Gaijin x nihonjin - o preconceito mútuo
Quando era criança, na década de 60, até aos sete anos morei numa cidade do interior do Paraná, cujo curioso nome é Cidade Gaucha. Haviam duas famílias japonesas neste então vilarejo, uma delas era a nossa. Meus pais eram nisseis, portanto eu sou sansei. Quando andava nas ruas, muitas vezes alguns adultos me dirigiam palavras rudes, e muitas vezes ouvi esses detestáveis versos:
“Japonês calabrês, foi o diabo que te fez”
“Japonês da cara chata, come queijo com barata”.
Não sei até hoje que relação existe entre a Calábria e o Japão. Na época não sabia o que significava “calabrês”, mas imaginava que não era coisa boa.
Também me chamavam de “bode”, e quando eu passava, diziam “bééé´…bodinho…”, e riam. Não sei de onde tiraram essa associação entre o japones e o bode.
Por várias vezes, essas pessoas atiravam pedras, e riam quando alguma me atingia. Eu suportava aquilo calado, tinha medo de reagir. Afinal era apenas uma criança. Meu pai nunca era alvo deste tipo de atitude, alias, era uma pessoa bem popular e benquista no local. Eu só tinha uma certeza : era tratado assim apenas por ser japonês.
Eram os últimos resquícios da Segunda Guerra Mundial, que havia terminado há pouco mais de 15 anos. A propaganda anti nipônica ainda persistia em algumas pessoas, que ainda viam em nós “inimigos dos países aliados”. Alem disso, as pessoas que me azucrinavam cresceram sob o sentimento nacionalista da ditatura Vargas. Esses episódios são exemplos de que a unanimidade as vezes é burra, e a maioria nem sempre está com a razão. Os imigrantes japoneses nunca foram inimigos de ninguém.
Mais tarde, em 1964, nos mudamos para outra cidade, também no interior do Paraná, que na época se chamava “Tupãssi” (do tupi, “filha do sol”), belíssimo nome para uma cidade. Mudaram o nome da cidade, hoje é Assis Chateaubriand, horroroso e impronunciavel palavrão. Ali meu pai se sentiu no paraiso, pois a colônia japonesa era grande e bastante unida. Estava cercado de nihonjins, e melhor ainda, a esposa e os filhos também.
O preconceito contra o gaijin
Se por um lado existia o preconceito contra o japones, justiça seja feita, a recíproca também era verdadeira.
Os issei (imigrantes) e os da geração do meu pai (nissei) eram também, em alguns aspectos, preconceituosos contra os brasileiros não nipônicos.
Para eles, os “gaijin” (não descendentes) eram “inferiores”, e nós, os japoneses ( “nihonjin”), éramos melhores que eles. Por esse motivo, em alguma época, até quando puderam controlar, procuraram afastar os filhos (nissei ou sansei) da companhia dos gaijin. Amizades, só com os nihonjin(descendentes).
Esse preconceito teve, pelo menos, um efeito benéfico: para se manterem separados, segregados, os imigrantes fundaram em várias cidades os kaikan (Clube Japones).
Experiencia pessoal
Quando eu fazia amizade com um menino nihonjin, meu pai ficava contente. Se fosse gaijin, ficava contrariado, embora não proibisse a amizade; e deixava bem claro que não havia gostado muito do novo amigo.
O desejo do meu pai era impossível, meus melhores amigos de infância foram na maioria gaijin. As amizades surgiam na escola, na rua (brincava-se muito na rua), no campinho de futebol, etc.
Com o passar dos anos, meu pai, uma pessoa de rara inteligência, acabou por entender que a atitude dele era insana, e que era inútil e incorreto continuar com suas ideias de preconceito racial. E que ele era muito mais brasileiro do que japonês.
As origens do preconceito
Não culpo meu pai pelos seus sentimentos de segregação racial. Ele era filho de imigrantes, e o plano dos imigrantes era voltar para o Japão, levando os filhos nascidos no Brasil.
Para viabilizar esta volta às origens, era necessário que os filhos se casassem com descendentes de japoneses. Assim, todos retornariam ao Japão, juntos e felizes para sempre. Como voltar ao Japão, levando uma marido ou esposa brasileira ? Havia outro detalhe, na volta ao Japão, era necessário que se falasse o japonês, não o português. Por isso, os imigrantes japoneses formavam grupos étnicos fortemente isolados, cultural e socialmente. Meu pai nasceu e cresceu nesse ambiente, impregnado de cultura japonesa, e quis que eu e meus irmãos também gozassem desse “privilegiado ambiente”.
O fim da era de preconceitos no Brasil
O sentimento de preconceito racial era muito forte até o final dos anos 70, e foi se esvaindo a partir dos meados dos anos 80. E foi exatamente isso que aconteceu com a colônia japonesa: o preconceito contra os gaijin desapareceu completamente.
Vamos ser justos, enquanto existiu, o preconceito não era presente somente na colônia japonesa. Era generalizado, e o alvo principal do preconceito eram os negros.
Existem hoje manifestações raciais ? Sim, mas são exceções, e quando acontecem são duramente censuradas. Nos anos 70, 80, as manifestações raciais chegavam a ser motivos de risos e até deboche.
N.R. na lingua japonesa não existe o plural. Assim, por uma questão de purismo, escrevi de forma correta: "issei, nissei, nihonjin", etc. sem o "S".
É correto dizer ou escrever "sashimis, sushis, nisseis, yakisobas"? Sim, porque devido a popularização desses termos no meio brasileiro, essas palavras se incorporaram ao vocabulário português. Portanto no contexto da Língua Portuguesa, é admitido a forma no plural. Afinal, estamos no Brasil, e não no Japão.
Ola Claudio! Tambem sou da decada de 60, nissei e passei por todos estas discriminações e ofensas... sei o que passamos! Vou seguir o blog! Muito interessante!
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