sábado, 6 de junho de 2020

A expulsão dos imigrantes japoneses do litoral (1)


A expulsão dos imigrantes japoneses do litoral (1)

(post de Claudio Massayuki Hagi) 

(Este post é um registro histórico, sem qualquer intenção de contestação, insinuação de retratação, julgamento, etc)      

A História do Brasil que foi ensinada aos da minha geração, no ginásio e colégio, era bem florida, enaltecendo nossos heróis, contando nossas vitorias, etc, tinha um contexto moldado pelo então Regime Militar, que na época enaltecia (com razão) o sentimento de patriotismo. Porém alguns esqueletos foram esquecidos no armário, como foi o episodio da expulsão dos imigrantes japoneses, italianos e alemães do litoral do Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial. 

O motivo dessa expulsão foi absolutamente absurda, surreal. Os militares brasileiros temiam que navios do eixo invadissem nosso litoral, e os conterrâneos daqui os guiassem de alguma forma o desembarque de soldados. Chegou-se a afirmar que eles iam a noite, nas praias,  guiar os navios e os submarinos com sinais feitos com lamparinas de querosene (!). 

Naqueles tempos, sem porta-aviões e outros  apoios logísticos, era praticamente impossível um navio de guerra chegar ao Brasil, partindo da Alemanha, Itália ou Japão. Além disso, os imigrantes eram praticamente todos agricultores, nenhum executava atividade de pesca, ou seja, não tinham barcos nem pratica nenhuma em navegar.

Como foram poucos os italianos e alemães que se instalaram no litoral, praticamente todos os expulsos eram japoneses.

No litoral do Parana, os japoneses da Colonia Kakatsu, atual Colonia Cacatu, foram também expulsos, trazidos para Curitiba. Os imigrantes japoneses não gostam e evitam falar assuntos relacionados às perseguições e preconceitos que sofreram no Brasil.

      Para elaboração desse post, decidi usar alguns noticiários que encontrei em sites especializados. Infelizmente as reportagens são bem redundantes, supostamente não houve muito tempo e recursos para reportagens mais abrangentes. 

Reportagem – Folha da Manhã, edição de 09/07/1943.

Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo

Abaixo, para facilidade de leitura, segue a transcrição da reportagem :

Não houve surpresa

Há muito tempo os súditos do "eixo" receberam ordem de abandonar o litoral

“Com o intuito de colher novas informações sobre os trabalhos de expurgo dos súditos dos países do “eixo”, do litoral do Estado (de São Paulo), a reportagem da “Folha da Noite” esteve ontem, a noite, na Superintendência de Segurança Politica e Social ,  encontrando o sr. Augusto Gonzaga, delegado de Ordem Política, no seu gabinete de trabalho.  Inteirado da nossa missão, o delegado de Ordem Politica nos adiantou que os trabalhos realizados pela policia estavam seguindo o curso traçado pelo superintendente da Segurança Politica e Social, segundo as autoridades ora destacadas na zona litorânea informaram. A parte sul, continuou S. S., já foi percorrida ate Itanhaen pelo sr. Tavares de Carmo, delegado Regional de Santos. Os serviços de transporte dos súditos do “eixo” estão se processando regularmente pela ferrovia, tendo chegado a esta capital numerosas famílias que estão sendo recolhidas no prédio da Imigração (Hospedaria dos Imigrantes) até ficar estabelecido o local em que cada uma dessas famílias deve residir no interior do Estado.

      A propósito do tempo gasto com a preparação do expurgo, o delegado da Ordem Politica nos declarou o seguinte :

      “Logo que assumiu o exercício da Supererintendencia de Segurança Politica e Social, há cerca de seis meses, o major Hildeberto Vieira de Mello teve sua atenção atraída para o problema de existência de numerosos súditos do “eixo” localizados na zona litorânea.

     De acordo com o resultado das averiguações “in loco” e estudos que vinham sendo feitos desde a administração anterior, constituía esse problema assunto de alta relevância, reclamando pronta solução que viesse acautelar os interesses da segurança nacional.

      Sem perda de tempo, o major Vieira de Mello expediu instruções para que todos os referidos estrangeiros fossem intimados a mudar-se do litoral, dentro do prazo razoável que lhes foi marcado.

      Muitos obedeceram prontamente, outros, porem, valendo-se do prazo de tolerância que lhes fora concedido, permaneceram.

      Agora esgotado o prazo, e tendo em vista as conveniências da ordem politica e social, foram adotadas as medidas coercitivas que se impunham para tornar efetiva aquela providencia por parte dos retardatários ou recalcitrantes, consoante já é do domínio publico.

      Tudo foi feito com ordem e não há motivo para qualquer alegação de surpresa por parte dos interessados, que foram prevenidos com bastante antecedência e, só a si mesmo poderão culpar pelo atropelo ou constrangimento, que as ordens ultimamente expedidas poderão estar ocasionando.

      Da parte da Superintendência tudo tem sido feito, para minora esses inconvenientes, sempre sem prejuízo da pronta execução da aludida providencia, que, a bem dos interesses da pátria, não pode sofrer qualquer adiamento ou tergiversão. “

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Reportagem - O Globo, 09 de julho de 1943

Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo

O Globo - edição de 10 de julho de 1943





O Globo - edição de 09-07-1943

Segue a transcrição da reportagem, para melhor legibilidade:

O Globo, 09 de julho de 1943

REMOÇÃO DE TODOS OS SÚDITOS DO EIXO DO LITORAL PAULISTA

Serão concentrados no interior, como medida urgente de segurança nacional

Chegam à capital bandeirantes as primeiras levas

SANTOS, 9 (Especial para O Globo) – todos os súditos japoneses e alemães residentes em Santos, em São Vicente de Guarujá, e litoral sul e norte do Estado de São Paulo estão sendo retirados pela polícia para campo de concentração existente no interior do Estado. A medida começou a ser posta em execução anteontem, pela manhã, e será extensiva aos súditos italianos.

