog e o autor



Os primórdios da história da imigração japonesa



    

Ryu Mizuno e Kasato Maru



👉Kasato Maru - o navio e os planos para o resgate


👉Kasato Maru - a lista dos imigrantes, 1908 








Diversos assuntos sobre a imigração japonesa





👉Ibaraki Tomojiro, o monge milagroso do Kasato Maru




Preconceito, nacionalismo e perseguição









Antecedentes da história da imigração


Antecedentes da história da imigração

A preferencia pelo imigrante europeu


Em 1819, cerca de 400 chineses vieram ao Brasil (então colônia portuguesa) na qualidade de imigrantes contratados. A idéia da Vossa Majestade D. João VI, que aqui se encontrava refugiado, era introduzir o cultivo do chá no Jardim Botânico na Fazenda Imperial Santa Cruz, no Rio de Janeiro. A essa experiência envolvendo os chineses, seguiram-se outras, e todas acabaram em fracassos.

Imigrantes chineses no Rio de Janeiro, c. 1823

Chineses no Rio de Janeiro, gravura de Johann M Rugendas, c 1823

Baseados nesses fracassos com os primeiros imigrantes chineses, e observando-se a experiência dos Estados Unidos (que utilizara chineses na Califórnia), criou-se entre as autoridades brasileiras a idéia de que o asiático (incluiu-se aí os japoneses que sequer ainda tinham presença no Brasil) era uma “etnia inadequada aos interesses do Brasil”. Portanto, até ao desembarque do Kasato Maru, os japoneses não eram benquistos no Brasil. 

Os argumentos, bem fundamentados,  eram vários : que os orientais não se fixariam às terras brasileiras, seriam meros aventureiros que aqui chegariam “nús e famintos” para mais tarde se retirarem “bem vestidos e afortunados”; que não aceitavam a religião católica nem a língua portuguesa. Que conservavam seus costumes e comidas, preterindo as nacionais.

Houve quem dissesse que eram “...raças propensas ao uso do ópio e à prática do suicídio”, o que não deixava de ter certa verdade, considerando que a China nesta época era devastada pelo vício do ópio introduzido pelos ingleses, e ainda existia a lembrança da  prática do sepukku (haraquiri) entre os samurais. .
Outros diziam que o asiático “era fisicamente inferior, portanto não estaria apto aos trabalhos pesados da lavoura”.

A preferência pelos europeus

No entanto, a principal causa desse desprezo aos asiáticos era a preferência pelos europeus. Havia um forte ingrediente racial nesta preferência: a elite brasileira desejava “branquear” a população brasileira, nesta época bastante miscigenada entre portugueses, índios e negros. Entendiam então que os asiáticos, vistos como “raça inferior”, poderia “macular” ainda mais a população brasileira.

Tanto que em 28 de junho de 1890 (pouco depois da proclamação da República), foi aprovado o Decreto número 528, que proibia o ingresso de imigrantes oriundos da Ásia e África. A fim de assegurar os ditames deste decreto, foi estabelecido que a polícia portuária deveria fiscalizar os desembarques. Pesadas multas seriam imputadas aos comandantes das embarcações que desobedecessem tal decreto. Este decreto trata os asiáticos e africanos de "indígenas".


Texto do decreto leo 528 de 28 junho de 1890



Entretanto, no final do século XIX, em consequência da Lei Áurea de 1888, uma séria crise de falta de mão-de-obra assolou as fazendas de café no interior do estado de São Paulo. Os europeus contratados para tal (principalmente os italianos) não se adaptaram ao trabalho e migraram as cidades ou foram para outros países;  ou passaram a exercer outras atividades. Ouve então grande pressão para que o Decreto 528 fosse revogado.

Lei número 97 de 24 de setembro de 1892


Diante disso foi sancionada a Lei numero 97 (24/09/1892), de autoria do deputado Monteiro de Barros, autorizando finalmente a entrada dos asiáticos. 

