A expulsão dos
imigrantes japoneses do litoral (1)
(post de Claudio Massayuki Hagi)
(Este post é um registro histórico, sem qualquer intenção de contestação, insinuação de retratação, julgamento, etc)
A História do Brasil que foi ensinada aos
da minha geração, no ginásio e colégio, era bem florida, enaltecendo nossos
heróis, contando nossas vitorias, etc, tinha um contexto moldado pelo então
Regime Militar, que na época enaltecia (com razão) o sentimento de patriotismo.
Porém alguns esqueletos foram esquecidos no armário, como foi o episodio da
expulsão dos imigrantes japoneses, italianos e alemães do litoral do Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial.
O motivo dessa expulsão foi absolutamente
absurda, surreal. Os militares brasileiros temiam que navios do eixo invadissem
nosso litoral, e os conterrâneos daqui os guiassem de alguma forma o
desembarque de soldados. Chegou-se a afirmar que eles iam a noite, nas
praias, guiar os navios e os submarinos com
sinais feitos com lamparinas de querosene (!).
Naqueles tempos, sem
porta-aviões e outros apoios logísticos,
era praticamente impossível um navio de guerra chegar ao Brasil, partindo da
Alemanha, Itália ou Japão. Além disso, os imigrantes eram praticamente todos
agricultores, nenhum executava atividade de pesca, ou seja, não tinham barcos
nem pratica nenhuma em navegar.
Como foram poucos os italianos e alemães
que se instalaram no litoral, praticamente todos os expulsos eram japoneses.
No litoral do Parana, os japoneses da Colonia
Kakatsu, atual Colonia Cacatu, foram também expulsos, trazidos para Curitiba. Os imigrantes japoneses não gostam e evitam falar assuntos relacionados às perseguições e preconceitos que sofreram no Brasil.
Para elaboração desse post, decidi usar alguns noticiários que encontrei em sites especializados. Infelizmente as reportagens são bem redundantes, supostamente não houve muito tempo e recursos para reportagens mais abrangentes.
Reportagem – Folha da Manhã, edição de 09/07/1943.
Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo
Abaixo, para facilidade de leitura, segue a transcrição da reportagem :
Não houve surpresa
Há muito tempo os súditos do "eixo" receberam ordem de abandonar o litoral
“Com o intuito de
colher novas informações sobre os trabalhos de expurgo dos súditos dos países
do “eixo”, do litoral do Estado (de São Paulo), a reportagem da “Folha da
Noite” esteve ontem, a noite, na Superintendência de Segurança Politica e
Social , encontrando o sr. Augusto
Gonzaga, delegado de Ordem Política, no seu gabinete de trabalho. Inteirado da nossa missão, o delegado de Ordem
Politica nos adiantou que os trabalhos realizados pela policia estavam seguindo
o curso traçado pelo superintendente da Segurança Politica e Social, segundo as
autoridades ora destacadas na zona litorânea informaram. A parte sul, continuou
S. S., já foi percorrida ate Itanhaen pelo sr. Tavares de Carmo, delegado
Regional de Santos. Os serviços de transporte dos súditos do “eixo” estão se
processando regularmente pela ferrovia, tendo chegado a esta capital numerosas
famílias que estão sendo recolhidas no prédio da Imigração (Hospedaria dos
Imigrantes) até ficar estabelecido o local em que cada uma dessas famílias deve
residir no interior do Estado.
A propósito do tempo gasto com a
preparação do expurgo, o delegado da Ordem Politica nos declarou o seguinte :
“Logo que assumiu o exercício da
Supererintendencia de Segurança Politica e Social, há cerca de seis meses, o
major Hildeberto Vieira de Mello teve sua atenção atraída para o problema de
existência de numerosos súditos do “eixo” localizados na zona litorânea.
De acordo com o resultado das averiguações
“in loco” e estudos que vinham sendo feitos desde a administração anterior,
constituía esse problema assunto de alta relevância, reclamando pronta solução
que viesse acautelar os interesses da segurança nacional.
Sem perda de tempo, o major Vieira de
Mello expediu instruções para que todos os referidos estrangeiros fossem
intimados a mudar-se do litoral, dentro do prazo razoável que lhes foi marcado.
Muitos obedeceram prontamente, outros,
porem, valendo-se do prazo de tolerância que lhes fora concedido, permaneceram.
Agora esgotado o prazo, e tendo em vista
as conveniências da ordem politica e social, foram adotadas as medidas
coercitivas que se impunham para tornar efetiva aquela providencia por parte
dos retardatários ou recalcitrantes, consoante já é do domínio publico.
Tudo foi feito com ordem e não há motivo
para qualquer alegação de surpresa por parte dos interessados, que foram
prevenidos com bastante antecedência e, só a si mesmo poderão culpar pelo
atropelo ou constrangimento, que as ordens ultimamente expedidas poderão estar
ocasionando.
Da parte da Superintendência tudo tem
sido feito, para minora esses inconvenientes, sempre sem prejuízo da pronta
execução da aludida providencia, que, a bem dos interesses da pátria, não pode
sofrer qualquer adiamento ou tergiversão. “
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Reportagem - O Globo, 09 de julho de 1943
Noticiando a expulsão dos japoneses do litoral do estado de São Paulo
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O Globo - edição de 10 de julho de 1943
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| O Globo - edição de 09-07-1943 |
Segue a transcrição da reportagem, para melhor legibilidade:
O Globo, 09 de julho de 1943
REMOÇÃO DE TODOS OS SÚDITOS DO EIXO DO LITORAL PAULISTA
Serão concentrados no interior, como medida urgente de
segurança nacional
Chegam à capital bandeirantes as primeiras levas
SANTOS, 9 (Especial para O Globo)
– todos os súditos japoneses e alemães residentes em Santos, em São Vicente de
Guarujá, e litoral sul e norte do Estado de São Paulo estão sendo retirados
pela polícia para campo de concentração existente no interior do Estado. A
medida começou a ser posta em execução anteontem, pela manhã, e será extensiva
aos súditos italianos.