MAIS DE 19.000 FAMÍLIAS ATINGIDAS – RETIRADOS TAMBÉM DAS PROXIMIDADES DA REPRESA DE SANTO AMARO

SÃO PAULO, 9 (Especial para O Globo) – a Superintendencia de Ordem Pública e Social acaba de desferir o segundo golpe contra a “Quinta Coluna”, removendo todos os eixistas do litoral paulista, para o interior do Estado. A medida, tomada por (ilegível) segurança nacional, é de grande amplitude representado o cumprimento de série de providências preventivas levadas a efeito, com o propósito de neutralizar possíveis atividades dos nossos inimigos, disfarçados. O Major Vieira de Melo, de acordo com o interventor Fernando Costa, e o Secretário de Segurança, senhor Coriniano de Góes, ver presidindo, com grande êxito, aos trabalhos de varredura do litora, conseguindo assim que os súditos do Eixo deixem seus domicílios, localizados em pontos estratégicos, para outras casas, onde não oferecem perigos à segurança nacional. A medida atinge particularmente, japoneses e alemães, os quais serão removidos rapidamente de toda a costa paulista para o interior. Os italianos foram colocados sob rigoroso controle sendo os suspeitos remetidos para São Paulo. Nestas condições, calculam-se em cerca de 10.000 famílias os que serão removidos, acabando-se, definitivamente com a presença de italianos e japoneses na área litorânea paulista. Hoje, começam as levas de retirantes, os quais viajam em trem especial. Foram encaminhados para Imigração, onde serão registrados, para depois seguirem para o interior, onde possam desenvolver suas atividades habituais, gozando relativa liberdade. Acredita-se que em poucos dias será completada a operação de limpeza, ação em que estão cooperando, turmas especiais de investigadores em toda a extenção da faixa litorânea, de norte a sul, fazendo paciente trabalho de sindicância na extensa zona. As providencias preventidas da Policia não se limitam apenas ao litoral, estendendo-se igualmente a toda a faixa da represa de Santo Amaro, de onde, também, estão sendo removidos todos os súditos do eixo. A medida teve grande repercussão, dado seu grande alcance, visto como completou (sic) o excelente trabalho das autoridades paulistas no sentido de evitar que os eventuais quint-colunistas, aproveitando-se de sua localização, pudessem servir de qualquer modo, aos inimigos do Brasil. 


Expulsao japoneses - Hospedaria dos Imigrantes
Imigrantes em fila, no desembarque na Hospedaria dos Imigrantes


Familia de imigrantes japoneses descendo do trem, em Hospedaria dos Imigrantes
Familia de imigrantes japoneses descendo do trem, em Hospedaria dos Imigrantes

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O abandono dos bens e o perigo de saques

Os camponeses japoneses evacuados do litoral tiveram que vender a qualquer preço e com urgência as suas criações (porcos, galinhas, cavalos, muares, etc), e também as suas safras.

As casas residenciais e comerciais foram fechadas e deixadas para trás, sob o risco de saques. Entretanto, esses bens não foram confiscados, e a polícia de Santos solicitou à população que respeitassem as propriedades, como pode ser visto nessa reportagem da Folha da Noite, edição de 09 de julho de 1943.

Nunca ouvi falar de casos de saques ou invasão de propriedades, e nem de litígios judiciais para reintegração de posse, de forma que supostamente as propriedades foram respeitadas.

Folha da Noite, 09 de julho de 1943.


Folha da Noite, 09 de julho de 1943

Enérgicas providências da polícia para garantir as propriedades dos súditos do eixo.

É grande o número de fazendas, chácaras e casas comerciais de japoneses, alemães no litoral paulista – comunicação do Delegado Auxiliar de Santos à população da cidade.

 

SANTOS, 9 – Do enviado especial da “Folha da Noite” – O delegado auxiliar de Santos, sr. Affonso Celso de Paula Lima, está adotando enérgicas providencias no sentido de que, com a remoção de cidadãos japoneses e alemães de Santos e de toda a orla litorânea, suas propriedades sejam perfeitamente garantidas, e a ulterior determinação das autoridades competentes. Essas propriedades incluem fazendas, chácaras, casas de negócio e outros bens.

O encargo que a referida autoridade está assumindo é da mais alta importância, pois são numerosos os súditos do “eixo” que possuem as mais diversas propriedades no litoral.

Em complemento às medidas tomadas nesse particular, o sr. Affonso Celso de Paula Lima acaba de fazer a seguinte comunicação, por intermédio da imprensa, ao povo santista: “A Delegacia Auxiliar de Polícia desta cidade espera e confia que o povo de Santos tome a si a vigilância e a guarda das propriedades, bens semoventes e plantações que estiverem nas suas vizinhanças e que foram deixados pelos seus proprietários, sem uma pessoa encarregada de zelar pelos mesmos, e apela para que cada um dos moradores da cidade se torne um auxiliar desta delegacia, fazendo chegar ao seu conhecimento, da maneira mais clara e urgente possível, a notícia de qualquer fato que possa desmentir a nobreza e a civilização que sempre caracterizam os habitantes desta terra de Santos.”


Continua no próximo post.... clique aqui 


Um comentário:

  1. Olá, Claudio, bom trabalho de pesquisa. Também estou pesquisando sb a história da imigração japonesa ao BR, especialmente no Vale da Ribeira Vc tem e-mail para fazer contato ?

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