No entanto, essa lei não determinava que o estado iria subvencionar, promover ou organizar essa imigração, ficando subentendido que a iniciativa privada é que deveria fazer todo trabalho de recrutar, providenciar o transporte, recepcionar, encaminhar, etc. os imigrantes.

Apesar desta lei ser promulgada, não havia ainda um tratado formal entre o Brasil e o Japão, estabelecendo relações diplomáticas e regras para reger a entrada de emigrantes e navios japoneses nos portos brasileiros. Isso aconteceu somente 3 anos depois, em 1895.

LEI N° 97, DE 5 DE OUTUBRO DE 1892 

Permitte livre entrada no território da Republica de immigrantes de nacionalidade chineza e japoneza; autorisa o governo a promover a execucao do tratado de 5 de setembro de 1890 com a China; a celebrar tratado de commercio, paz e amizade com o Japao, e da outras providencias attinentes immigracao daquellas procedencias. 

0 Vice-Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil: 

Faco saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a seguinte lei: 

Art. 1° É permittida a livre entrada, no territorio da Republica, a immigrantes de nacionalidade chineza e japoneza, comtanto que, nao sendo indigentes, mendigos, piratas, nem sujeitos a accao criminal em seus paizes, sejam validos e aptos para trabalhos de qualquer industria. 

Art. 2° 0 governo fica autorisado: 

1° A promover a execucao do tratado celebrado com a China ern 5 de setembro de 1880; 
 2° A celebrar tratado de commercio, paz e amizade com o Japao; 
3° A estabelecer agentes diplomáticos e consulares nesses paizes, afim de manter com elles boas relacões e especialmente encarregados esses ou outros agentes de fiscalizar, de modo efficaz a evitar abusos, a immigracao que desses paizes se dirigir para o Brazil. 

Art. 3° Revogam-se as disposicOes em contrario. 

0 Ministro de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas o faca executar. 

Capital Federal, 5 de outubro de 1892, 4° da Republica. 

Floriano Peixoto. Serzedello Correa. 


Outro fato decisivo para a vinda e aceitação dos japoneses foi a proibição na Italia do envio de emigrantes ao Brasil, em 1902. O governo italiano alegou que os imigrantes italianos estavam sendo vitimas de maus tratos e semi-escravidão aqui no Brasil.

A partir do inicio do século XX, surgiram as companhias de imigração no Brasil, e as de emigração no Japão, dando início a história da imigração japonesa no Brasil.

Clique aqui para ir ao indice do blog

Indice1













Os primeiros japoneses a pisar no Brasil

Kasato Maru


Primeiros Japoneses a pisar no Brasil

Os quatro náufragos 


Em 1793, um veleiro japonês chamado Wakimiyamaru, partiu de Ishinomaki, porto ao norte do Japão, com destino a capital, Edo (atual Tokyo). A tripulação era de 16 marinheiros, e a carga comercial : arroz, corda, madeira, etc.

Apanhados por um tufão, tiveram sérias avarias no barco, que ficou sem velas e sem leme, a deriva. Após 5 meses vagando em situação de penúria e sem destino, episódio digno desses filmes de sobrevivência, conseguiram chegar a uma das ilhas do arquipélago Aleutas (Russia). Entretanto, exaurido pela aventura e doente, o capitão não resistiu e faleceu.

Foram bem recebidos pelos habitantes da ilha, e algum tempo depois soldados russos levaram os 15 sobreviventes para uma instalação militar numa ilha, Unalaska, próximo ao Alaska, que na época pertencia a Rússia. Dois anos depois, em 1795, foram levados para Okhostk, onde foram orientados a buscar trabalho e fixarem residência. Porem alguns deles foram enviados a Irkustk, no interior do país, próximo a Mongólia.

Os que ficaram em Okhostk desistiram do local e seguiram para Irkustk, a fim de se reagruparem novamente. Lá chegaram em 1796, porem durante a viagem, um dos marinheiros, Ishigoru, faleceu; reduzindo o grupo a 14 pessoas.

