Mostrando postagens com marcador chegada imigrantes kasato maru. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador chegada imigrantes kasato maru. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Kasato Maru - a chegada no Porto de Santos

Kasato Maru – a chegada ao porto de Santos

Antes da chegada - os noticiários

As saídas dos navios de imigrantes no Japão eram avisadas ao porto, às ferrovias, aos fazendeiros, à Hospedaria dos Imigrantes, etc com antecedência, para assim todos terem tempo suficiente para os preparativos para recebê-los. Os jornais da época acabavam também sendo informados.

O Jornal de Santos, em edição do dia 16/06/1908 noticiava a breve chegada do Kasato Maru: 

Jornal de Santos 16 de junho de 1908

A Tribuna de Santos, em edição de 01/05/1908, anunciava, mais de um mes antes, a chegada.

Tribuna de Santos 01/05/1908

O Jornal A Noticia (de Curitiba, Pr), anunciava com bastante antecedência (04/04/1908) a chegada do Kasato Maru e lamentava o fato, pois o país em geral era contra a imigração de orientais para o Brasil.


A Noticia, Pr, edição de 04/04/1908

A manifestação do governador Jorge Tibiriça

Em um depoimento ao jornal Correio Paulistano, edição 04/05/1908, o então governador do Estado de São Paulo Jorge Tibiriça anunciou que o primeiro navio de imigrantes estava prestes a chegar, graças ao apoio do governo dele. Salienta que o japonês foi escolhido, pois a Itália não permitia mais a emigração para o Brasil.
O depoimento do governador Jorge Tibiriça 01

O depoimento do govenador Jorge Tibiriça 02

O depoimento do governador Jorge Tibiriça 3


A chegada do Kasato Maru

O Kasato Maru nessa viagem foi capitaneado pelo ingles Alfred G. Stevens.

Partiu do porto de Kobe, em 28 de abril e chegou a Santos no dia 17 de junho de 1908. A travessia oceânica durou portanto 52 dias. 

Na hora da chegada era noite, o porto estava fechado e por isso o navio ficou parado a certa distância, esperando o raiar do dia. A noite deste dia, observando as luzes da cidade de Santos ao longe, foi um misto de grande júbilo pelo final da penosa viagem e muita ansiedade. Muitos choraram de saudades da pátria e dos parentes e amigos que ficaram para trás. .

No dia seguinte, 18 de junho de 1908 (data oficial do inicio da imigração japonesa ao Brasil) aconteceu a atracação, porém os imigrantes permaneceram ainda a bordo. Funcionários da saúde pública paulista subiram a bordo e deram uma rápida inspeção nos imigrantes.

Uma pequena comitiva, vinda de São Paulo, subiu a bordo para recepcionar os imigrantes: Arajiro Miura, Ministro Plenipotenciário Japonês, que veio de Petrópolis (Rj); Rafael Monteiro, representante da companhia de imigração; Teijiro Suzuki, secretário a Hospedaria dos Imigrantes; e Takeo Goto, comerciário, funcionário das Casas Fujisaki, de São Paulo.

Era véspera do Dia de São João e na noite de 18 de junho, ainda a bordo, ouviam-se rojões e alguns balões cortavam o céu. Comovidos, os japoneses pensaram que eram rojões de boas-vindas.

Na manhã do dia seguinte, 19 de junho os imigrantes foram acordados as 3:30. O café foi servido as 5:00, ainda a bordo. As 07:00 iniciou-se o desembarque e o embarque em trem com destino a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

No dia 20 de junho, os imigrantes receberam na Hospedaria um visitante ilustre: o governador do Estado de Sp Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, recém empossado. 

Um inspetor da Secretaria da Agricultura, J. Amandio Sobral, foi a hospedaria e produziu um relatório, publicado no Jornal Paulistano foi,  dando as primeiríssimas informações sobre os recém-chegados (veja post desta reportagem neste site). Essa reportagem é histórica, muito conhecida por todos estudiosos de imigração.

Kasato Maru em Porto de Santos, 1908

Desembarque dos imigrantes do Kasato Maru

O serviço aduaneiro na Hospedaria dos Imigrantes

No dia 22 de junho, funcionários da aduana iniciaram a inspeção das bagagens, para verificar alguma possibilidade de contrabando, mas absolutamente nada encontraram que pudesse ser taxado. A inspeção durou longos 2 dias, mais de 1.100 malas foram verificadas. Os funcionários da aduana elogiaram a paciência, a ordem e a colaboração dos japoneses na inspeção.

Seis dias após a chegada, um grupo de imigrantes desejou sair da hospedaria para dar um rápido passeio. Na rua, acompanhados de um guia da hospedaria, os japoneses foram cercados por curiosos, que nunca tinham visto japonês na vida. As moças imigrantes foram alvos de especial atenção.

No dia 27 de junho, finalmente, os imigrantes começaram a ser enviados para as fazendas, quase todas no norte de São Paulo,  onde assinariam contrato de trabalho. Estas transferências se estenderam até o dia 06 de julho.

A ferrovia para as fazendas tinha uma pequena estação anexa à Hospedaria dos Imigrantes. 

Estação Ferroviária Hospedaria dos Imigrantes

Estação Hospedaria dos Imigrantes, 1930

O inspetor da Secretaria da Agricultura (em seu relatório publicado no jornal) relatou que os japoneses deixaram a Hospedaria dos Imigrantes em absoluta ordem e limpa. “Os dormitórios quase não precisam ser varridos, mal se encontrando de longe em longe um pedacinho de papel ou um fósforo queimado...”