MAIS DE 19.000 FAMÍLIAS ATINGIDAS
– RETIRADOS TAMBÉM DAS PROXIMIDADES DA REPRESA DE SANTO AMARO
SÃO PAULO, 9 (Especial para O
Globo) – a Superintendencia de Ordem Pública e Social acaba de desferir o
segundo golpe contra a “Quinta Coluna”, removendo todos os eixistas do litoral
paulista, para o interior do Estado. A medida, tomada por (ilegível) segurança
nacional, é de grande amplitude representado o cumprimento de série de
providências preventivas levadas a efeito, com o propósito de neutralizar
possíveis atividades dos nossos inimigos, disfarçados. O Major Vieira de Melo,
de acordo com o interventor Fernando Costa, e o Secretário de Segurança, senhor
Coriniano de Góes, ver presidindo, com grande êxito, aos trabalhos de varredura
do litora, conseguindo assim que os súditos do Eixo deixem seus domicílios,
localizados em pontos estratégicos, para outras casas, onde não oferecem
perigos à segurança nacional. A medida atinge particularmente, japoneses e
alemães, os quais serão removidos rapidamente de toda a costa paulista para o
interior. Os italianos foram colocados sob rigoroso controle sendo os suspeitos
remetidos para São Paulo. Nestas condições, calculam-se em cerca de 10.000
famílias os que serão removidos, acabando-se, definitivamente com a presença de
italianos e japoneses na área litorânea paulista. Hoje, começam as levas de
retirantes, os quais viajam em trem especial. Foram encaminhados para
Imigração, onde serão registrados, para depois seguirem para o interior, onde
possam desenvolver suas atividades habituais, gozando relativa liberdade.
Acredita-se que em poucos dias será completada a operação de limpeza, ação em
que estão cooperando, turmas especiais de investigadores em toda a extenção da
faixa litorânea, de norte a sul, fazendo paciente trabalho de sindicância na
extensa zona. As providencias preventidas da Policia não se limitam apenas ao
litoral, estendendo-se igualmente a toda a faixa da represa de Santo Amaro, de
onde, também, estão sendo removidos todos os súditos do eixo. A medida teve
grande repercussão, dado seu grande alcance, visto como completou (sic) o
excelente trabalho das autoridades paulistas no sentido de evitar que os
eventuais quint-colunistas, aproveitando-se de sua localização, pudessem servir
de qualquer modo, aos inimigos do Brasil.
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| Imigrantes em fila, no desembarque na Hospedaria dos Imigrantes |
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| Familia de imigrantes japoneses descendo do trem, em Hospedaria dos Imigrantes |
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~O abandono dos bens e o perigo
de saques
Os camponeses japoneses evacuados
do litoral tiveram que vender a qualquer preço e com urgência as suas criações
(porcos, galinhas, cavalos, muares, etc), e também as suas safras.
As casas residenciais e
comerciais foram fechadas e deixadas para trás, sob o risco de saques.
Entretanto, esses bens não foram confiscados, e a polícia de Santos solicitou à
população que respeitassem as propriedades, como pode ser visto nessa
reportagem da Folha da Noite, edição de 09 de julho de 1943.
Nunca ouvi falar de casos de saques
ou invasão de propriedades, e nem de litígios judiciais para reintegração de
posse, de forma que supostamente as propriedades foram respeitadas.
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| Folha da Noite, 09 de julho de 1943. |
Folha da Noite, 09 de julho de
1943
Enérgicas providências da polícia para garantir as propriedades
dos súditos do eixo.
É grande o número de fazendas,
chácaras e casas comerciais de japoneses, alemães no litoral paulista –
comunicação do Delegado Auxiliar de Santos à população da cidade.
SANTOS, 9 – Do enviado especial
da “Folha da Noite” – O delegado auxiliar de Santos, sr. Affonso Celso de Paula
Lima, está adotando enérgicas providencias no sentido de que, com a remoção de
cidadãos japoneses e alemães de Santos e de toda a orla litorânea, suas
propriedades sejam perfeitamente garantidas, e a ulterior determinação das
autoridades competentes. Essas propriedades incluem fazendas, chácaras, casas
de negócio e outros bens.
O encargo que a referida autoridade
está assumindo é da mais alta importância, pois são numerosos os súditos do “eixo”
que possuem as mais diversas propriedades no litoral.
Em complemento às medidas tomadas
nesse particular, o sr. Affonso Celso de Paula Lima acaba de fazer a seguinte
comunicação, por intermédio da imprensa, ao povo santista: “A Delegacia Auxiliar
de Polícia desta cidade espera e confia que o povo de Santos tome a si a
vigilância e a guarda das propriedades, bens semoventes e plantações que estiverem
nas suas vizinhanças e que foram deixados pelos seus proprietários, sem uma
pessoa encarregada de zelar pelos mesmos, e apela para que cada um dos
moradores da cidade se torne um auxiliar desta delegacia, fazendo chegar ao seu
conhecimento, da maneira mais clara e urgente possível, a notícia de qualquer
fato que possa desmentir a nobreza e a civilização que sempre caracterizam os
habitantes desta terra de Santos.”
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