Com alguma ajuda do governo russo, o grupo se estabeleceu em Irkustk, prosperaram trabalhando com pesca e fabricação de sakê.

Tudo ia correndo bem, quando em 1803 foram convocados pelo Imperador Alexandre I a comparecerem na então capital, São Petersburgo. Somente 10 obedeceram a ordem, os demais continuaram em Irkustk.

Chegando em São Petersburgo, foram indagados se queriam voltar ao Japão. Somente quatro marinheiros aceitaram a oferta : Tsudayu, Gihei, Sahei e Tajyuro.

No dia 7 de agosto de 1803, a bordo dos navios Nadiezhda e Neva, os 4 partiram do porto de Kronstadt, dando inicio a uma viagem de circunavegação, com destino ao Japão, numa missão diplomática. Revelou-se então o motivo da convocação pelo Imperador : ele precisava de interpretes para a comitiva, na chegada ao Japão. A missão tinha também o objetivo de cartografar as regiões da rota, e reabastecer algumas colônias russas em solo americano.

mapa-mundi

Em 21 de dezembro de 1803 o Nadiezhda ancorou próximo a Ilha do Ainhatomirim, Santa Catarina, provavelmente para reabastecimentos. No dia seguinte, um bote foi lançado às águas e nele embarcaram os japoneses, Tsudayu, Gihei, Sahei e Tajyuro, e mais Zenroku, um japonês que já residia em São Petersburgo antes da chegada do grupo de marinheiros. Desembarcaram no Forte Santana, na então Vila Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (Sc). Foram esses cinco os primeiros japoneses a pisarem no Brasil, com prova documental.
     
Forte Santana local

Forte do Santana-Florianopolis Sc
Forte do Santana, Florianópolis, Sc – aqui pisaram os primeiros japoneses a chegar no Brasil

Clique aqui para ir ao indice do blog



Wasaburo Otake- o primeiro japones a morar no Brasil

Wasaburo Otake - primeiro japonês a residir no Brasil


O primeiro japonês a fixar residência no Brasil, por circunstancias do acaso, foi um rapaz de 18 anos, inteligente, letrado, poliglota, estudioso e de família nobre.
Ainda adolescente, Otake se matriculou numa escola de lingua inglesa. Seu pai era médico especializado em Medicina Chinesa. Morava no porto de Yokohama, e costumava visitar os navios que ali aportavam, a fim de praticar o ingles. Não demorou muito e já era contratado por eles para servir de interplete.

Em 1889 um comitiva militar brasileira foi visitar o Japão. Fazia parte da comitiva o neto do imperador D. Pedro II, príncipe Augusto Leopoldo. O governo do Japão designou um jovem de 18 anos, Wasaburo Otake para as funções de interprete na recepção dos brasileiros. A língua comum seria o inglês, que Otake dominava bem. Otake não sabia falar o português.

Augusto Leopoldo se simpatizou com Wasaburo, e convidou-o a visitar o Brasil, acompanhando a comitiva na viagem de volta. O convite foi aceito, e partiram todos de volta ao Brasil. Entretanto, durante a viagem de volta, em 15 de novembro de 1889,  foi proclamada a república no Brasil, e a família real foi exilada para Europa. Leopoldo teve que deixar a comitiva em Colombo (Sri Lanka), onde dali seguiria para Europa a fim de se encontrar com sua família real, em Portugal.  Não podia mais pisar em solo brasileiro, donde seria expulso.


Wasaburo Otake (1871-1944)

Wasaburo ficou então sem o seu protetor, no mato, ou melhor, no Brasil, e sem cachorro. Não era mais “amigo do rei”.  Teve que se virar, pois a viagem da volta não existia mais.  Wasaburo contou com a ajuda do almirante do navio que o trouxe, Custodio de Melo, que lhe deu apoio na sua estadia. Matriculou-se na Escola Naval, e em 1893 formou-se como maquinista de navio comercial. No ano seguinte matriculou-se na Escola de Engenharia Naval, mas não conseguiu se formar.