A reportagem da Tribuna de Santos e o preconceito contra os japoneses

O jornal A Tribuna de Santos, edição de 18 de junho de 1908, noticiou a chegada, acrescentado uma nota de insatisfação com a presença dos japoneses.



A Tribuna de Santos, 18 de junho de 1908.
(transcrição)

As 9:30 da manhã de ontem, entrou em nosso porto o vapor japonês Kasato Maru, consignado á casa Wilson Sons & Cia., desta praça. E' esta a primeira viagem que esse vapor faz para portos do Brasil, tendo levado 51 dias de Kobe a este porto, tocando em Singapura e Capetown.
O Kasato Maru, que tem 3.823 toneladas de registro e 01 homens (sic) de tripulação, e é comando pelo capitão A. O. Stevens, trouxe 781 imigrantes japoneses para nosso Estado, que hoje devem seguir para a capital em trem especial, que partirá às 9 horas da manhã.
O Kasato Maru tambem traz a seu bordo vinte e poucos passageiros de classe, em viagem de recreio.
As 5 horas da tarde o Kasato Maru atracou no cais das Docas, em frente ao armazém no. 14.
Durante a viagem desse vapor, e já em águas brasileiras, deu-se no dia 15 do corrente, as 11 horas da noite, um lamentável facto, que vai noticiado noutra parte desta folha.

    (N.R. Infelizmente, não consegui encontrar a “noutra parte desta folha”)

O nosso solo é tão vasto e está na maior parte desabitado, que de qualquer modo precisa povoamento.
A nossa lavoura, grita-se por toda a parte, está sem braços !
Pois bem. Aí vão braços novos, de uma potencia formidável.
Parabéns à lavoura paulista, apesar de que, a nosso ver, não é caso para isso.
A experiência tem demonstrado que essa colonização asiática tem dado mau resultado em toda a parte. Os japoneses não se adaptam aos países em que vivem, são refratários aos usos e costumes alheios, constituem, fora da pátria, uma sociedade sua própria, como acontece na América do Norte.
Antes o perigo germânico e o ítalo, que nos parecem imaginários. 

👉 Clique aqui para ler a reportagem do inspetor J. Amandio Sobral

👉 Clique aqui para ir ao mapa deste site

👉 Clique aqui para ir ao Portal do Claudio

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Kasato Maru– o incidente com Ryu Mizuno




O "calote" de Ryu Mizuno

Mizuno era um visionário, um empreendedor, mas um péssimo administrador. Sua companhia de imigração tinha algumas características de amadorismo. Tanto que somente no dia do embarque do Kasato Maru, Mizuno teve conhecimento que deveria pagar uma taxa portuária. Não tinha dinheiro para tal, e nem havia informado aos imigrantes a respeito. 

A situação era essa : Mizuno tinha em Kobe quase 800 imigrantes hospedados em diversos hotéis, esperando o embarque. As despesas de hospedagem e alimentação eram por sua conta, e ele não tinha dinheiro para liberar o navio. Alem de tudo isso, certamente o navio deveria pagar diária portuária para ficar atracado no porto. O prejuízo era grande e diário, e a situação era desesperadora para Mizuno. 

A companhia havia recolhido todo dinheiro de um grupo emigrantes, guardando-o em envelopes separados, a fim de custodiá-los em cofre a bordo. A companhia alegou, com razão, que poderia acontecer roubos ou extravios a bordo no decorrer da viagem. 

Não tendo dinheiro para pagar a taxa portuária, Mizuno negociou um desconto e conseguiu às pressas um empréstimo. Entretanto, não foi o suficiente, e por isso Mizuno lançou mão de uma atitude incrivelmente amadora : retirou de cada envelope custodiado um certo valor, sem comunicar aos imigrantes. 

Provavelmente Mizuno previu que se negociasse com os imigrantes no porto de Kobe, a confusão se estabeleceria, ele não ia convencer todos a pagarem as taxas portuárias. Preferiu, sabiamente, resolver o problema no desembarque, já no Brasil. 

Na chegada, já na Hospedaria dos Imigrantes, o grupo pediu de volta o dinheiro. Como Mizuno ainda não havia comunicado o acontecido, e não sabia ainda como resolver o problema, não se manifestou a respeito. Os imigrantes passaram a pressioná-lo. Acuado e sem parte do dinheiro, Mizuno inventou uma mentira, alegou que “ o dinheiro foi esquecido na sede da empresa no Japão”, e que deveriam esperar a remessa. 

Na iminência de embarcar nos trens rumo às fazendas, e sem o dinheiro, o grupo se exaltou e deram um ultimato a Mizuno, que teria reagido com violência, pode ter ocorrido até luta corporal.
Mizuno teve que se refugiar nos fundos de um pequeno escritório. Shuhei Uetsuka, um representante da companhia, postou-se em frente a porta do escritório e conseguiu salvar Mizuno. Habilmente, conseguiu convencer os imigrantes que o dinheiro realmente estava no Japão, e que não havia outra solução senão esperar a remessa.

Uetsuka recorreu a um fato bem conhecido pelos japoneses da época, o bushido, código de honra dos samurais, que pregava  o suicídio em nome da honra. Disse a todos que se Mizuno não devolvesse o dinheiro, praticaria o harakiri.

Acredito que Mizuno agiu da melhor forma: não podia deixar o navio parado no porto, pois as despesas diárias seriam impagáveis. 

Não se sabe se ele honrou os débitos mais tarde, é provável que ele esperou um momento melhor para se justificar a todos sobre o acontecido. 

Clique aqui para ir ao indice do blog