Seu protetor, Almirante Custódio José de Melo, a esta altura Ministro da Marinha,  se envolveu na Revolta  Armada de 6 de setembro de 1893, um movimento para derrubar o presidente Floriano Peixoto.  Derrotado e destituído do cargo, Custodio de Melo caiu em desgraça novamente e Wasaburo perdeu suas regalias.

Wasaburo teve então que deixar o curso de engenharia, e foi trabalhar como mecânico numa fábrica de tecidos no Rio de Janeiro.  Posteriormente mudou-se para São Paulo, para trabalhar num empresa americana de colonização.



Wasaburo Otake foi o primeiro japones diplomado no Brasil. 

Wasaburo Otake foi o primeiro japonês a fixar residência no Brasil, pelo menos com prova documental. Se existiu outro japonês antes dele, não deixou nenhum registro. Não há nenhum vestígio, por menor que seja de que um dos cinco japoneses que pisaram no Brasil em 1803 tenha fixado residência no nosso país.

Em 1896 inicia-se a Guerra Sino-Japonesa e  Wasaburo decide retornar  ao Japão, a fim de servir o país de alguma forma. No ano seguinte foi inaugurada a primeira embaixada brasileira no Japão e Wasaburo foi nomeado interprete da embaixada, função que exerceu até 1942, pouco antes de morrer.

Ajudou na organização da viagem do Kasato Maru, de 1908, trazendo a primeira leva de imigrantes ao Brasil.
Otake foi um grande lexicologista, foi o autor do primeiro dicionário moderno portugues-japones (“Powa Jiten”), em 1918, já no Japão. Era um livro praticamente obrigatório nas malas dos imigrantes ao Brasil.

Em 1925 publicou o dicionário Japones-portugues, em romaji (caracteres romanos).
Dicionário de Wasaburo Otake
Dicionário de Wasaburo Otake

 
Pelo seu esforço e dedicação, por quase a vida toda, às relações Brasil-Japão, Wasaburo Otake é um dos grandes heróis da história da imigração japonesa ao Brasil.
Apesar de Otake se declarar autor do primeiro dicionario japones-portugues, já existia uma edição anterior, porem muito antiga e desatualizada. Trata-se do “Vocabulario de Lingoa de Iapam”, um dicionario extenso (32 mil verbetes), compilado por missionários jesuitas, e editado em 1603.
 
=====================

Posteriormente, uma nova dicionarista lançou no Brasil dois dicionários. Já era tempo, pois entre a edição de Otake  estas novas publicações, transcorreu-se uma longa lacuna de tempo. Já era hora de uma publicação mais atualizada. Trata-se da dicionarista Noemia Atsuko Sakane Hinada, que lançou as seguintes obras : Dicionário Português-Japonês Romanizado (co-autor: Shigueru Sakane, Editora Casa Ono, São Paulo, Brasil, 1986) e -Dicionário Japonês-Português Romanizado (Editora Kashiwa Shobo, 1992). 






Os primeiros japoneses no Brasil








Imigração japonesa - antes do Kasato Maru


Todos consideram a chegada do Kasato Maru como o marco zero da história da imigração. Entretanto, antes dos imigrantes do Kasato, alguns japoneses já estavam ou estiveram no Brasil.

1793 – Os náufragos do Wakimya Maru

Em 1793, 4 sobreviventes de um naufrágio e mais um marinheiro japonês foram os primeiros a pisarem no Brasil, em Florianópolis, Sc (veja postagem).

1867 – Tripulantes do Kaiyou Maru

O shogun japonês Tokugawa encomendou um navio à Holanda, que é concluído em 1867. O navio, batizado de Kaiyou Maru, ruma ao Japão em sua viagem inaugural, e em 21 de janeiro de 1867 atraca no Rio de Janeiro, onde permaneceu por 11 dias, provavelmente para pequenos reparos e reabastecimentos. Neste intervalo, desembarcaram na cidade Kamajiro Enemoto, Takeaki Enemoto, Kakijiro Uchida, Tarozaemon Sawa, Shinpei Taguchi, além de onze outros japoneses.


Kayou Maru - from Wikipedia


1870 – Jurouzaemon Maeda

Tripulante de um navio inglês que estava atracado em Salvador (Ba) em 1870, Maeda cometeu haraquiri (suicídio) nesta ocasião. 

1884 – Massayo Neguishi


Acredita-se que o primeiro japonês que visitou o Brasil, em caráter oficial, foi um deputado chamado Massayo Neguishi em 1884, como enviado do Ministério do Exterior do Japão. Ele percorreu várias localidades nos Estados de Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo durante quarenta dias. De regresso ao Japão, apresentou um relatório de observação, apontado o Estado de São Paulo o local ideal para eventual envio de imigrantes japoneses. 

1888 – O circo japonês de Manji Takezawa


Em 1888 Pedro II contratou o acrobata-samurai e professor de Jiu-Jítsu, o japonês Manji Takezawa, para ensinar Jiu-Jítsu para oficiais da Guarda Real. O pai de Manji também era acrobata, famoso no Japão, Toji Takezawa. Um ano após, com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, Manji ficou desempregado, mas permaneceu no Brasil. Continuou sua vida de acrobata, montou um circo chamado “Circo Imperial Japonês”. Manji Takezawa foi a Manaus com a companhia circense em 1890. E também esteve na Argentina e Uruguai. Takezawa foi o primeiro japonês no Brasil a se casar em outra etnia, pois se casou com uma italiana e tiveram 4 filhos.
Em 1898, vendeu o circo para pagar dívidas. 

Acrobata Takezawa Tôji e seu filho  Takezawa Manji, c. 1845 – artista : Utagawa Kuniyoshi




1889 – Wasaburo Otake


Foi o primeiro japonês a fixar residência no Brasil. Otake é o primeiro japonês que de fato desembarcou no Brasil e por aqui ficou por um bom tempo. (Veja postagem).

Wasaburo Otake

1894 - Sho Nemoto

Com o objetivo de promover a imigração japonesa para todo o mundo, foi criada em 1893 no Japão a Colonization Society, sob a responsabilidade da Marinha Japonesa. Os militares japoneses entendiam que para o Japão ter sua influência e poder em outros países, deveria ali fixar imigrantes, a fim de ter uma presença japonesa no território de interesse. Esses imigrantes poderiam constituir futuramente uma base de apoio para negociações comerciais, culturais; ou mesmo de apoio para ações militares. Aliado a isso, havia o interesse do governo japones em enviar para fora do Japão os cidadãos em dificuldades financeiras.
A Colonization Society enviou então em 1894 um funcionário, Sho Nemoto, para analisar alguns países e as condições para receberem imigrantes japoneses. Nemoto visitou a Guatemala, Nicarágua e Brasil. Destes, elegeu o Brasil como o melhor país para receber imigrantes, porem ressalvou que aqui os eles iriam exercer os trabalhos mais rústicos e pesados.
Sho Nemoto produziu um relatorio a respeito da sua viagem, reproduzido no link abaixo :
Relatorio Sho Nemoto (original em japonês)
Veja também neste blog : a visita de Sho Nemoto ao Brasil
 

Fontes :

“Making Waves: Politics, Propaganda, And The Emergence Of The Imperial Japanese Navy – 1868 – 1922”; J. Schencking

The Hispanic American Historical Review; James Alexander Robertson, Williams & Wilkins, 1952 
www.ndl.go.jp

1897 – Sutemi Chinda e

c. 1899 -  Narinori Okoshi

Em 1895 Brasil e Japão assinaram em Paris um tratado de relações diplomáticas. Em consequencia deste acordo, em 21 de agosto de 1897, foi inaugurada a primeira legação japonesa no Brasil, em Petropolis, Rj. Sutemi Chinda foi o primeiro diplomata a ser nomeado, sob o pomposo titulo de Ministro Plenipontenciário do Japão no Brasil.  Petropolis era sede das embaixadas nesta época, pois a capital do Brasil, Rio de Janeiro, enfrentava problemas com a febre amarela.

Sutemi Chinda

Chinda foi sucedido por Narinori Okoshi. Os dois deixaram o Brasil desaconselhando a imigração de japoneses, não devem ter gostado da estadia por aqui.
Okoshi Narinori

1897 – Tsukitsu Aokitsu Em janeiro de 1897,  a Cia. Kissa de Emigração (Kissa Imin-kaisha) enviou ao Brasil o seu funcionário Tsukitsu Aokitsu, para negociar com a empresa brasileira de imigração Prado Jordão & Cia. para realizar a primeira remessa de emigrantes. Aokitsu permaneceu no Brasil até maio daquele ano, e foram acertadas condições para a realização da primeira leva, que acabou em fracasso. Este episódio ficou conhecido como “o incidente do Tosa Maru”.

1905 – Fukashi Suguimura e Kubanichi Horiguchi

O terceiro diplomata em Petrópolis foi Fukashi Suguimura , chegou ao Brasil em 1905, para assumir o cargo. Com ele, veio Kubanichi Horiguchi, interprete que falava francês (na época, o idioma francês era a lingua usada entre os diplomatas). Suguimura foi um grande incentivador da imigração japonesa. Foi ele o autor de um relatório publicado no Japão, elogiando as condições do Brasil, que ficou conhecido como “O Relatório Suguiama”.

1906 – Saburo Kumabe e outros - Nagasse, Torii, Massahiko Matsushita Arikawa, Tamezo Nishizawa, Yoshizo Kudama, Ryoiti Yasuda)


Saburo Kumabe era juiz e levava uma vida confortável no Japão. Ao ler o Relatorio Suguiama, resolveu, num ato de loucura, migrar para o Brasil, trazendo toda familia, esposa e 5 filhos. Posteriormente, fundou a Colonia Macaé.

Saburo Kumabe

Juntamente com Kumabe, vieram Nagase, Torii, Masahiko Matsushita, Yoshizo Kudama, Ryoiti Yasuda, Shinkishi Arikawa e Tamezo Nishizawa. 


Filhas de Saburo Kumabe

Nagase e Torii se mudaram para os Estados Unidos, Matsushita abriu um comércio em São Paulo.  Kudama faleceu em 1908, e foi o segundo japones a ser ser sepultado no Brasil. Os demais seguiram com Kumabe, para a Colonia Macaé.  

1906 – Ryu Mizuno e Teijiro Suzuki


Ryu Mizuno veio ao Brasil em 1906. Durante a viagem, no navio, conhece Teijiro Suzuki, que tinha intenção de se estabelecer no Chile. Entretanto, Ryu convenceu Suzuki a conhecer o Brasil, e aqui chegaram, juntos em 1906. Teijiru Suzuki foi nomeado secretário da Hospedaria de Imigrantes de São Paulo, em 1907 ou 1908.

Ryō Mizuno - fonte ndl.go.jp
Ryu Mizuno


 
Teijiro Suzuki – fonte : Correio da Manhã

1906 – Ryoichi Yasuda


Ryoichi Yasuda, ou Ryoiti Yassuda (como foi registrado no Brasil) veio ao Brasil para auxiliar Mizuno nos preparativos da primeira leva no Brasil. O objetivo dele era realizar alguns trabalhos aqui e depois imigrar-se para os Estados Unidos. Quando aqui chegou, deveria encontrar-se com o ministro Suguimura. Mas ao chegar, este havia falecido. Sem o apoio do novo ministro e perdendo os contatos com o Japão, Ryoichi acabou passando por dificuldades.

Trabalhou no porto de Santos como estivador para se garantir, mas não retornou ao Japão. Juntou-se a Saburo Kumabe na fracassada tentativa de fundar uma colônia em Macaé-Rj.  Teve aqui uma vida próspera e dinâmica. Seu filho, Fábio Yasuda, foi o Ministro da Industria e Comércio do governo Médici.

Ryoichi Yasuda e esposa

1906 – Os comerciantes das Casas Fujisaki (São Paulo)


Takeo Goto (19 anos), Teijiro Noma (35), Jukichi Sakuma (20) e Ryosaku Tanaka (20)  chegaram ao Brasil em Brasil em 1906, para iniciarem a instalação das Casas Fujisaki, em São Paulo (Rua São Bento, 58). Inaugurada ainda em 1906, a Casas Fujisaki foi pioneira no estabelecimento de relações comerciais entre Brasil e Japão, e pioneira também como empreendimento japonês em terras brasileiras. Comercializavam-se diversos produtos de fabricação japonesa, lenços de seda, estampas para bordado, tecidos floridos, chás, cerâmicas, peças em bambu, leques e brinquedos. O sucesso das Casas Fujisaki foi tão grande que o estoque se esgotou 4 dias depois da inauguração.

Nos anos seguintes, novas filiais foram abertas no Rio de Janeiro (1908) , Salvador (1911), Recife (1912), Buenos Aires (Argentina, 1912).

Takeo Goto – fonte : Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil

Casas Fujisaki em São Paulo – sem data

Casal Takeo Goto (a direita) e o casal Seishiro Kumasaka, funcionários da Casas Fujisaki , primeiros comerciantes japoneses no Brasil

1907 – Sanji Ohira


Em abril de 1907 desembarcou no Rio de Janeiro Sanji Ohira, com a missão de estruturar a casa comercial Comércio Nippaku. Pouco depois, chegaram seu filho Zentaro Ohira, e Gosuke Hachiya para tocarem o negócio
.

1908 – Umpei Hirano, Massaru Sakae Mine, Motohisa Ono, Junnosuke Kato, Takashi Nihei  - Os cinco interpretes


Quando o navio Kasato Maru desembarcou em abril de 1908, foram recebidos por um grupo de intérpretes : Umpei Hirano, Sakae (ou Massaru) Mine, Motohisa (ou Motonao)  Ōno, Junnosuke Katō, Takashi Nihei (ficaram conhecidos como “os Cinco Intérpretes”) . O nome dos 5 não consta na lista de bordo do Kasato Maru, portanto eles já estavam no Brasil. Quando estava no Japão organizando a primeira leva, Mizuno solicitou ao Ministério das Relações Exteriores que lhe providenciasse 5 interpretes. É provável que teve seu pedido aceito e que os cinco foram enviados pelo Ministério ao Brasil antes do Kasato Maru. Supõe-se que já falavam o espanhol e vieram antecipadamente para se familiarizarem com o idioma português. Ao chegarem ao Brasil, juntou-se a eles, para exercer as funções de interprete, Teijiru Suzuki, que aqui já se encontrava.

Umpei Hirano



1908 – Yazaburo Yamagata

Yamagata desembarcou no Brasil em 18 de maio de 1908, apenas um mes antes da chegada do Kasato Maru. Era grande e próspero empresario do ramo de transporte marítimo no Japão. Mas faliu, e decidiu mudar-se para o Brasil, estabelecendo-se na cidade do Rio de Janeiro, onde abriu uma fábrica de fogos de artifícios e leques. Ao desistir da colonia Macaé, Riyochi Yasuda foi trabalhar com Yasaburo, no Rio. 

Yazaburo Yamagata


1908 – Imigrantes do Kasato Maru



Por fim, em 1908 começam a vir ao Brasil grandes levas de imigrantes.

------------------------------------------------------------------------
Clique aqui para ir ao indice do blog